David Gilmour estava inseguro até uma música devolver sua confiança no Pink Floyd
Por Bruce William
Postado em 02 de junho de 2026
Quando Roger Waters deixou o Pink Floyd em 1985, a saída não foi apenas mais uma troca interna em uma banda grande. Waters vinha sendo a principal força conceitual do grupo havia anos, especialmente em obras como "The Wall" e "The Final Cut", e tentou impedir que David Gilmour e Nick Mason continuassem usando o nome Pink Floyd. A disputa acabou levando a uma fase tensa, com briga jurídica, pressão pública e a dúvida sobre o que ainda poderia ser chamado de Pink Floyd.
Foi nesse contexto que "A Momentary Lapse of Reason" apareceu em 1987. O álbum marcou a primeira obra de estúdio da banda sem Waters e colocou Gilmour no centro da direção musical. Richard Wright voltou a participar, embora inicialmente como músico contratado, e o disco também contou com colaborações externas, algo que ajudou a reforçar a percepção de que aquele era um Pink Floyd em reconstrução.

A primeira música lançada como single nessa nova fase foi "Learning to Fly", composta por David Gilmour, Anthony Moore, Bob Ezrin e Jon Carin. A faixa tinha uma ligação literal com o interesse de Gilmour por aviação, mas também ganhou uma leitura simbólica inevitável: depois da saída de Waters, o Pink Floyd estava tentando levantar voo novamente. A canção chegou ao primeiro lugar da parada Album Rock Tracks da Billboard em 1987.
Em uma entrevista de 1995 a Karl Dallas, Gilmour explicou que via a música em mais de um nível. "'Learning to Fly', do ponto de vista espiritual, é sobre o Pink Floyd abrindo as asas de novo, assim como eu abrindo minhas asas de novo, e todo tipo de coisa", afirmou. "E aprender a voar, claro, fisicamente. Então há vários níveis nisso."
Gilmour, de certa forma, estava testando se o Pink Floyd ainda poderia existir sem Waters. E, goste-se ou não do resultado, "Learning to Fly" funcionou como uma espécie de cartão de visita dessa etapa, com produção típica dos anos oitenta, bateria mais marcada, teclados atmosféricos e a guitarra de Gilmour ocupando o espaço emocional que sempre foi uma de suas marcas. Inclusive o próprio "A Momentary Lapse of Reason" nunca deixou de ser discutido entre fãs. Há quem veja o álbum como um trabalho mais próximo de um disco solo de Gilmour com o nome Pink Floyd, e há quem defenda sua importância justamente por manter a banda ativa em um momento no qual muita gente achava que ela não teria futuro. A recepção crítica foi mista, mas o álbum chegou ao terceiro lugar tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos e vendeu muito bem, especialmente no mercado americano.
Deixando claro que nada disso apaga a importância de Roger Waters para a fase mais consagrada do Pink Floyd. Como bem coloca a Far Out, seria difícil imaginar "The Dark Side of the Moon", "Wish You Were Here", "Animals" ou "The Wall" sem sua presença. Mas "Learning to Fly" mostrou que Gilmour também via no nome Pink Floyd algo que ainda podia seguir adiante, mesmo em outro formato, com outra dinâmica e com outras limitações.
Talvez por isso a música tenha um peso maior do que sua posição na discografia sugeriria. Ela não é lembrada como uma das grandes criações do Pink Floyd dos anos setenta, nem tenta ser isso. Seu papel foi outro: registrar o instante em que Gilmour decidiu que a banda ainda podia respirar sem Waters, mesmo que o voo começasse com turbulência.
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