O estranho erro geográfico de Humberto Gessinger em hit dos Engenheiros do Hawaii
Por Gustavo Maiato
Postado em 23 de agosto de 2025
Entre os muitos sucessos que marcaram os Engenheiros do Hawaii nos anos 1990, "Parabólica" é uma das músicas que mais dialogam com a vida pessoal de Humberto Gessinger. Escrita em homenagem à filha recém-nascida, Clara, a canção foi lançada em 1992 no álbum "Gessinger, Licks & Maltz" e se tornou um clássico imediato. Porém, como mostrou o pesquisador musical Julio Ettore em seu canal no YouTube, a letra esconde um detalhe curioso: um erro geográfico.
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De acordo com o próprio Humberto, a música nasceu em Belém do Pará, durante a saudade que sentia da filha. No livro "Para Ser Sincero", o cantor escreveu que compôs a letra em um quarto de hotel, observando uma antena parabólica pela janela. Mas há um problema aí. Segundo Ettore, os registros de apresentações dos Engenheiros não apontam nenhum show em Belém naquele período. "A lista de shows da banda mostra que eles tocaram lá em maio de 1989 e depois só em janeiro de 1993. Ou seja, se o Humberto estava mesmo em Belém quando escreveu, não foi com a banda. Pode ter sido outra viagem, ou até um equívoco de memória", explica.
Além disso, a letra inclui o verso "Paralelas que se cruzam em Belém do Pará". Do ponto de vista matemático, é impossível que retas paralelas se encontrem — mas a licença poética de Gessinger ignora a lógica para criar efeito sonoro. "O Humberto sempre foi acusado pelos críticos de forçar jogos de palavras. E Parabólica é cheia disso, com os ‘pês’ e ‘pás’ se repetindo o tempo todo. Ele estava mais interessado na sonoridade do que no sentido literal", comenta Ettore.
Outro detalhe revelado no vídeo é que a melodia de "Parabólica" não foi criada por Gessinger, mas pelo guitarrista Augusto Licks. Na época, as tensões internas na banda já eram grandes, mas Licks decidiu gravar sozinho uma base acústica no estúdio. "Ele passou horas compondo, gravou dois violões, um tecladinho e até uma percussão eletrônica. Quando o Humberto ouviu, achou que se encaixava perfeitamente para uma letra que já tinha — justamente a que ele tinha escrito para a filha", relata Ettore. O arranjo foi depois finalizado com bateria e baixo, resultando no hit que conhecemos.
Assim, a canção que eternizou a chegada de Clara carrega também uma história de contradições: de um erro geográfico nunca totalmente explicado, de versos que brincam mais com sons do que com significados, e de uma criação musical que nasceu de forma improvisada em meio a conflitos de bastidores. Para Ettore, isso só reforça a força da obra: "No fim das contas, Parabólica mostra bem o estilo dos Engenheiros. Uma mistura de poesia, acaso e estranheza — e é justamente isso que faz a música ser tão marcante até hoje."
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