Dream Theater: Ainda capaz de proporcionar poderosas experiências

Resenha - Dream Theater - Dream Theater

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Por Renato Ridolfi
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Tendo como base as opiniões apresentadas por diversos fãs, incluindo a minha, em discussões acerca de quais são os álbuns do Dream Theater providos de mais qualidade, é possível constatar que “Images and Words”, “Scenes from a memory”, “Awake” e “Six Degrees” ocupam um lugar especial na discografia dessa banda. Tais álbuns, principalmente os dois primeiros, tornaram-se o parâmetro de comparação mais utilizado para se avaliar os álbuns que os nova-iorquinos têm lançado nos últimos anos.
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Embora muitas vezes a força e magnitude de um álbum só se demonstrem com o passar dos anos, com a forma a como este resiste ao teste do tempo para se incrustar na memória e coração dos ouvintes, tornando mais clara e definida sua capacidade de nos agraciar e gerar experiências poderosas, após algumas semanas e diversas audições de “Dream Theater”, tenho a impressão inicial de que este é o álbum que mais se aproxima dos citados acima.

Independentemente das circunstâncias que geraram a saída de Portnoy (a partir do que foi divulgado, creio que ambas as partes tinham razão em querer parar ou querer continuar, mas talvez o buraco seja mais embaixo e talvez nunca saibamos com precisão detalhes da dinâmica profissional e pessoal entre os integrantes que possam ter contribuído para essa separação), penso que a banda deu um salto qualitativo em “A Dramatic Turn of Events”. Em comparação com os álbuns pós- Six Degrees, uma maior ênfase na técnica, feeling e progressividade mais próxima do que produziram dos anos 90 foi captável nesse penúltimo álbum da banda. No entanto, talvez com a tentativa de se ancorar e primeiramente se fortalecer como um conjunto após a saída de um integrante fundamental, embora considere um ótimo álbum, “A Dramatic...” possui a mácula de ser claramente (talvez exageradamente) inspirado no próprio Dream Theater, mais particularmente no “Images and Words”. Lembremo-nos das já expostas semelhanças estruturais entre as músicas “On the Back....” e “Pull me Under”, “Lost not...” e “Under a Glass….”, “this is the life” e “Another day” e “Breaking all…” e “Learning to live”. Provavelmente se “Images and Words” nunca tivesse existido, “A Dramatic…” seria um álbum muito mais aclamado.

No entanto em “Dream Theater”, após essa possível auto-afirmação, os monstros do metal progressivo voltaram a andar e visitar outros territórios. Claro, nenhuma banda vive apenas de inspiração, mas também de transpiração, mas a transpiração agora é bem mais variada. Pode-se perceber agora uma variedade de nuances e influências bem mais extensa do que em seus trabalhos mais recentes. “False Awakening...” já foi planejada para ter ares cinematográficos para abrir shows da banda, e cumpre bem o seu propósito, com sua atmosfera tensa e por vezes lembrando filmes de batalha, capaz de criar o clima apropriado para suas apresentações. “The enemy inside” provavelmente sucederá a anterior nos shows, pela sua energia e agressividade; ótima música, uma porrada frenética, muito técnica e com um forte refrão. “Looking Glass” é uma primeira e grata surpresa; fortemente inspirada em Rush, lembrando principalmente “Limelight”. Belíssima faixa, como o Dream Theater há tempos não criava, provida de um grudento riff e refrão; me atrevo a dizer que talvez até tivesse condições de figurar em rádios e fazer grande sucesso se fosse lançada em outra época. Em “Enigma Machine”, que em breves momentos também lembra Rush , a banda aposta mais na criação de tema e frases instrumentais marcantes, o que me soou como uma escolha interessante; mas isso tudo, claro, intercalado com momentos de virtuosismo típicos já esperados. “The Bigger Picture” tem uma linda melodia, interpretada por Labrie com seu inigualável timbre delicado, o qual se encaixa perfeitamente em canções mais sensíveis e intimistas. Tem um ar de “Surrounded” nessa faixa, mas sem soar repetitiva. “Behind the veil” possui uma introdução atmosférica peculiar que por vezes lembra Pink Floyd, por vezes Kitaro, contrastada em seguida por riffs agressivos à la Megadeth. Embora seja uma ótima música, não sei explicar precisamente o motivo, mas essa me pareceu a faixa menos indispensável de um possível set list. “Surrender to Reason” é uma pérola, que música! Novamente uma introdução que lembra Rush, um desempenho soberbo de Myung e Mangini, uma letra fantástica do baixista (Myung é um poeta, e desde o álbum anterior deixou bem claro que é um crime desperdiçar seu talento nesse quesito, o qual poderia ser ainda mais aproveitado), e novamente um refrão forte e cativante. “Along for the ride” é uma balada com um ar mais alegre, que contém, para variar, a suavidade de Labrie e um refrão grudento, assim como um solo de Rudess com um timbre feliz que me pareceu adequado à energia da música, semelhante ao de “Lucky man” do ELP.

“Illumination Theory” merece um parágrafo à parte; trata-se de um épico que quanto mais escuto mais fico estupefato por sua excelência. Após a introdução, somos atingidos por um poderoso riff, seguido por linhas vocais que me remeteram a “Falling into Infinity”, virtuose típica, genial e desenfreada, e uma pausa....e que pausa. Novamente temos ares de música New age e pela primeira vez na história da banda uma passagem puramente orquestrada no meio de uma música, a qual embora não tenha sido arranjada por Rudess, teve sua linda melodia criada pelo tecladista. “The Embracing Circle” remete à trilha sonora de filmes antigos, e nos leva a um cenário composto por uma mágica mistura de melancolia e sublimidade. Podem-se notar ainda elementos presentes em ELP na parte instrumental de “The Pursuit of Truth”, bem como de Dixie Dregs em distintas passagens de toda a música (fica bem claro em diversos momentos do álbum que a admiração de Petrucci por Steve Morse não é da boca pra fora). O épico termina com “Surrender, trust & passion” de forma sentimental, intensa e primorosa. Não tenho vergonha em admitir que fiquei e continuo ficando arrepiado ao escutar essa passagem. E claro, e também inédito na banda, o recurso ao falso final (que, ao menos pelo que me lembro, só vi ser utilizado por Shadow Gallery em “First Light”), para em seguida terminar a experiência suavemente com o piano de Rudess.

Quanto ao desempenho dos integrantes da banda, confesso que fiquei mais impressionado com Myung. Não sinto o baixo dele tão evidente desde “Falling into Infinity; foi muito gratificante ouvi-lo claramente em linhas criativas e brilhando sozinho e até em momentos que Petrucci e Rudess solavam. Outro que destaco é Labrie, que concebo em franca ascensão desde “Octavarium”. Como mencionei, considero seu desempenho em canções intimistas inigualável, o sujeito é capaz de aplicar uma delicadeza e sentimento quase etéreo nesses momentos. Mas sua performance também é poderosa em passagens mais agressivas e intensas; particularmente em “The pursuit of truth” e seu “money, love and faaaaaaaaaith” fiquei de olhos arregalados, bem como com a presença e sentimentos impostos em “surrender, trust & passion”, os quais foram consideravelmente responsáveis pelo primor dessa passagem. Vi um Rudess positivamente mais sóbrio, investindo mais na criação de climas, atmosferas e belas melodias, brilhando e sendo frenético e virtuoso nos momentos apropriados, mas sem a fritação por vezes exagerada que atingiu o ápice em “Black Clouds....”. Petrucci, como sempre, é sem comentários, os riffs mais pesados criados em “The Enemy Inside”, “Behind the Veil” e “Illumination Theory” são de impor respeito a qualquer headbanger, bem como o de ar hard rock de “Looking Glass”. Sua ênfase em criar passagens mais melódicas e marcantes também é perceptível, e claro, demonstrando toda sua capacidade técnica e como é foda em diversos solos. Quanto a Mangini, sua bateria obviamente não é “in your face” quanto a de Portnoy, e provavelmente nunca será. Mas penso que isso é longe de ser um problema; sua entrada, coincidentemente ou não, tornou a banda mais equilibrada, e acredito que como corpo estranho e novo nesse “organismo” de quase trinta anos, ele se incorporará e se soltará gradualmente. Talvez seu melhor ainda esteja por vir, fica a impressão de que foi aberta uma fresta na jaula da fera, e que está irá se libertar aos poucos. De forma geral, fiquei muito satisfeito com seu desempenho, o qual penso ter sido bem inteligente; comedido e cadenciado quando tinha que ser, e voraz e intenso quando tinha que ser. Com as seguidas audições é possível perceber uma infinidade de nuances no seu soberbo desempenho e como formou uma ótima dupla com Myung, embora infelizmente ele desde que entrou na banda tenha que viver eternamente com o fantasma de Portnoy e dos outros possíveis substitutos (Minnemann, Donati,etc). Mas acho que isso não abala seu sono, é melhor ser o membro real da banda e demonstrar toda sua potência aonde desejava do que ser um fantasma frequentemente invocado.

Enfim, independente de comparações, as quais penso que se tornam mais precisas só com o tempo, fico apenas com a alegria e convicção de que "Dream Theater" é capaz de me gerar experiências fantásticas e sublimes que poucas bandas são capazes de gerar, e isso pra mim é o mais importante. Só me resta agradecer a esses caras por continuar criando essas obras capazes de incrementar “the joy in life”.

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