Quando o rock dos anos 2000 cansou de si mesmo e foi buscar respostas nos Beatles
Por Gustavo Maiato
Postado em 26 de dezembro de 2025
Depois de estrear com um sucesso imediato e avassalador, o Panic! At The Disco se viu diante de um dilema comum a bandas que explodem cedo demais: repetir a fórmula ou mudar tudo. Exaustos da rotina e da pressão, os integrantes decidiram olhar para trás em busca de respostas - mais precisamente para a obra dos The Beatles. A história foi resgatada pela Loudersound.
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Quem mergulhou de cabeça nessa descoberta foi o compositor Ryan Ross. Embora, como qualquer músico, ele sempre tivesse consciência da importância dos Beatles, foi apenas durante o período do álbum de estreia, "A Fever You Can't Sweat Out", que passou a ouvir a discografia com atenção real. "Eu estava tentando encontrar algo novo que me empolgasse, alguma banda nova, e não achava nada", contou à Rolling Stone. "Aí comecei a ouvir os Beatles e foi tipo: 'Meu Deus'. A quantidade de tipos de músicas que eles escreviam, o alcance de tudo… eles não se colocavam em uma caixinha. Faziam o que queriam."
Essa percepção caiu como uma luva num momento em que o Panic! era visto como um estranho no ninho da cena emo dos anos 2000. Enquanto bandas como Fall Out Boy, Paramore e My Chemical Romance ajudavam a definir os contornos do gênero, o grupo de Las Vegas parecia sempre deslocado - algo que nunca chegou a incomodá-los, mas criava expectativas externas sobre "como" eles deveriam soar.
O estalo definitivo veio em 2007, quando Ross passou a ouvir obsessivamente "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", intercalando o disco com The Beach Boys e The Who. "Essas bandas nos deram uma espécie de permissão", explicou. "Era como dizer: não se segure, escreva a música que você está escrevendo, sem pensar 'somos essa banda, então só podemos fazer esse tipo de som'."
Essa liberdade criativa começou a se manifestar de forma radical no fim do ciclo de turnês do álbum de estreia. Cansados de tocar as mesmas músicas todas as noites, o grupo se isolou em Mount Charleston, perto de Las Vegas, para trabalhar em um disco conceitual chamado "Cricket & Clover". A ideia era ambiciosa: uma história de amor trágica, quase cinematográfica, com poucas guitarras e bateria mínima. O resultado, no entanto, foi longe demais até para eles - e o álbum acabou engavetado.
O isolamento criativo veio acompanhado de excessos. Anos depois, o vocalista Brendon Urie contou à Paper como o clima saiu do controle. "A gente estava basicamente chapado de cogumelos o tempo todo", disse. "Tentamos fazer essa coisa toda e não funcionou. Spencer e Ryan nunca tinham bebido nem usado drogas, então aquilo virou tipo a experiência universitária deles. Estávamos cansados de conviver todo dia por três anos. Pensamos: 'Vamos morar juntos numa cabana e tomar psicodélicos, porque isso vai ajudar', eu acho."
O próprio Ross reconheceu que a ideia parecia melhor no papel do que na prática. "A gente estava trabalhando em algo que, em teoria, soava ótimo, mas na hora de escrever percebemos que estávamos nos esticando demais", explicou em entrevista ao FaceCulture. "Cricket & Clover" virou lenda entre fãs, um símbolo de um momento em que a banda quase se perdeu tentando se encontrar.
Dessa experiência tortuosa nasceu o caminho para "Pretty. Odd.", um disco que abraçou de vez a influência dos Beatles, trocando o sarcasmo barroco do debut por canções mais atemporais e orgânicas. A reinvenção não veio sem tropeços, mas deixou claro que, assim como seus maiores ídolos, o Panic! At The Disco preferiu correr riscos a se repetir - mesmo que isso significasse se isolar numa cabana, ouvir discos clássicos e acreditar, por um momento, que psicodélicos poderiam resolver tudo.
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