Resenha - Ian Anderson (Credicard Hall, São Paulo, 28/04/2005)

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Por Thiago Sarkis
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Sem desconsiderar a importância imensa de Martin Barre, Clive Bunker, Glenn Cornick, Barriemore Barlow, ou mesmo as pequenas, mas fecundas contribuições dos recentes Doane Perry, Andrew Giddings, e Jonathan Noyce, falar de Jethro Tull é se referir a Ian Anderson. Você pode retirar qualquer outro integrante do palco, mas enquanto o carismático flautista estiver lá, teremos caracterizada uma apresentação da legendária banda britânica.

Isto posto, quando se anuncia a turnê de “Ian Anderson & Orquestra” no Brasil, sabe-se que algo de muito especial está por vir, especialmente para os fãs de rock progressivo. Ainda assim, no local do grande evento, o Credicard Hall, podíamos notar uma vastidão de admiradores também de estilos aparentemente dessemelhantes, com camisas de Slayer, Anthrax, Angra, Nightwish, Slipknot, etc. Nada mais que justo, comprovando a efetividade da ilimitada e transcendental obra constituída firmemente pela Jethro desde 1968, com o debute “This Was”.

O concerto inicia-se sem maiores atrasos e com todo respeito ao público que o ambiente clássico de violinos, oboés, violoncelos, trombones, trompas, violas, etc., exige, além da postura sempre deferente da principal atração em relação a seus fãs.

De imediato, ênfase dada a “Rupi’s Dance” (2003), álbum solo de Anderson, com “Eurology” e “Calliandra Shade (The Capuccino Song)”. Na seqüência, uma quantidade maior de sensações é percebida com “Skating Away On The Thin Ace Of The New Day” do histórico “War Child” de 1974. Até aí, apenas Anderson no palco, escoltado por uma banda tradicional de rock num formato mais “acústico”, com violão, baixo, bateria e teclados.

O mesmo contorno persiste no aquecimento para a entrada da orquestra. A quarta música, “Up The Pool”, proveniente de “Living In The Past” (1972), é o ponto derradeiro do êxtase, seguida pela hodierna “We Five Kings”, gravada no novo milênio para “The Jethro Tull Christmas Album” (2003).

Os vinte e oito músicos da Orquestra Popular Paulista emanam finalmente para o esperado encontro com o líder do Jethro Tull e o rock do conjunto que o acompanha. Um clima já bem preparado e propício para as intervenções dos instrumentos em cena, e a execução de canções eternas.

A emoção transpira na face de violinistas e fãs na contundente seqüência “Life Is A Long Song”, “In The Grip Of Stronger Stuff” e o segundo grande estrondo da noite com “Wond’ring Aloud”. Em destaque também a interação de Anderson com o público e sua já conhecida presença de palco. Introduz as músicas, fala de seus companheiros, conta histórias, sorri, entretém.

“Griminelli’s Lament” encanta pela beleza, mas obviamente não tem o mesmo efeito das anteriores, sendo uma composição do supradito “Rupi’s Dance”. Porém, a tríade arrebatadora composta por “Cheap Day Return”, “Mother Goose” e “Bouree”, todas do essencial “Aqualung” (1971), volta a mover os seguidores já irriquietos em seus acentos. O anúncio de uma breve paralisação dá continuidade aos aplausos já fervorosos após o inesquecível seguimento de clássicos do Tull.

O retorno é marcado pela instrumental “Boris Dancing” do CD solo “The Secret Language Of Birds” (2000) de Ian, com as devidas menções à inspiração para a composição; a patética dança do primeiro presidente da Rússia, Boris Yeltsin, durante sua campanha presidencial em 1996, na qual fora derrotado (será porque hein?) por Vladimir Putin. A imagem da comédia-pastelão vira arte suma na flauta do escocês.

“Living In The Past” encerra a presença de Ian Anderson e seu grupo sozinhos no palco. O ‘gran finale’ vem obviamente com a orquestra completa e começa com “Pavane”, a qual prepara o momento mais esperado do show, “Aqualung”, a música, com tudo o que tem direito e quase dez minutos de duração! Por incrível que pareça, não foi a passagem de maior relevância do espetáculo. Os novos arranjos, inegavelmente maravilhosos, de alguma forma mostraram como uma composição pode receber a dimensão de intocável com o passar do tempo. Falamos de uma circunstância atípica e válida, até por motivos históricos, e independente de resultados. Todavia, “Aqualung” é de uma imensidão incalculável, e ousar tocá-la para além de sua versão original se transforma numa armadilha a qualquer orquestra, país, músico. Nem mesmo o próprio Ian escapa destes perigos.

“God Rest Ye Merry Gentlemen”, “My God”, e treze minutos de “Budapest” - estendida por vários solos, intervenções orquestrais, e também improvisos - enchem os olhos antes do último bis, já com o público de pé, quase invadindo a arena, para a fantástica “Locomotive Breath”.

Mais uma visita soberba do Jethro Tull ao Brasil. Jamais será esquecida, principalmente pela unicidade de tudo o que a envolveu, mas também pela incrível e, na verdade, já esperada alta qualidade apresentada.

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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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