O som de guitarra do Pink Floyd que nasceu por causa de um erro
Por Bruce William
Postado em 31 de maio de 2026
O Pink Floyd sempre teve uma relação curiosa com acidentes de estúdio. Muitas vezes, a banda parecia menos interessada em tocar "corretamente" do que em descobrir que tipo de ruído, clima ou sensação poderia sair de um equipamento usado de maneira pouco ortodoxa. Em "Echoes", uma das peças centrais de "Meddle", isso aparece de forma bem clara: um dos sons mais estranhos da guitarra de David Gilmour nasceu porque alguém ligou um pedal do jeito errado.
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A história envolve um wah-wah, efeito que já circulava com força no rock desde o fim dos anos 60. Eric Clapton havia usado em "Tales of Brave Ulysses", do Cream, Jimi Hendrix explorou o pedal em gravações como "Voodoo Child (Slight Return)", e vários guitarristas passaram a tratá-lo como uma extensão expressiva da guitarra. Com Gilmour, porém, o efeito ganhou outro caminho: em vez do "wah" tradicional, ele encontrou um grito agudo, quase animal, que muitos fãs associam aos sons de gaivota ou baleia em "Echoes".
Gilmour contou à Guitar Player que a descoberta não foi planejada. "Um roadie tinha ligado o wah do jeito errado, e eu pisei nele e tirei esse incrível ruído gritado. Mas, você sabe o que dizem: desperdício é pecado." Ele localizou o acidente por volta de 1969 ou 1970, período em que o Pink Floyd ainda procurava uma nova identidade depois da saída de Syd Barrett e antes da consolidação que viria em The Dark Side of the Moon.
O truque era simples na origem, mas difícil de transformar em música. Ligado de maneira invertida, o wah-wah reagia de outro jeito, produzindo um som instável e estridente. Nas mãos erradas, aquilo poderia virar apenas barulho incômodo. Nas mãos do Pink Floyd, virou textura. Esse é o ponto mais interessante: a banda não encontrou ali um "efeito bonito", mas algo que servia para criar tensão, estranhamento e aquela sensação de espaço aberto que marcaria parte de sua fase seguinte.
Antes de aparecer em "Echoes", esse som já teria sido usado em apresentações de "The Embryo", música que o Pink Floyd tocava ao vivo no começo dos anos 70, embora só fosse lançada oficialmente em coletâneas. A própria história do efeito ajuda a mostrar como a banda testava ideias na estrada antes de fixá-las em disco. O palco, nesse caso, funcionava como laboratório: se o ruído sobrevivesse ao teste diante do público, poderia encontrar lugar em uma composição maior.
Em "Meddle", lançado em 1971, "Echoes" ocupa todo o segundo lado do LP original, com cerca de 23 minutos. A música não nasceu pronta; foi montada a partir de fragmentos, passagens instrumentais, experiências de estúdio e ideias que a banda foi costurando até formar uma peça longa. O som do wah invertido aparece justamente dentro dessa lógica. Ele não é um enfeite jogado por cima, mas parte do trecho mais estranho e submarino da faixa, quando a música parece se desmanchar antes de voltar ao tema principal.
Esse detalhe também explica por que "Echoes" costuma ser vista como uma ponte importante na história do Pink Floyd, explica a Far Out. Ainda existe ali o espírito experimental dos anos sessenta, mas já com mais controle, mais arquitetura e uma noção melhor de narrativa sonora. Não é apenas psicodelia solta. A banda começa a encontrar uma forma de usar ruídos, repetições, dinâmica e espaço para construir uma viagem longa sem depender só de improviso.
O curioso é que um erro tão bobo acabou se tornando parte da assinatura de Gilmour naquele período. Ele não precisava tocar muitas notas para ocupar a cena; bastava encontrar um timbre que parecesse vir de outro lugar. Em "Echoes", esse som de guitarra funciona quase como um animal atravessando a faixa, algo entre o orgânico e o eletrônico, entre o defeito e a intenção.
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