Em 07/07/2008 | Tributo ao Sarcófago: a lenda vive

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Tributo ao Sarcófago: a lenda vive


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O baterista mineiro Manu Joker, atualmente vocalista do U-Ganga, é um dos principais personagens do “Tributo Ao Sarcófago”, projeto que reúne ex-membros do Sarcófago e que revive o legado deixado por esse que é um dos maiores nomes do black/death metal mundial de todos os tempos.

Leia também a biografia do Sarcófago publicada na edição 10 da Valhalla.

Em entrevista, Manu relembra os primeiros anos de Sarcófago e disseca todos os boatos e lendas criadas ao redor da banda, como os desentendimentos com o Sepultura e R.D.P., o histórico show com o DRI, as bebedeiras, o radicalismo, a histórica cena mineira dos anos 80 e a possível volta oficial da banda com Wagner Antichist.

Manu Joker nos dias de hoje como vocalista do U-Ganga
Manu, vamos começar essa entrevista voltando lá pelos idos de 1989. Gostaria que você nos contasse como rolou sua entrada no Sarcófago.

Quando o Wagner [Antichrist – vocalista e guitarrista] se mudou para Uberlândia (MG), pouco após o lançamento do “I.N.R.I.”, ficamos amigos e ele começou a freqüentar os ensaios do Angel Butcher em Araguari [banda onde Manu toca bateria desde 1986]. O Sarcófago estava na geladeira já que o Butcher e o D.D. Crazy tinham pulado fora. Quando o Wagner e o G.G. [Gerald Incubus, baixista] resolveram gravar o segundo disco, me convidaram pra entrar na banda. Eu disse que topava gravar o disco, mas que não abriria mão do Angel Butcher. Eles concordaram e em pouco tempo o “Rotting” estava finalizado.

Nessa época o Sarcófago tinha acabado de lançar o "INRI" que é considerado um dos maiores clássicos da banda. Como era o clima do grupo nessa época? Os caras tinham noção que estavam começando a fazer história?

Mesmo tendo somente um disco e a participação na primeira “Warfare Noise” [coletânea lançada pela Cogumelo Records onde também participam Mutilator, Chakal e Holocausto] o Sarcófago já era bastante cultuado, inclusive pela nossa turma no triângulo mineiro. Eu conhecia a banda desde as demos, pois sempre fui amigo do Duarte, um primo do Wagner que era da nossa região e que faleceu há pouco tempo num desastre de carro. Eles já recebiam cartas do mundo todo e aos poucos ficou claro que o Sarcófago não seria só mais uma banda na cena. Aquilo era único, o que o D.D. Crazy fazia era único! O clima era bem legal, todos eram amigos, saiamos juntos, íamos a shows de outras bandas...

Você gravou o "Rotting" com os caras que é outro clássico absoluto da carreira da banda e de todo cenário mundial do black/death. Como foi o processo de criação desse disco? Você participou de alguma forma?

Ficamos um mês na minha casa em Araguari (MG), eu e o Wagner tocando todo dia, dando forma às músicas. Ele tinha tudo bem claro na cabeça, mas sempre me deu liberdade para participar na elaboração das músicas. Eu colaborei com algumas idéias de arranjos, em especial nas músicas “Rotting” e “Alcoholic Coma”, que tem algumas partes claramente inspiradas em thrash metal e hardcore. Ficávamos a semana toda arranjando as músicas e nos finais de semana o G.G. vinha de BH para tocarmos os três. Alguns riffs haviam sido criados pelo Wagner na época do Cirrhosis [banda que montou com o Juarez “Tibanha” logo após se mudar para Uberlândia] e vale salientar que ele nunca tinha tocado guitarra. O cara comprou uma guitarra Magnus do Gustavo (Angel Butcher) e no prazo de três meses já estava compondo altas coisas legais. A maioria das músicas saiu assim, em jams nos ensaios.

"Rotting" traz clássicos memoráveis do Sarcófago, especialmente a "Sex, Drinks & Metal" e a faixa título. Você lembra como elas foram compostas?

Apesar do Wagner ter composto a maioria dos sons, quem veio com os riff principal de “Sex, Drinks & Metal” foi o Gerald, e essa foi uma das últimas músicas a ficar pronta. A “Rotting” veio de idéias que o Wagner usaria inicialmente no Cirrhosis e posteriormente acrescentamos mais algumas partes deixando ela mais doom, algo mais Black Sabbath mesmo. O clima na época era muito positivo, éramos amigos motivados com um novo trabalho e dispostos a manter o nome da banda em alta. Uma típica, profana, alcoólica e luxuriosa banda de metal mineiro (risos).

Na época do "Rotting" o Sarcófago estava no auge de sua atitude anticristã e satanista. Esse fato está consumado na capa do "Rotting" que é uma das mais profanas de toda história do metal. Ela sempre foi muito chocante. Como foi criar essa capa na época?

A capa do “Rotting” foi feita por um grande artista mineiro chamado Kelson Frost. O cara fez capas para bandas como The Mist, Witchhammer, Ghotic Vox (banda onde ele era vocalista) e eu acho que realizou um puta trampo no “Rotting”. A idéia dessa capa veio de uma pintura da idade média. Um fato curioso é que apesar de ter topado fazer a arte, o Kelson disse que não colocaria coroa de espinhos na cabeça do suposto Jesus. Pra ele aquele era outro barbudo qualquer (risos), e nós respeitamos essa posição. Eu vejo essa arte como uma afronta à igreja católica e tudo o que ela representou desde a inquisição, mas não a considero satanista.

Você compactuava com as atitudes satanistas da banda nessa época?

Na verdade o Sarcófago nunca teve realmente uma “atitude satanista”. Creio que na época do “I.N.R.I.” o visual e as letras da banda remetiam mais a isso tudo, mas do “Rotting” pra frente a postura passou a ser mais agnóstica que propriamente satanista, e isso está bem claro no texto que o Wagner escreveu (em português) no encarte. Particularmente eu nunca dei a mínima pra esse papo de diabo, tridente, cruz invertida, etc. Isso pra mim é coisa de fanático religioso, e se tem algo que aprendi a separar é fanatismo/religião de espiritualidade, são coisas totalmente diferentes.

Como era a convivência com o Wagner e o Gerald na época? O que vocês costumavam fazer nas horas livres quando não estavam ensaiando ou compondo? Lembra de alguma "presepada" que tenha se envolvido com os caras?

Era um lance bem de amigos mesmo, saíamos juntos para beber, ir a shows de outras bandas... Nessa época eu era mais próximo do Wagner devido a vivermos na mesma região.

Já o G.G. morava em BH e nos encontrávamos somente nos finais de semana quando ele vinha pra minha casa. Sempre tinha alguma insanidade, geralmente provocada por bebida, já que foi uma época de muitos excessos. Eu mesmo antes de ser convidado pra entrar na banda fiquei um ano sem falar com o Wagner devido a uma briga que tivemos em Araguari, coisa de cachaceiro (risos). A gente bebia, fazia merda e depois dava risada (mais risos).

Os caras do Sepultura ainda estavam em BH nessa época, certo Manu? Como estava a relação do Sarcófago com eles? Havia toda essa rivalidade que tanto falam?

Por morar a seis horas de BH, nunca tive muito contato com essa treta. Na verdade, isso nunca me interessou, haja visto que antes de entrar no Sarcófago eu já curtia as duas bandas como fã. Mas sei que em BH o lance teve momentos bem críticos como quando o D.D. Crazy quebrou uma garrafa de cerveja na cabeça do Andreas. Essa divisão rolou até entre os fãs das duas bandas e, a meu ver, não trouxe nada positivo.

Mas por que, afinal, havia essa rivalidade?

Isso começou quando o Wagner foi mandado embora do Sepultura por causa de uma treta que, segundo me contaram, quem começou foi o Sílvio (ex-vocal do Mutilator e roadie do Sepultura por muitos anos). Há quem diga que teve mulher na jogada também, mas o que sei é que antes dessa treta todos eram amigos.

Manu, e por que você acabou saindo do Sarcófago? Quais foram os motivos?

Antes de gravar o disco eu já tinha falado pros caras que minha prioridade era o Angel Butcher e que eles estavam livres pra efetivar alguém no meu lugar quando fossem cair na estrada. Na verdade, meu estilo sempre foi mais voltado pro thrashcore, crossover, etc, mesmo curtindo muito death e black metal. Pra complicar ainda mais, eu estava entrando na faculdade de arquitetura e me mudando pra Uberaba (MG). Eles entenderam isso e na época não houve problemas. Quando pintou a chance do Sarcófago tocar com o D.R.I. em São Paulo, eu já estava fora do grupo, mas o Wagner me ligou e pediu que fizesse essas datas com a banda. Aceitei na hora, pois o D.R.I. sempre foi uma das minhas bandas preferidas e tocar com eles foi um sonho realizado. Ensaiamos em Uberaba (já com o Fábio Jhasko na segunda guitarra) e foi muito foda, com certeza nunca vou esquecer daquelas três apresentações, mesmo com a briga do Wagner com o Gordo no primeiro dia. Depois disso o Wagner veio a Uberaba pra conversarmos, ele me propôs entrar na banda em definitivo, inclusive já tinha o contrato assinado com a Music For Nations para lançar o disco na Europa, mas meu momento na banda tinha passado e preferi não continuar. Essa minha decisão acabou me afastando dos caras e só iríamos retomar a amizade 16 anos depois com a tour do Tributo.

Já que você citou, nos explique os detalhes do que realmente rolou lá no backstage do show do D.R.I. quando houve a briga entre o Gordo do RDP e o Wagner?

O que rolou foi uma treta entre o Gordo e o Wagner. Esse lance começou em BH numa apresentação do Ratos por lá, onde ele e o Wagner se desentenderam. Quando fomos pra São Paulo, o Gordo apareceu no camarim após o show de sexta e acabou rolando uma confusão onde sobrou pro roadie do DRI que levou uma correntada no braço. O Wagner estava bebaço caído no chão do camarim e o Gordo veio e deu um soco na cara dele, depois a galera do “deixa disso” entrou em ação e nessa hora o roadie do DRI teve o braço quebrado por uma correntada que eu acho que foi dada pelo Jão (guitarra do Ratos). Foi isso e mais nada. Eu nunca tive problemas com Sepultura e nem com o RDP, e por isso não rolou confusão pro meu lado. Na verdade, já conhecia o Gordo antes de ter tocado no Sarcófago, por causa do Angel Butcher. Em todo caso, acho que naquela época ambos, Wagner e Gordo, eram caras bem mais, digamos, "folgados" do que hoje em dia, e se hoje ambos estão mais mansos devem ter tido um bom motivo (risos). Tanto para brigarem quanto para mudarem e se tornarem pessoas mais tolerantes.

Mas qual era esse motivo, afinal?

O lance rolou pelo fato do Gordo estar andando direto com o Max na época e ter tomado as dores do Sepultura na treta com o Sarcófago. Eu não estava no show de BH, mas sei que o Wagner tava na platéia e bateu boca com o Gordo durante o show do RDP. Coisa de gole (risos). Ai em São Paulo o Gordo veio com uns chegados dele, os caras do Korzus, o Jão, e rolou a bagunça. Mesmo com várias pessoas em volta, a coisa toda foi mesmo entre o Wagner e o Gordo. Eu cago e ando pra isso. (risos)

Após deixar o Sarcófago você voltou pro Angel Butcher e depois formou o U-Ganga, certo? Como foi toda essa transição musical e ideológica de uma banda pra outra já que um grupo é bem diferente do outro?

Como disse, eu já tocava no Angel Butcher antes de entrar no Sarcófago. A banda foi formada em 1986 e na época do “Rotting” já tínhamos três demos lançadas. Foi por causa do Angel Butcher, mais precisamente de uma demo nossa chamada “Fuck The System”, que os caras me chamaram. Apesar de sermos uma banda de crossover, tínhamos vários “blast beats” nas músicas, uma parada meio Cryptic Slaughter, e o Wagner achou que eu era a pessoa certa pro posto. Depois que saí do Sarcófago continuei com o AB por mais um tempo [a banda acabou em 1992 e foi reativada em 2003]. Depois formei o Odd Mellody que era uma parada mais técnica, meio progressiva. Essa banda durou pouco e logo eu estava no Nuts, que viria a se tornar o U-Ganga anos depois. A transição de estilos pra mim sempre foi natural, pois meu gosto é muito variado, mas em todas essas bandas as principais referências sempre foram metal e hardcore, minhas raízes enfim.

Tributo ao Sarcófago ao vivo
Tributo ao Sarcófago ao vivo
Tributo ao Sarcófago ao vivo
Tributo ao Sarcófago ao vivo
Desde que deixou o Sarcófago você manteve contato com o Wagner e o Gerald?

Após minha saída da banda me afastei totalmente do grupo. Na verdade os caras se afastaram de mim devido a minha opção de não continuar, e na época isso me chateou bastante. A coisa piorou ainda mais quando o Wagner disse numa entrevista à revista Dynamite, na época do “The Laws Of Scourge”, que eu tinha sido tirado da banda e que tinha ganho “uma boa grana” pra gravar o disco, o que é uma tremenda e fodida mentira! Saí porque quis, ganhei uma caixa de discos e dois pratos Paiste em pagamento pela gravação do disco e dos três shows com o D.R.I. em SP, e tenho inclusive cartas do Wagner me pedindo que ficasse pra validar o que estou falando. Só fui retomar contato com a banda 16 anos depois quando o Gerald me convidou pra tocar no Tributo. Pouco depois me encontrei com o Wagner num show do U-Ganga em Uberlândia e a paz foi selada de vez. Na verdade da minha parte nunca tive maiores problemas com nenhum deles. Gosto desses caras, são boas pessoas e o que foi dito no passado não me interessa mais.

E como foi surgir a idéia de criar o “Tributo ao Sarcófago” depois de mais de 15 anos da sua saída da banda?

O Tributo ao Sarcófago rolou a partir de uma idéia da Cogumelo Records e do próprio Gerald. A princípio seria realizado apenas um show em Belo Horizonte para comemorar os 20 anos da coletânea “Warfare Noise” comigo na bateria, ele no baixo e músicos convidados, mas ficamos tão animados com o resultado que decidimos prolongar a festa um pouco mais e chamamos o Fábio pra somar na empreitada. Além de BH, também tocamos em Uberaba, Rio de Janeiro e no Chile junto com o Possessed. Só não fizemos mais datas pois o Gerald sofreu uma operação na coluna recentemente, e apesar de ter corrido tudo bem, ele vai ter que ficar um tempo de molho. Mesmo usando o nome Tributo e sem o Wagner, pra mim foi uma volta total no tempo, toquei nesses shows com o mesmo sentimento e amor ao metal mineiro que tinha em 1989. E, particularmente, acho que a banda hoje em dia está soando melhor do que “nas antigas”. É claro que o Wagner faz falta, mas eu acho que estamos com uma pegada bem mais precisa hoje me dia. Os shows do Sarcófago antigamente eram meio irregulares, até devido as tretas, bebedeiras, mudanças, etc.

Como foi tocar novamente com o Gerald Incubus depois de tantos anos? Como foram os primeiros ensaios com ele?

Eu não via o G.G. há 16 anos e quando o reencontrei foi numa sala de ensaios em Belo Horizonte e o cara já tava com o baixo na mão (risos). Isso no dia de tocarmos juntos pela primeira vez após tanto tempo! Na verdade, fizemos um rápido ensaio pro show do “Warfare Noise” e já fomos gravar um DVD. Acho que se tivéssemos gravado os shows que vieram depois teria sido melhor, pois no “Warfare Noise” tocamos praticamente sem ensaio e algumas coisas poderiam ter ficado mais coladas, como aconteceu nos shows posteriores. Mas em se tratando de Sarcófago, nada é muito planejado.

Antes de se pensar nessa idéia do “Tributo ao Sarcófago”, foi cogitado um retorno oficial da banda?

Não, este projeto sempre foi focado no nome “Tributo” e a razão principal foi a ausência do Wagner, que não quer mais tocar profissionalmente. Mas, apesar de não ter participado, o Wagner acompanhou e aprovou todo o projeto.

Por que o Wagner não quer mais tocar profissionalmente?

Cara, isso só ele pra responder ao certo. Acho que ele cansou um pouco de algumas coisas relacionadas à estrada. Ele está em outra rotina agora, trampando na UFMG, acho que ele optou por uma mudança mais radical na vida. Em todo caso, ele continua sendo o mesmo cara que curte som, toma uma cerva e vai a shows. Só não está interessado em nada sério com bandas. Digo sério, pois ele toca as vezes com uma galera de BH numa linha mais crust/hc, mas é uma parada só por hobby. A banda se chama Comando Kaos e ele é o guitarrista. Mas, pra falar a verdade, acho que uma hora dessas ele vai animar a tocar algum projeto. O cara ama música.

Mas você acha que o Sarcófago poderia, algum dia, voltar com sua formação oficial, incluindo o Wagner?

A chance é mínima, mas se um dia ele e o Gerald quiserem reunir o Sarcófago para uns shows e precisarem de mim, estarei pronto.

Além de você na bateria e o Gerald Incubus no baixo, o Tributo ao Sarcófago ainda traz outro ex-membro do Sarcófago, o guitarrista Fábio Jhasko (da formação do álbum "The Laws Of Scourge"). Como foi tocar com o Fábio, já que vocês fizeram parte do Sarcófago em épocas diferentes?

Apesar de não termos gravado um disco juntos, eu toquei com o Fábio na época dos shows com o D.R.I. e desde então nos tornamos amigos, porém depois que a banda acabou eu não fazia a mínima idéia de onde ele estava. Pra dizer a verdade, ninguém sabia onde ele estava, inclusive nas comunidades do Sarcófago no Orkut tinham umas lendas que ele tinha virado mendigo, mestre de Kung-fu, etc (risos). Foi justamente graças ao Orkut que nos encontramos e eu o convidei pra participar do Tributo. Acho o Fábio um puta guitarrista e o “The Laws Of Scourge” não existiria sem ele.

O que de fato aconteceu com o Fábio Jhasko? Onde ele estava?

Quando o Fábio saiu da banda a coisa não foi muito amigável e eles se distanciaram totalmente. Digo "eles", a formação do “The Laws”, pois eu já estava afastado da banda desde 92. Depois disso o cara começou a se dedicar ao estudo da música clássica, em especial violino, e só há pouco nos reencontramos, graças a internet. O Fábio é um grande amigo, uma pessoa com quem sempre tive um bom entendimento mesmo com o tempo que ficamos sem contato, e foi muito legal voltar a tocar com ele anos depois.

Então a história de ele ter virado mendigo é lenda?

Por ele morar em Sampa e o resto da banda estar em Minas, não sabíamos bem por onde ele andava e ai apareceram essas lendas. O lance do mendigo deve ter rolado quando algum fã do Sarcófago viu ele caído na rua bêbado (risos). As vezes ele invernava (mais risos).

Completam o time do “Tributo ao Sarcófago” o vocalista Juarez (ex-Cirrhosis) e mais dois integrantes da banda Krow (Guilherme e Mark). Antes de chamá-los, já que eles não foram membros do Sarcófago, vocês tentaram contatar os outros ex-membros da banda? E por que afinal da escolha deles para completar a formação? Houve um critério em especial?

O Juarez estava no projeto do Tributo antes de mim. Ele foi o primeiro a ser contatado pelo Gerald e, a meu ver, é a pessoa mais indicada ao posto na ausência do Wagner. Mesmo não tendo tocado na banda, ele sempre foi uma figura muito próxima do grupo, formou o Cirrhosis com o Wagner, foi roadie na tour do “The Laws” e anda com a gente desde meados dos anos 80. Os outros caras vieram por serem antes de tudo grandes fãs da banda, além de serem ótimos músicos e morarem em Uberlândia, o que facilitou muito. Por fim, todos são amigos e se respeitam, algo essencial nesse projeto. Os outros ex-integrantes não estão mais tocando e não teria por que chamá-los.

Como vocês selecionaram o set-list dos shows? Qual foi o critério usado?

Cara, procuramos tocar músicas de todas as fases, mesmo que alguns detalhes tivessem que ser mudados, em especial nas músicas gravadas com bateria eletrônica. Fizemos um set de uma hora e pouco que dá uma boa geral da trajetória do Sarcófago. Tocamos músicas que nunca haviam sido tocadas ao vivo como “Tracy” e “Orgy Of Flies”.

Conte mais como foram os shows que vocês fizeram. Qual era o clima, tanto no palco quanto por parte do público?

Foram muito legais e a recepção em todos foi fantástica. Em Belo Horizonte foi mágico, estava toda a velha guarda do metal mineiro e a platéia se matou durante todo nosso set. A parte técnica não foi das melhores, haja visto que praticamente não ensaiamos pra esse show, mas mesmo assim foi algo muito foda. Nas quatro datas o clima interno foi excelente, assim como a recepção do público. Inclusive no Rio de Janeiro, onde o Gerald não pôde tocar.

Tributo ao Sarcófago com Jeff Becerra do Possessed no Chile
E o encontro com o Jeff Becerra no Chile? Qual foi a reação dele sabendo que estava encontrando os ex-músicos do Sarcófago?

Caralho cara! Vinte anos atrás eu era um pivete que tinha acabado de comprar o “Seven Churches” e agora estava bebendo com um dos meus ídolos! Jeff “Fuckin” Becerra! Na minha opinião a voz definitiva do Death Metal! O cara ficou com a gente a maior parte do tempo que estivemos em Santiago. Quando chegamos ao hotel ele já quis nos conhecer e daí em diante ficou com a gente o tempo todo, inclusive foi e voltou na nossa van pro local do show. Ele e todos os caras do Sadistic Intent são muito gente fina e detonaram no show do Possessed. Eles levaram até um picture disc do “INRI” pra gente autografar! A única coisa negativa no Chile foi que bebemos um pouco além da conta e isso prejudicou um pouco nosso set, mas no geral foi uma viagem inesquecível. Na verdade um de nos bebeu mais do que poderia, mas isso já foi resolvido (risos). Além de ter tido a chance de tocar numa banda como o Sarcófago, o fato de ter dividido o palco com o D.R.I. e Possessed foi algo que nunca vou esquecer. Outra coisa engraçada que rolou no Chile foi que na volta o Fábio foi assediado por cães farejadores no aeroporto de Santiago e passou um belo aperto (risos). E na ida o Juarez ficou detido na alfândega por uns trinta minutos, pois entrou no país só com uma carteira de identidade toda detonada e dez reais no bolso (mais risos).

Esse show no Chile foi divulgado como sendo um show do próprio Sarcófago, não? Isso deixou o Wagner e o Gerald putos?

Essa confusão rolou por culpa do cara que nos contratou pra tocar no festival. Desde o início foi deixado bem claro que se tratava de uma tour comemorativa dos 20 anos da coletânea “Warfare Noise” que contaria com ex-integrantes e amigos e não se tratava de uma volta em definitivo da banda. Informamos tudo certinho, logotipo, formação, repertório, etc através de nossa empresária no Brasil. Porém, esse sujeito, que é mexicano, intermediou as negociações com o pessoal da produtora do Chile e omitiu essas informações. Pra gente ele falava uma coisa e pros caras falava outra. Tenho todos os e-mails trocados entre nós pra fechar esse show, assim como o contrato que foi mandado para eles, e em nenhum momento foi dito que era uma volta da banda. Isso gerou uma confusão na cabeça do público chileno assim como da imprensa local, e o filho da puta que causou toda essa bagunça nem apareceu no Chile. O cara agiu de má fé e ainda cobrou mais do que havíamos pedido no cachê, embolsando a diferença. Isso criou um pequeno mal estar na época, mas todos da organização sabiam que a banda não teve nenhuma culpa nisso. Fomos vítimas de um ladrão mentiroso! Já o pessoal do Chile foi muito certo com todos nós cumprindo tudo que havia sido acertado previamente, e no final todos ficaram satisfeitos.

A operação do Gerald foi então o motivo pelo qual vocês decidiram encerrar prematuramente as atividades do “Tributo ao Sarcófago”?

Sim. O Gerald não poderia mais tocar por um tempo devido a operação e achamos que não seria a mesma coisa sem ele. Mas faremos algo novamente no futuro, talvez com outro nome. Aliás, o Fábio Jhasko agora mora em Uberlândia e temos conversado sobre montar um novo projeto. Ele inclusive vai fazer uma participação no próximo disco do U-Ganga na música "O Primeiro Inquilino" tocando violino.

Você tem idéia do direcionamento musical que tomaria esse novo projeto como Fábio Jhasko? Algo na linha do Sarcófago mesmo?

Com certeza se voltarmos a tocar juntos será para fazer algo na linha do Sarcófago. Acho que seria uma mistura do “INRI”, “Rotting” e “The Laws...”, e tenho certeza que podemos gravar um puta disco novo, seja com qual nome for. Tem muita coisa boa no metal nacional, mas tem muita merda também. Muito extremismo de boutique! Acho que ainda podemos ser relevantes na cena. Se for pra gravar algo novo, que seja mais um clássico, e não qualquer bosta pra cumprir contrato com gravadora.

Manu, hoje no U-Ganga você trocou a bateria pelo vocal, por quê? Aliás, você vê alguma influencia no U-Ganga que tenha sido trazida pela sua experiência no Sarcófago? Há alguma compatibilidade entre as duas bandas apesar do U-Ganga ser uma banda 100% desencanada e livre musicalmente?

No começo eu era baterista do U-Ganga e fazia vocais só em algumas partes, porém com a saída do nosso vocalista resolvemos que eu assumiria os vocais principais e convidamos meu irmão mais novo (Marco Paulo, ex-Dull Kids) pra ocupar a vaga de baterista. O U-Ganga apesar de fazer outro estilo musical, sofre influência das bandas que seus integrantes tocaram no passado e o Sarcófago com certeza está no meio dessas influências. Na verdade, temos muita coisa do metal dos anos oitenta no nosso som, só não somos uma dessas bandas que quer viver do passado, como se estivesse em 1987. Acho isso ridículo.

U-Ganga com Manu Joker
Mas você sofreu algum tipo de retaliação por parte dos fãs do Sarcófago, já que no U-Ganga você flerta com diferentes influências como hip hop e dub, algo impensável para o Sarcófago?

Cara, apesar da grande maioria das pessoas entenderem e respeitarem minha trajetória, de vez em quando aparece algum revoltadinho criticando a mim e ao Fábio em especial, por estarmos tocando estilos diferentes hoje me dia. Eu no U-Ganga, que mistura sons mais pesados com uns lances mais groove, e ele por estar envolvido com música clássica. Na maioria das vezes são ataques pela internet onde os caras permanecem anônimos, mas isso não me incomoda. É coisa de escoteiro que toma Ovomaltine todo dia e recebe mesada dos pais pra ir pro shopping (risos). Estou na estrada há 20 anos tocando música pesada e não preciso me preocupar com essas ladainhas.

Já que tocamos nesse assunto, uma curiosidade: o Gerald e o próprio Wagner são hoje tão radicais como eram no passado? O que os caras fazem hoje em dia?

Na verdade ninguém no Sarcófago nunca foi radical e isso já foi deixado claro em várias entrevistas na época. Tanto o Wagner quanto o Gerald são grandes fãs de bandas como Kiss, Queen, AC/DC e hard rock em geral. O lance do extremismo sempre foi mais vinculado à sonoridade/aparência da banda do que propriamente aos gostos de seus integrantes. Particularmente, acho radicalismo uma tremenda merda. Você não precisa gostar de tudo, mas deve respeitar os gostos dos outros, isso sim é ser um homem livre! A maioria desses radicais é composta por escravos das próprias modas que criam. Se o Wagner curte algo que um determinado fã da banda odeia, isso não interessa. Ouça o que te agrada e pronto! Hoje em dia ele é professor universitário e o Gerald é formado em enfermagem e trabalha no ramo joalheiro, além de fazer algumas produções de bandas como Lustfull, Cirrhosis e Sextrash. Eu sou Arquiteto e Gestor Ambiental e o Fábio acaba de se formar em Música.

Pra finalizar, gostaria que você definisse em uma só palavra o que foi sua experiência como baterista do Sarcófago?

Aprendizado. Com certeza eu poderia ter usado outras palavras como “incrível”, “insano”, “fantástico”, etc, mas no final o principal de tudo foi o aprendizado.

Leia também a biografia do Sarcófago publicada na edição 10 da Valhalla.

Discografia Manu Joker:

com o Sarcófago:
Rotting (1989)

com o U-Ganga:
Atitude Lótus (2003)
Na Trilha do Homem de Bem (2006)

Contatos Manu Joker:
http://www.uganga.com.br
http://www.myspace.com/uganga
[email protected]

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Sobre Eliton Tomasi

Eliton Tomasi é produtor cultural e crítico musical. Foi fundador e editor-chefe da revista Valhalla (Rock Hard Brasil) – que foi uma das mais importantes publicações especializadas em rock do país. Sua experiência vai além do jornalismo, já que por 17 anos também atua como produtor de shows e eventos tendo já realizado desde pequenas gigs até produções internacionais de grande porte. Atualmente atua como empresário e assessor de bandas e artistas nacionais e internacionais, realizando frequentemente turnês pelo Brasil e Europa. Trabalha com as bandas Hellish War, Uganga, Imagery, Kappa Crucis, Psychotic Eyes, Slippery e Amazon.

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