Dream Theater: Equilíbrio alcançado só pelos raros

Resenha - Dream Theater - Dream Theater

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Por Léo Martins
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


No dicionário, a definição da palavra equilíbrio possui diferentes significados, dependendo da área de atuação, seja ela física, sociológica, química ou até política. Em vias gerais, o equilíbrio pode ser definido como o estado de um corpo que está em perfeita harmonia, ou seja, com igualdade de forças entre os corpos que estão presentes naquela determinada situação. No sentido mais profundo e amplo possível, o Dream Theater conseguiu atingir e buscar o significado da palavra equilíbrio no seu mais recente álbum homônimo e, assim, adicionar um novo sinônimo para esta palavra.
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O novo álbum do Dream Theater estava cercado por muitas expectativas, principalmente por ser o primeiro trabalho em que o baterista Mike Mangini teria uma participação mais ativa. Tais expectativas ganharam mais força por conta das entrevistas concedidas pelos membros da banda antes de o disco ser lançado, apreensão esta maximizada quando o título do trabalho foi anunciado. Os próprios membros da banda, juntamente com todo o burburinho que a mídia especializada criou em cima de tal anúncio, trataram de dizer que todos entenderiam a escolha assim que o álbum fosse lançado. Tal compreensão foi obtida quando eu tive a oportunidade de fazer a primeira audição do CD.

O mais recente trabalho do Dream Theater é o mais claro exemplo de amadurecimento musical de uma banda, bem como a compilação de todos os elementos que fizeram do grupo o mais importante expoente dentro do gênero Prog Metal. Tal hipótese é comprovada nessa obra, passando por todas as músicas, os integrantes do grupo e até o nome do álbum que, de maneira literal, sintetiza o que é o Dream Theater.

Falando primeiramente das músicas, é claro e evidente que todas elas fazem referências aos álbuns que fizeram do Dream Theater a banda que é hoje. Isso, na minha visão, mostra a sensibilidade que a banda teve em identificar quais são os elementos que formam a sua identidade. E saber detectar isso exige muito autoconhecimento. Na introdução do álbum, por exemplo, a “False Awakening Suite”, que é a primeira música instrumental do disco, podemos identificar que não existem exageros. A introdução tem técnica na medida certa, mas, principalmente, é feita para que o fã possa agitar com a banda no show, sem precisar ficar “tão impressionado” com a técnica dos caras. Afinal, um dos grandes pontos da reputação do Dream Theater é justamente o fato de eles serem músicos extremamente competentes. Se isso é compreendido pelos fãs e pelos membros da banda, então para que ficar mostrando isso em todas as músicas, não é mesmo? E a firme e direta “False Awakening Suite” é uma amostra do equilíbrio que encontraremos no álbum.

A segunda faixa é a “The Enemy Inside”, composição escolhida para ganhar um clipe – bastante interessante, por sinal –, que traz um riff marcante, um refrão muito bom e arranjos muito interessantes feitos pelo teclado de Jordan Rudess – escreverei mais adiante sobre os integrantes. Aliás, nessa música, notamos de cara a contribuição de Mangini para o álbum e para as demais composições da banda. Com uma bateria muito pegada, mas ao mesmo tempo muito técnica, Mangini encontra o ponto correto que não destrua a imagem de Mike Portnoy – ex-baterista e fundador da banda - perante os fãs, mas que, ao mesmo tempo, insira sua personalidade e seu jeito de tocar em cada canção.

A faixa seguinte, “The Looking Glass”, na minha opinião, deveria ter sido escolhida como single. É uma faixa interessantíssima e que me faz relembrar da atmosfera, bem como em composição, da banda na época do “Images and Words”. A música é cheia de climas, tem um refrão muito bom, um trabalho de guitarra extremamente competente – tanto em arranjos quanto em riffs e solos – e, pela primeira vez em vários álbuns do Dream Theater, ouvimos e notamos o baixo de John Myung. Sim, ele está de volta para mostrar o quanto seu instrumento, trabalhado da maneira que se deve, faz falta nas composições do Dream Theater.

A próxima canção, “Enigma Machine”, é a segunda e última instrumental do disco. A música é extremamente bem feita e, assim como eu havia escrito antes, é uma canção que, apesar de ser instrumental, é feita para que o público possa agitar junto com a banda. Esqueçam aquela coisa de “ficar hipnotizado” com a música no show. Nessa faixa instrumental, todos os instrumentos tem seu espaço de maneira tão equilibrada que nenhum atropela o outro. Aliás, essa música – guardadas as devidas proporções – me lembra muito “Eritomania”, do álbum “Awake”, que é exatamente o tipo de música que você consegue prestar atenção nas técnicas dos músicos, porém, ao mesmo tempo, curte o som.

A faixa “The Bigger Picture”, para mim, é a melhor do álbum. Em música, eu sempre me atento em melodias e essa canção tem tudo o que, na minha concepção, uma composição precisa ter. Eu sou um crítico bem ácido do vocalista James LaBrie, mas nessa faixa ele traz uma interpretação extremamente sensível e de bom gosto, sem que sua voz soe exagerada. O trabalho de guitarra de John Petrucci acompanha toda a atmosfera sensível da canção, assim como os arranjos bem inseridos por Jordan Rudess. A música tem um final muito apoteótico e grandioso, o que me faz recordar todo o drama que ronda o álbum “Metropolis Pt. 2 – Scenes From A Memory”.

“Behind The Veil” dá continuidade ao álbum. Ela tem um começo bem psicodélico, com um teclado trabalhado de maneira bem peculiar, com Rudess apostando mais em efeitos, atmosfera e arranjo, do que na preocupação em ser uma “segunda guitarra” de John Petrucci. Logo após o refrão – aliás, muito envolvente –, quando a parte instrumental faz às vezes, notem que aqueles tempos quebrados – característica bastante peculiar de composições progressivas –, com todos os instrumentos seguindo a mesma dinâmica, aparece de maneira bem clara. Fazia tempo que eu não ouvia isso na banda.

Já “Surrender To Reason”, que é uma das minhas favoritas, tem diversas surpresas em seu decorrer. A primeira delas é a introdução, que tem um clima bem majestoso. Logo em seguida, um violão é inserido para que LaBrie possa cantar em cima – o que para mim soou muito interessante. Também com um refrão muito bem elaborado e melodias bem pensadas, a música tem diversas mudanças de nuances, o que a deixa com um charme todo especial. Por volta dos 3 minutos, a composição apresenta um tema extremamente bem encaixado, com os instrumentos marcando o tempo com a bateria, juntamente ao teclado de Jordan Rudess fazendo arranjos utilizando timbres de voz. Um pouco mais para frente, a música tem a mesma variação, porém, com John Myung dando destaque com seu baixo extremamente bem encaixado, uma bateria enaltecendo esse elemento e John Petrucci encaixando uma guitarra muito “doente” e “desconcertante”.

“Along For The Ride” é uma daquelas baladas pesadas. LaBrie também tem destaque nessa música, assim como um novo trabalho de violão encaixado por Petrucci. A música tem um tempo de bateria muito bem encaixado, arranjos orquestrados muito interessantes e um belíssimo solo de teclado no meio da composição inserido por Rudess, que claramente se mostra mais preocupado com a melodia do que com a rapidez ou em encaixar milhares de notas no solo. No entanto, “talvez” (notem as aspas) essa música não tenha o mesmo nível das outras composições. Isso, é claro, varia de pessoa para pessoa.

A última música do álbum é uma daquelas clássicas do Dream Theater. Ao longo de seus 22:18 de duração, essa é a maior e mais complexa canção desse trabalho. Aqui, temos de tudo: bons riffs, partes pesadas, tempos complexos, diversas variações, etc. No entanto, eu gostaria de chamar a atenção de você, leitor do Whiplash.net, para duas coisas específicas. O primeiro ponto é o teclado de Rudess, que usou tudo o que pode para se diversificar. Podemos notar diversos timbres, algumas batidas eletrônicas, mas principalmente, uma linda e magnífica parte orquestrada – que acontece por volta dos 08:40. O tema é muito belo, com uma harmonia estupenda e um clima bem sentimental. Logo em seguida, a música volta de uma maneira muito diferente e é este o segundo ponto que eu quero destacar. Myung e Mangini inseriram uma parte tão “louca” e desconcertante que faz qualquer um torcer o pescoço, imaginando o quão “doente” é este pedaço. Bateria e baixo, de maneira crua e seca, entram em uma sintonia tão fora do contexto da música que faz com que esta parte seja, com toda a certeza, uma das melhores já compostas pela banda. O trecho tem continuidade com Petrucci acompanhando a cozinha e com LaBrie encaixando um vocal muito interessante. Partes difíceis, solos complexos e outros agravantes – destaque também para um “dueto” do piano de Rudess e os aros da bateria de Mangini – dão o tom final da música. A canção acaba de maneira grandiloquente.

Falando um pouco da performance dos integrantes, todos eles parecem estar muito seguros de seu papel na banda, tanto é que ninguém atropela ninguém. James LaBrie parece estar muito à vontade em sua região de vocal cantando de maneira suave, sem forçar sua voz. A consequência é que nada saiu “gritado”. John Petrucci tem papel fundamental nesse quesito, pois seus riffs, sejam eles pesados ou mais leves, bem como seus arranjos de guitarra ou suas partes de violão, mostram que ele, além de ser um dos melhores guitarristas da atualidade, não precisa ficar demonstrando tal status em todas as músicas. Muitos dos riffs favorecem claramente a voz de LaBrie. Além do mais, Petrucci desenvolveu de maneira exponencial seu backing vocal, o que ao vivo fará toda a diferença. Mike Mangini não só deu conta do recado, como encontrou um ponto de equilíbrio que o permitisse manter as características que ajudaram a montar a reputação da bateria da banda e, ao mesmo tempo, inserir seu estilo, deixando a parte rítmica da banda com uma nova roupagem, mais moderna e com a sensação de que ele pode fazer literalmente tudo o que ele quiser na bateria. O cara toca absurdamente bem.

Já sobre o baixo do John Myung, eu lhes faço uma pergunta: há quanto tempo vocês não o ouviam de maneira decente e clara? Para aqueles que acompanham Dream Theater, a última vez que o baixo de Myung teve seu espaço respeitado foi no álbum “Six Degrees Of Inner Turbulence”. E olhe lá. Nos álbuns seguintes, ele teve lampejos em uma música ou outra ou, por muitas vezes, em nenhuma. Ele era “engolido” pela guitarra de Petrucci. Por fim, Jordan Rudess, assim como eu havia adiantado, deixou de ser um “segundo guitarrista” e agiu como um verdadeiro “tecladista mago”, posto este muito bem ocupado por ele.

Rudess investiu mais em arranjos ao revisitar a época de Kevin Moore, ex-tecladista da banda, e mostrou como estes detalhes faziam falta ao som; usou timbres que eram pouco explorados por ele e que deixaram as músicas com atmosferas mais belas; entendeu que, por muitas vezes, o menos é mais; compreendeu o que a música pede, agindo exatamente do jeito que ela pede – sendo ou não um segundo guitarrista; e mostrou a todos como deve ser a postura de um tecladista em uma banda de Prog Metal.

Ao fim de tudo, podemos concluir que, em um único disco, o Dream Theater conseguiu reunir todos os elementos que fizeram a banda ser o que eles são hoje. Seguramente, esse é o álbum mais equilibrado do Dream Theater, onde cada um conhece o seu espaço, sabe o que fazer com esta liberdade e, principalmente, entende como o outro pode melhorar o seu próprio desempenho. Com certeza, esse trabalho virou uma referência na discografia da banda por conter todos os elementos do Dream Theater. Afinal, o álbum em questão, de maneira literal, revisita basicamente todos os álbuns que criaram o estilo da banda: aqui, identificamos a técnica do “Awake”, o peso de “Train Of Thought”, o clima apoteótico de “Scenes From a Memory”, a grandiosidade de “Six Degrees Of Inner Turbulence”, a complexidade de “Falling Into Infinity” e até o cunho mais “comercial” de “Systematic Chaos”, etc.

Em resumo: o novo disco é perfeito para quem não conhece a banda, pois aqui se tem uma base do que esperar em toda a discografia do grupo. Já para quem é fã mais antigo, o álbum os deixa completamente promissores com o futuro e reverencia todos estes fãs ao reafirmar qual é a identidade da banda perante o cenário musical. O Dream Theater conseguiu chegar a um ponto onde poucas bandas conseguiram chegar. Obter o equilíbrio perfeito não é só uma tarefa para poucos: é uma tarefa e um feito alcançados somente pelos raros.

Track list:

01- False Awakening Suite
02- The Enemy Inside
03- The Looking Glass
04- Enigma Machine
05- The Bigger Picture
06- Behind The Veil
07- Surrender To Reason
08- Along For The Ride
09- Illumination Theory

Banda:

James LaBrie – Vocal
John Petrucci – Guitarra
John Myung – Baixo
Jordan Rudess – Teclado
Mike Mangini - Bateria

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