O integrante dos Beatles que teria inaugurado a "cultura do cancelamento"
Por Bruce William
Postado em 05 de abril de 2025
Em março de 1966, John Lennon fez uma declaração que gerou uma das maiores crises da carreira dos Beatles. Ao afirmar que a banda era "mais popular que Jesus Cristo", ele provocou uma reação em cadeia nos Estados Unidos, com protestos, queima de discos, boicotes em rádios e uma pressão pública que ofuscaria o lançamento de "Revolver" e afastaria os Beatles definitivamente das turnês.
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A frase foi dita originalmente à jornalista Maureen Cleave, do Evening Standard, e publicada com pouca repercussão na Inglaterra. Mas quando foi reproduzida meses depois nos Estados Unidos, em um país com religiosidade ainda fortemente presente, o efeito foi explosivo. Lennon chegou a escrever e ler um pedido de desculpas público, mas o estrago já estava feito.
O boicote envolveu mais de 30 emissoras americanas, e algumas promoveram eventos públicos de destruição de discos, como uma rádio em Massachusetts que alugou uma máquina trituradora para receber LPs enviados por ouvintes. Em Nevada, outro grupo organizou uma fogueira pública para que fãs queimassem álbuns e pôsteres da banda. E até a CBF teria aparentemente vetado a presença da banda na Copa de 1966 devido à polêmica declaração. Em meio à pressão, os Beatles passaram a ser escoltados por seguranças armados e cogitaram cancelar participações em eventos.
Mesmo sem o vocabulário que usamos hoje, a reação contra Lennon apresentava traços do que, décadas mais tarde, seria chamado de "cancelamento", ressalta a Far Out. O público não apenas expressou discordância com suas palavras, mas tentou apagá-lo culturalmente por meio da rejeição massiva de sua imagem, obra e influência. A diferença é que, naquele tempo, isso acontecia fora das redes sociais, que obviamente não existiam, e por isso era preciso haver uma mobilização física para acontecer.
O episódio foi especialmente tenso por tocar em temas sensíveis como fé e juventude. Lennon não estava sendo atacado apenas por sua opinião, mas por representar uma ameaça à ordem moral vigente. Nas palavras de Paul McCartney, anos depois: "Foi um exemplo do pensamento histérico e simplista de certos setores dos Estados Unidos."
Hoje, casos como esse seriam rotulados como parte da "cultura do cancelamento". É um termo polêmico e frequentemente distorcido, usado tanto para denunciar linchamentos públicos quanto para criticar qualquer cobrança por responsabilidade, e cuja profundidade não cabe aqui nesse texto. Ainda assim, é possível ver no episódio de Lennon um dos primeiros momentos em que a reação coletiva tenta apagar uma figura pública de maneira coordenada.
A reação desproporcional ao que ele disse revela que, muitas vezes, o cancelamento não depende do conteúdo em si, mas do contexto cultural e político em que ele é recebido. Em 1966, Lennon foi visto como uma ameaça porque tocou em uma questão sagrada para milhões de pessoas. Hoje, figuras públicas ainda correm riscos parecidos quando dizem algo fora do tom considerado aceitável - embora os meios e a velocidade de disseminação tenham mudado completamente.
No fim das contas, a declaração de Lennon não acabou com os Beatles nem com sua influência cultural. Mas deixou uma marca clara de como a sociedade reage quando uma figura pública ultrapassa certos limites simbólicos. Se ele foi o primeiro a ser "cancelado", como entendemos hoje, ainda é discutível - mas certamente foi um dos primeiros a sentir o peso de uma reação coletiva que tentou apagá-lo do mapa.
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