John Lennon sobre a relação entre a música "Power to the People" e o comunismo
Por André Garcia
Postado em 22 de março de 2024
Até o começo dos anos 60, a música pop basicamente se limitava a falar sobre festas, romance e dor de corno — não muito diferente da maioria das rádios brasileiras hoje em dia. Esse paradigma foi mudado graças a nomes como John Lennon e Bob Dylan, que deixaram de se esquivar de temas espinhosos e se manifestaram abertamente contra a Guerra do Vietnã e mazelas sociais como o racismo.
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Ao lançar "Revolution" em 1968 (como lado b do single "Hey Jude"), Lennon se declarou um revolucionário pacifista que não acreditava em nenhuma das propostas de solução para tornar o mundo um lugar melhor que envolvesse ódio e guerra.
Em 1971, se consagrou de uma vez por todas como artista solo e militante político com verdadeiros hinos, como "Imagine" e "Power to the People". Em sua letra, ele canta para que o povo saia às ruas e tome para si o poder e o controle sobre a sociedade (tipo Rage Against the Machine, mas 20 anos antes).
Conforme publicado pelo livro John Lennon no Céu com Diamantes, de Lúcia Villares, certa vez ele falou se sua utópica visão de mundo seria o comunismo:
"Eles me criticaram por dizer 'PODER PARA O POVO' e dizem que nenhuma parcela deveria deter o poder. O povo não é uma parcela — o povo é todo mundo. Para mim, todo mundo deveria possuir tudo, igualitariamente, e que o povo deveria possuir parte das fábricas e ter algum poder de decisão sobre quem seria o patrão e quem faria o quê. Os estudantes deveriam poder escolher os professores. Isso pode ser parecido com o comunismo, mas eu não sei o que é o comunismo de verdade. Não há no mundo nenhum estado verdadeiramente comunista. Você sabe que a Rússia não é comunista: é um estado fascista."
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Em outra entrevista, ele reiterou estar do lado do povo, não de políticos.
"Como membro da classe trabalhadora sempre me interessei pela Rússia, pela China, e por tudo relacionado com a classe trabalhadora. Mesmo que eu estivesse jogando o jogo capitalista. [Hoje, os trabalhadores] estão sonhando o sonho de outras pessoas: seu sonho não é de fato seu."
Após o sucesso de "Imagine", John se mudou com Yoko de Londres para Nova Iorque, na boêmia e badalada Greenwich Vilage. Lá, eles logo foram procurados pelos ativistas Jerry Rubin e Abbie Hoffman para tratar de assuntos como a prisão de John Sinclair e Angela Davis, bem como a rebelião de Attica.
O resultado foi um Lennon no auge de seu engajamento político em "Some Time in New York City" (1972) — álbum duplo composto quase que exclusivamente de músicas de protesto. A fria recepção por parte tanto dos fãs quanto da crítica atingiram em cheio a Lennon, que a partir dali decidiu deixar o engajamento político de lado na hora de compor.
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