As duas bandas do rock nacional que Humberto Gessinger criticou por falta de propósito
Por Gustavo Maiato
Postado em 10 de maio de 2025
Em entrevista publicada na revista Bizz em 1989, Humberto Gessinger e Carlos Maltz, da banda Engenheiros do Hawaii, fizeram comentários contundentes sobre o cenário do rock brasileiro da época. Em meio a elogios ao crescimento da produção independente e ao surgimento de novos nomes, Gessinger não poupou críticas a grupos que, segundo ele, atuavam sem consistência artística — e citou exemplos concretos.
Ao falar sobre o que se ouvia nas rádios, Gessinger ironizou: "Tem muita banda sabendo exatamente o que vai tocar nas rádios. Eu acho que se o cara tem paciência para fazer ‘Barata Kafka’, é um mérito dele." A frase faz referência à música "Uma Barata chamada Kafka", da banda Inimigos do Rei, conhecida por suas letras bem-humoradas e nonsense.
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Na mesma linha crítica, o vocalista dos Engenheiros citou ainda outra banda do rock nacional dos anos 1980: Nenhum de Nós, sugerindo que versões como a da música "Starman", de David Bowie — regravada pelo grupo gaúcho com o título "Astronauta de Mármore" — careciam de autenticidade. "Se tem saco para tocar uma versão de David Bowie que não diga nada e isso a seis meses de uma eleição presidencial, é mérito dele", afirmou, de forma ácida.
Humberto Gessinger e as bandas de rock nacional
Para Humberto, o problema não está na abordagem pop ou acessível, mas na falta de conteúdo: "Pode ser caretice, panfletária mínima. Acontece que hoje as bandas são iguais no rádio. Põem um hit e ficam ganhando uma grana. Não é assim, tem que ter um propósito."
O baterista Carlos Maltz, por sua vez, teve uma postura mais otimista em relação à nova geração. Ele destacou a cena musical do Pará como exemplo de produção inovadora: "Teve muita banda nessa de rock nacional que gravou disco antes de fazer show." Maltz elogiou também o grupo Naú, então recém-extinto, e defendeu uma abordagem mais ousada: "Agora é hora de radicalizar. Tinha que vir uns guris tocando guitarra com os dentes."
Maltz ainda citou o Sepultura, grupo mineiro em ascensão no cenário internacional, como exemplo do vigor criativo que faltava em parte do rock nacional tradicional. "Tem uns caras em Minas, o Sepultura."
No fim da conversa, Gessinger mencionou uma apresentação dos Mulheres Negras, banda experimental paulista, como respiro de autenticidade: "Vi um show na TV com um monte de gente ‘loucona’. E o cara lá dava o endereço do jornalzinho em que ele escrevia. Isso é o máximo." Para ele, a rebeldia criativa se opunha à fórmula radiofônica dominante. "Deixa as rádios para os caras que fazem versão do David Bowie."
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