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Resenha - Bananada 2003 (Martim Cererê, Goiânia, 23/05/2003)

Por Gustavo Ponciano e Lourdes Souza
Postado em 23 de maio de 2003

Apresentando estilos diversificados, Festival Bananada movimenta o cerrado brasileiro com 3 noites de puro rock’ roll

Fotos por Jamilla de Castro

Durante os dias 23, 24 e 25 últimos, 36 bandas se apresentaram para aproximadamente 3 mil pessoas em Goiânia, no Centro Cultural Martim Cererê. Os shows foram realizados nos teatros Pyguá e Yguá, intercalados, quase sem pausas: enquanto uma banda se apresentava, a outra se preparava para tocar na seqüência. Goiânia teve shows das mais variadas vertentes do rock, como indie, punk, metal, stoner rock, funk e rap.

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Além da música, o Festival Bananada 2003 ofereceu outros atrativos, como bancas de livros, fanzines, discos e camisetas de selos da cidade e de outros estados. A banca mais interessante de todo o festival foi a de livros do Sebo 264, de São Paulo. Lá era fácil encontrar clássicos e raridades literárias. James Joyce, H. P. Lovecraft, Ezra Pound, Franz Kafka, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges eram alguns dos autores vendidos por preços corrosivos. O mais barato, por nós encontrado, custava R$ 15,00 e o mais caro, singelos R$ 98,00.

A primeira noite do Bananada teve como atração principal Jorge Cabeleira que, mesmo com um público reduzido devido ao horário, mostrou o misto sonoro do mangue bit, rock, baião e levadas blues. O trio do Recife apresentou um show com qualidades técnicas e sonoras que não os deixam fora dos principais nomes do movimento Mangue Bit brasileiro.

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Porém, os destaques da noite foram as bandas MQN e Necropsy. Com um Death Metal sem muita inovação, o Necropsy mostrou muita qualidade e profissionalismo.A lotação do teatro provou a força da cena de metal em Goiânia e que o grupo tem um público cativo, que nos intervalos das músicas gritava o nome da banda.

Com o show mais animado da noite, o MQN estremeceu as estruturas do Martim Cererê com o seu chamado "stoner rock". A banda apresentou novas canções e caiu na graça do público com a música "Club and Drugs", do disco "Hellburst", que, segundo a Monstro Discos, já vendeu mais de mil cópias. O vocalista Fabrício Nobre dizia a todo o momento para os presentes balançarem o rabo e de certa forma ele foi atendido; o público dançou muito na "roda de pogo". Antes dos goianos, foi a vez dos brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju, que apresentou um ska com um vasto naipe de metais. O grupo mostrou intimidade no palco dividido entre dez integrantes. O Violins, grupo que passa por uma transição de músicas com letras em inglês para o português, fez um show com versões de seu primeiro cd-demo, cantando em inglês, e novas composições, que vão integrar seu novo disco, com lançamento previsto para o próximo semestre. A apresentação corria bem até ser interrompida por duas latas lançadas sobre o vocalista Beto Cupertino. Após as agressões, ele decidiu interromper a apresentação, mas foi convencido pelo público e pelo restante da banda a voltar. Então, com mais tranqüilidade, completaram o show com canções inspiradas no morgado rock inglês. As bandas NamoSka, Cherry Bomb (PR), Chantilly (DF), Barfly, Réu e Condenado, Forgotten Boys (SP) e Pipodélica (SC) fizeram parte da seleção de sexta-feira.

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No sábado, foi a vez dos Seletores de Freqüência, banda liderada pelo ex-vocalista do Planet Hemp e do Funk Fuckers, B Negão, movimentar o público. O grupo faz jus ao nome: pedais e montão de botões para controlar os efeitos nos instrumentos (incluindo um trompete) e vozes. Eles aproveitaram o poder do microfone para divulgar o seu primeiro cd, Enxugando Gelo, que traz uma mistura muito interessante de rap, funk, hardcore, hip-hop, samba e música eletrônica. Uma das músicas do show, intitulada "Dança do Patinho", ironizou as produções comerciais com uma mescla de funk carioca e hardcore.

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Antes dos cariocas se apresentaram os mineiros do Hot Rod Combo. Mesmo com uma guitarra que não parava de pipocar e um baixo acústico soando muitas vezes desafinado, o grupo surpreendeu os espectadores com um rockabilly flertando com o country rock. "Um dos melhores shows do festival, com rock de verdade, e confesso estar surpreso com o som dos caras", afirmou o espectador Luciano Nóbrega, que dançou durante todo o show. A banda também ousou no visual retrô e nas performances de palco, com um baterista à moda clássica do rockabilly, tocando em pé. Certamente a banda não é só o que conseguiu fazer na noite de sábado, mas, no Bananada, o Hot Rod Combo teve muito mais pose e visual do que som propriamente dito. O ponto alto do show dos mineiros foi uma versão longa de Rock this Town, do Stray Cats, antiga banda do guitarrista Brian Setzer. E justamente nessa música a banda foi autora de um fato inusitado. Depois de virar de costas para o público, o vocalista do grupo fez um sinal cerrando o punho para que alguém na mesa de som soltasse uma gravação cheia de delay e muito bem afinada da frase final da música que ele deveria cantar. Pois é, até os undergrounds estão se rendendo às tecnologias.

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Dentre as goianas do sábado destacou-se o NEM. Com um grande leque de influências sonoras (em especial, o rock nacional), o grupo mostrou que está muito bem entrosado, beirando o profissionalismo, o que ajudou a empolgar os espectadores. O grupo está com um disco pronto, prestes a ser lançado, produzido pelo ex-Mutantes Sérgio Dias. Algumas músicas já estão disponíveis no site da banda.(www.nem.com.br)

A grande surpresa do sábado foram as gaúchas Sonic Volt e a instrumental Pata de Elefante. Surpreenderam por que existia uma expectativa de que fossem tocar música pop (pelo fato de serem da terra da água-com-açúcar Bidê ou Balde). Os dois grupos mostram forte influência do rock pesado dos anos 70; o Sonic Volt, com um som metal, e o Pata de Elefante, mais hard rock.

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O sábado também teve as apresentações dos Trissônicos, Multisofá (MG), The Not Yet Famous Blues Band, Olho de Peixe, Ressonância Mórfica e Flores Indecentes.

As quase 22 horas de apresentações musicais do festival se encerraram às 1:50 da madrugada de segunda-feira com a clássica "Vou Fazer Cocô", da histórica banda punk do ABC paulista Garotos Podres. A expectativa ao redor da banda era tanta que a chegada do vocalista Mau ao Martim Cererê causou euforia entre os fãs que queriam autógrafos e fotos. A concentração em frente ao teatro Pyguá já era grande 1 hora antes da apresentação, o que esvaziou o show da banda indie baiana Brincando de Deus no outro teatro, o Yguá. Com a abertura das portas do teatro em que estavam os Garotos Podres, as pessoas buscaram espaço para ver o show mais disputado da noite. A quantidade de pessoas e a expectativa para o início eram tantas que a banda começou a tocar antes mesmo dos baianos terminarem sua participação.

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Com 20 anos de carreira, os Garotos Podres mostraram que o som sujo com letras proletárias resiste ao tempo. Grandes sucessos como "Verme","Papai Noel","Gritos do Subúrbio","Anarquia Oi", entre outros, ditaram o ritmo do público, que cantou e debateu-se nas famosas "rodas ". O teatro ficou pequeno e locais como as caixas de som e o palco foram ocupados na tentativa de assistir a um show que com certeza entrou para a história da cidade. A espectadora Sarah Lima,16, disse que diante da banda não se pode pensar em mais nada, a não ser aproveitar o show ao máximo. A declaração demonstra a força do fiel público e da música punk, sempre abocanhando boa parte da nova geração de apreciadores do rock. Os aficionados pelos Garotos Podres ainda receberam a boa notícia de que, ainda nesse semestre, o grupo lançará um novo álbum.

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A noite de domingo teve outras relevantes apresentações. O grupo Hang the Superstars deixou a platéia insana - um dos mais festejados shows goianos do festival. Outra banda que não se deve deixar de citar é a carioca BillyGoat. Com um metal que lembrou Monster Magnet e Kyuss (um dos covers tocados por eles) o grupo fez os presentes baterem cabeça, literalmente.

Mechanics, Jess Saes (RJ), Magüerbes (SP), Laranja Freak (RS), Resistentes, Señores e The Shakemakers completaram a noite, que foi aberta com o rock tosco dos Reaças.

Ao final do festival, a avaliação do produtor Leonardo Ribeiro, o Léo Bigode, foi positiva. "Acreditamos que havia uma galera que queria outra opção cultural e, com o tempo e o aperfeiçoamento, o público se consolida cada vez mais, o que torna o festival um dos mais requisitados por bandas do underground brasileiro".

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Sem grandes nomes como em edições anteriores (o Bananada já trouxe para Goiânia as norte-americanas Man or Astroman? e Trans Am e Watts), o grande atrativo - e surpresa - dessa última edição foram bandas que há alguns anos era impossível de se imaginar no festival: os grupos de som pesado, como BillyGoat e Sonic Volt. Quem, por aqui, imaginaria as goianas Necropsy e Ressonância Mórfica no palco de um festival que sempre abriu espaços para os grupos pop com um sonzinho mais fácil de digerir? Não sei se por falta de opção ou por um motivo mais nobre, mas ainda bem que aconteceu.

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