Chris Cornell: Um show irrepreensível no Rio de Janeiro

Resenha - Chris Cornell (Citibank Hall, Rio de Janeiro, 12/12/2007)

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Por Cláudio Borges
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Chris Cornell parece cansado. Cansado do estrelato alcançado nas bandas que liderou e, sobretudo, cansado do rock em si. Sua aparência, no início do show, demonstrava uma apatia incompatível com a figura emblemática que puxou o Soundgarden para os holofotes da fama, no início da década de 1990. Hoje, prefere a tranquilidade e liberdade da carreira solo. Livre das amarras que uma banda de sucesso impõe.

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Mas estar só tem seu preço: seu trabalho solo não chega perto (seja em qualidade ou popularidade) dos feitos quando pertencia ao Soundgarden e Audioslave.

Misturando tudo isso, a avenida Cornell proporcionou um longo - duas horas e quarenta minutos - desfile de canções, passando pelos sucessos dos grupos, faixas pouco conhecidas de sua carreira solo e pérolas escondidas.

Despojado e se movimentando lentamente, Chris e sua banda abriram o show com a novata "Silence the Voices", do irregular "CARRY ON". Com tantos trabalhos diferentes, a escolha do setlist poderia ter tornado a apresentação desigual. Porém, ele soube dosar tudo na medida certa. Fica difícil reclamar quando, só na primeira parte, podemos conferir "Original Fire", "Show me how to Live" e "Be Yourself" do Audioslave; "Outshined" e "Spoonman" do Soundgarden; e "Hunger Strike" do Temple of the Dog. Se as músicas dos dois primeiros entusiasmaram, foi com a faixa do projeto dividido com os membros do Pearl Jam - para homenagear um amigo morto por overdose -, que o show teve seu momento mais emocionante. A platéia cantou em uníssono e foi perceptível a alegria com que o cantor e banda receberam a reação do público. Se o show tivesse acabo ali, já teria valido.

Fim do primeiro ato. Saem os músicos, entra o violão. Set acústico. Se com a banda e com o repertório mais pesado houve demora para se entusiasmar, sozinho ele estava mais a vontade. O que poderia funcionar como um banho de água fria, serviu para mostrar que suas composições se sustentam apenas(?) com a voz e o violão. As maravilhosas "Call me a Dog", "Like a Stone" e "Getaway Car" (nunca tocada nesse formato antes) são exemplos disso. Nessa última, nem o ótimo solo, do Tom Morello, fez falta. Ainda teve a soturna versão para "Billie Jean", de vocês-sabem-quem. Diferentemente do recém-lançado CD acústico, aqui a sua voz estava perfeita.

Atingindo todas as oitavas e sublinhando tudo com afinação e emoção. Poderia ter continuado assim, pois essa foi a melhor parte do show. Parece não fazer mais sentido para ele os distorcidos decibéis das guitarras, mas sim a delicadeza e intmidade do despojamento acústico. Seu próximo CD deveria contemplar esse formato.

"Doesn't Remind Me" (a melhor música que o Pearl Jam não fez nos últimos tempos) trouxe os músicos de volta. Trazendo também a pérola "Pushing Foward Back", do Temple of the Dog, logo após o trovão zeppeliniano de "Cochise". Quem esperava ouvir "Jesus Christ Pose" teve que se contentar com uma pequena intro emendada em "Arms Around Your Love". Era melhor que tivesse sido o contrário. Atendendo a pedidos de músicas do Soundgarden, mandou mais 3: "Fell On Black Days", "Black Hole Sun" e "Rusty Cage". Hora de descansar.

A parte final mostrou um Cornell mais participativo e reservou algumas surpresas. "Can't Change Me", única faixa do mal-compreendido "Euphoria Morning", teve uma discreta recepção. Desenterrando outra obscuridade, atacou de "Sunshower". Faixa composta para a trilha do filme "Grandes Esperanças". Depois de mais duas do Soundgarden ("Burden in my Hand" e "Slaves and Buldozers", que teve citações de "Searching With My Good Eye Closed", "4th of July", "Like Suicide" e "The End") o show aterrisou com o zeppelin de chumbo em "Whole Lotta Love".
Ficou claro que Chris Cornell está em busca de um caminho diferente do já trilhado. Se um dia esteve a frente do "Black Sabbath dos anos 90" e despejou a influência do grupo de Page e Plant no Audioslave, seu trabalho solo ainda procura identidade. Tentar um caminho acústico talvez seja uma saída. Mas o show foi irrepreensível.




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