Resenha - Aqua - Angra

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Resenha - Aqua - Angra


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Na última quarta-feira (11), os músicos brasileiros do Angra abriram as portas do estúdio Norcal, em São Paulo/SP, para que a imprensa pudesse escutar com exclusividade o disco “Aqua”, seu sétimo lançamento de estúdio. Quatro anos depois do mediano “Aurora Consurgens” (2006), o quinteto – que agora conta com o baterista da formação clássica, Ricardo Confessori, de volta às baquetas – assumiu por conta própria a produção do álbum, o que parece ter sido uma escolha mais do que acertada. Com total e completo controle criativo, vemos um Angra retomando a evolução iniciada em “Temple of Shadows” (2004). “Aqua” tem todos os elementos clássicos que sempre se espera da banda, mas ampliando o flerte com o rock progressivo, fugindo de soluções simples ou refrões fáceis. O resultado final é intenso, moderno, criativo, poderoso. E com um detalhe fundamental: a volta definitiva aos elementos sonoros étnicos, em especial aqueles tipicamente brasileiros, que sempre foram marca registrada do grupo. É o Angra seguindo para o futuro, mas sem deixar o passado de lado.

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“Podemos dizer que o retorno e o reforço dos elementos étnicos foi bem pensado, já que trouxemos o Ricardo de volta e isso é uma coisa natural no som dele, dentro e fora do Angra”, explica o guitarrista Rafael Bittencourt, durante uma rápida e despojada entrevista exclusiva concedida ao Whiplash no dia da audição. “Mas isso também é uma coisa orgânica, que sempre esteve em nós, na nossa sonoridade. Então, também é natural para nós misturar estes elementos no som da banda”, completa.

Além da sonoridade étnica, o que “Aqua” traz de volta é um conceito único, repetindo seguidamente o que acontece com sua discografia desde “Rebirth” (que a própria banda fez questão de dizer que também era um disco conceitual). No caso de “Aqua”, a opção foi por contar a história de “A Tempestade” – considerada a última peça do escritor inglês William Shakespeare e que mistura amor e vingança em uma trama ambientada numa ilha habitada pelo poderoso mago Próspero e sua filha Miranda. O outro guitarrista, Kiko Loureiro, explica: “Apesar de toda a intimidade que temos, somos todos compositores bem diferentes. Trabalhar um conceito único ajuda a manter todos num mesmo foco, caminhando musicalmente numa mesma direção”.

A respeito deste trabalho em grupo, o vocalista Edu Falaschi reflete a opinião de todos ao dizer que, quase dez anos depois, a relação desta “nova” formação reunida desde o disco “Rebirth” continua melhorando a cada dia. “A gente se entende cada vez melhor, já sabe o que fazer em termos de arranjo, o que encaixa ou não”, complementa o baixista Felipe Andreoli. “Melhorou a facilidade e a familiaridade com que a gente faz as coisas. Estamos cada vez mais entrosados”, diz Kiko. “Para este disco, tínhamos muito mais material, muito mais canções que pudemos colocar na mesa para selecionar o repertório final”, afirma.

E embora uma parcela catastrofista dos fãs afirmasse que a participação dos integrantes da banda em diversos projetos paralelos (Almah, Bittencourt Project, Freakeys, Karma) pudesse anunciar o fim do grupo, os músicos discordam. Para eles, este tipo de atividade só ajudou a trazer novas experiências e sonoridades ao Angra – que, eles fazem questão de frisar novamente, é a sua atividade principal. “Mais do que músicos do Angra, somos todos músicos. Nossos amigos também são músicos, são pessoas que curtem tocar. A música, para nós, acaba não sendo apenas trabalho, mas também é hobby”, explica Felipe. “Pra nós, tocar é mais do que música, é um lance de estar com os amigos, com pessoas que gostamos. Quando não estou tocando no Angra, estou tocando com o Kiko, com o Rafael, com o Edu, com outros amigos”, conta.

Além da relação interna entre os integrantes, Rafael destaca que também vem melhorando substancialmente a relação do Angra com seus fãs. “Quanto mais tempo uma banda tem de estrada, mais parece aumentar a diferença entre a reação dos fãs e a da crítica. E sabemos que os fãs estão recebendo muito bem o novo disco”, opina. Para Felipe, no entanto, saber o que os fãs mais gostam no som do Angra não faz com que a banda acabe se “podando” ou “censurando” artisticamente. “Acho que é uma coisa que fica no nosso subconsciente, sabe? Nós naturalmente entendemos os nossos limites, até onde podemos chegar. Quando o Rafael compõe alguma coisa, por exemplo, ele sabe o que tem ou não a cara do Angra. E ele traz apenas o que se encaixa”, exemplifica. “Até porque a banda tem uma estética própria, não faz sentido pensarmos em algo fora deste conceito. Então, o bom senso vai sempre prevalecer”, adiciona Kiko.

Sobre o eterno fantasma da formação que trazia o vocalista André Matos à frente, o Angra admite que mesmo depois de nove anos, as cobranças e os questionamentos da imprensa e dos fãs continuam. Mas eles não consideram este processo como uma coisa necessariamente negativa. “As lembranças da formação antiga vão existir sempre, não tem como fingirmos que este pedaço da história do grupo não existiu”, afirma Edu, alvo eterno das comparações com André. Para ele, exemplos como a divisão dos fãs em casos como Ozzy x Dio (Black Sabbath) e David Lee Roth x Sammy Hagar (Van Halen) são a prova inconteste da importância de cada etapa, sem que um apague o talento do outro. “O vocalista caracteriza bastante a banda, não tem jeito”, confessa Rafael. “E isso é algo que não temos que esquecer mesmo, faz parte da nossa história, nunca quisemos apagar esta parte do nosso passado”. Felipe concorda: “Tanto não queremos apagar isso que sempre tocamos as músicas antigas, nem temos a intenção de tirar isso do repertório. É a nossa história e é uma história boa”.

E aproveitando o momento “questões cabeludas”, Rafael ecoa os outros integrantes quando diz que não agüenta mais responder perguntas sobre os problemas envolvendo o empresário, Toninho Pirani, epicentro de uma recente série de problemas financeiros e legais que, mais uma vez, quase acabaram com a banda – antes da saída do baterista Aquiles Priester. “Na verdade, a gente não gosta muito de ficar falando muito desta coisa de empresário, da parte de negócios da coisa, sabe? Eu poderia ficar horas falando da parte artística, das músicas, do conceito. Até mesmo explicar um milhão de vezes a história do nome da banda não me incomoda”, afirma. “Mas ficar repetindo sem parar estas coisas de business sem parar não tem nada a ver com a música, que é o que importa no final”

O DISCO

Então, vamos falar sobre a música, já que é o que importa mesmo. Definitivamente, a sensação de que a seleção de “Arising Thunder” para ser o primeiro single e a faixa de abertura de “Aqua” foi equivocada fica clara assim que se chega à terceira faixa, “Awake from Darkness”. Tudo bem, “Arising Thunder” pode ser uma boa música, vibrante e até empolgante. Mas é um tanto óbvia, um metal melódico em ritmo acelerado, com o pedal duplo funcionando a toda e a guitarra berrando alucinadamente. “Awake from Darkness” deixa claro que “Arising Thunder” está longe de ser representativa do restante das faixas de “Aqua”. A música já começa com o bem-vindo retorno étnico brazuca, uma batida de bateria com ecos de baião, cortesia de Ricardo, especialista no assunto. O baixo ritmado de Felipe pega pesado, as guitarras de Kiko e Rafael são ganchudas – e ainda somos surpreendidos por um interlúdio de piano/violino pré-solo, bem no meio da canção. A mesma sensação causa “The Rage of the Waters”, que mistura pitadas de música nordestina com uma furiosa levada de metalzão tradicional. O jogo definitivamente virou.

Depois de uma abertura com efeitos tecnológicos, “Hollow” traz aquele clássico e nervoso riff thrash metal que pelo menos uma das canções do Angra tem que ter em cada disco. Mas a quebradeira com seus momentos de violência consegue abrir, harmoniosamente, espaço para um momento de guitarra claro e cristalino, que remete a um certo Clube da Esquina. Relembrando “The Shadow Hunter”, a climática canção “Spirit of the Air” se inicia com uma levada espanhola, indo e voltando facilmente da porrada para a balada, caminhando para uma quebra épico-pomposa com direito a coral e fechando com um tema meio árabe. E o que poderia ser uma mistureba sem tamanho funciona perfeitamente integrada.

“Aqua” tem direito até a sua “Make Believe” particular, a ótima “Weakness of a Man”. Trata-se de uma música sem medo de flertar com a inspiração pop e que, ouso dizer, tem até momentos em que dá para chamá-la de “dançante”. E isso, por mais que os bangers tradicionalistas pensem o contrário, não faz com que “Weakness of a Man” fique menos heavy metal. Mesmo a bonitinha balada “Lease of Life”, que parece quebrar um pouco o ritmo de “Aqua”, continua sendo bem interessante, em especial pela guitarra que, antes do solo meio rock ‘n roll, arrisca até uma levada meio bossa nova. Mas talvez a faixa mais corajosa de “Aqua” ainda seja mesmo “A Monster in Her Eyes”, que traz uma das interpretações mais variadas de Edu. Ele começa quase declamando, como um bardo, em tom medieval, mas depois o bicho pega, levando-o a trechos bem mais agressivos e cheios de fúria, relembrando o tipo de desempenho que estamos acostumados a ver no Almah.

Para finalizar o disco, outro excelente momento, escolhido a dedo: “Ashes”. O teclado tétrico, soturno, quase filme de terror, já dá a dica do que vem a seguir. O vocalista aproveita a letra que fala justamente sobre o último ato da peça para entregar uma performance etérea, um musical com clima sombrio, do tipo ópera-rock. Perfeito.

É claro que, numa primeira audição, você já sabe dizer se gostou ou não deste ou daquele disco. Opinião todo mundo tem na ponta da língua, ainda mais nesta era internética. Mas “Aqua” é o tipo de produção que merece pelo menos mais umas duas ou três escutadas detalhadas, cuidadosas. Não é uma obra fácil de definir, de rotular, de dizer que é metal isso ou aquilo. Dá para dizer, no máximo, que é o Angra retornando à ótima forma, soando como o Angra clássico. E isso já é mais do que positivo.

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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