De onde veio a ideia da música "O Papa é Pop", do Engenheiros do Hawaii
Por Bruce William
Postado em 29 de julho de 2025
Quando Humberto Gessinger viu uma foto do Papa João Paulo II tomando chimarrão no encarte de uma revista, teve uma epifania. A imagem havia sido tirada durante a visita do pontífice ao Brasil em 1980, e mostrava o líder da Igreja Católica adotando os costumes locais com naturalidade - algo que incluía, segundo o próprio Humberto, "tomar chimarrão no Sul e usar chapéu de cangaceiro no Nordeste".
Engenheiros Do Hawaii - + Novidades
A cena apareceu novamente, anos depois, pendurada no escritório do então governador Leonel Brizola, numa matéria da revista Veja. E foi ali, diante do pôster, que o vocalista dos Engenheiros do Hawaii soltou a frase que daria nome ao futuro disco da banda: "Olha ali, cara... o Papa é pop!"
Mas a ideia não veio de uma hora pra outra, relatou o jornalista Júlio Ettore em um vídeo onde conta a história do álbum: Gessinger já tinha esboçado a letra tempos antes, logo após o atentado contra João Paulo II em 13 de maio de 1981, quando o Papa levou dois tiros a queima-roupa durante uma saudação na Praça de São Pedro. A princípio, era uma composição solta, com o verso "o pop não perdoa ninguém", sem grande propósito.
Foi só mais tarde, já com o Engenheiros fazendo sucesso e lidando com a popularidade, que a banda resolveu assumir esse lado "pop", mas do seu jeito. Como disse Humberto à revista Bizz, em 1990: "Na época era difícil falar de pop porque eu não fazia parte. A banda era pequena ainda. Mas a tecnologia levou a isso, onde tudo é pop. Nós amadurecemos nesse último ano e aprendemos a assumir o lado pop."
A provocação estava feita. Na visão de Gessinger, a cultura pop era uma simplificação excessiva da realidade: "só existe um tom de verde, só existe um tom de azul", como disse no programa Matéria Prima, em 1991. "Pretendo que a gente jogue poeira nesse mecanismo de sucesso", completou. Em vez de negar o pop, a banda resolveu se infiltrar nele e subverter seu funcionamento por dentro - o disco "O Papa É Pop" seria o reflexo disso, com canções que brincavam com a estrutura da fama, da mídia e do próprio rock nacional.
Mesmo com o nome ousado e a foto do Papa na capa, Humberto não esperava controvérsias. Em entrevista à Bizz, minimizou: "Acho que não terá problemas. Muitas bandas fizeram músicas falando mal da Igreja diretamente. A nossa é super sutil, e é a favor do Papa. Se houver algum problema, eu retiro, porque sou supercatólico. Não é brincadeira, é super sério." Segundo ele, se o Papa teve coragem de tomar chimarrão em Porto Alegre, também teria coragem de estar na capa de um disco dos Engenheiros.
O disco, no entanto, carregava mais camadas do que aparentava. A faixa "Perfeita Simetria", que encerra o álbum, tem exatamente a mesma melodia de "O Papa É Pop". Isso não foi acidente. Gessinger explicou a repetição como parte de um ciclo autorreferente, algo que ele assumiria como marca em sua obra. Em seu livro "Pra Ser Sincero", escreveu: "Aproveitando a autonomia que conquistamos na indústria, fui me fechando no meu próprio trabalho, que foi ficando cada vez mais autorreferente. Discos compunham trilogias, melodias e capas se repetiam anos depois, letras de músicas voltavam transformadas..."
No encarte do disco, uma citação misteriosa também chamou atenção: "Lulu 'Heil Gessinger' Santos". A provocação teve origem numa declaração dada por Humberto ao Jornal do Brasil em 1989. Ao comentar sobre artistas que buscavam apenas entreter, Gessinger citou nomes como David Copperfield, Silvio Santos e o próprio Lulu Santos, em contraste com bandas que buscavam dizer algo além dos holofotes.
O comentário não caiu bem. Segundo o livro "Infinita Highway", Lulu ligou para a casa de Humberto chamando-o de nazista. Anos depois, Gessinger disse à Folha de S. Paulo que ficou chateado com a acusação: "Não queria polemizar com ele, é uma pessoa que eu admiro. Na minha cabeça, ser 'entertainer' não é pejorativo."
Mesmo com todas essas camadas - crítica à mídia, ironia, simetria, autorreferência e até atrito com colegas de geração - "O Papa É Pop" virou hit. Se a ideia era jogar poeira na engrenagem do sucesso, talvez a poeira tenha sido tão fina que passou despercebida. E, no fim, o Papa virou pop. Literalmente.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O ícone do metal progressivo que considera o Offspring uma piada
64 shows internacionais de rock e metal para ver no Brasil agora em abril
Músicos da formação clássica do Guns N' Roses se reúnem com vocalista do Faster Pussycat
Os 20 maiores riffs de guitarra da história, segundo o Loudwire
Luis Mariutti se pronuncia sobre pedidos por participação em shows do Angra
A banda brasileira com músicos ótimos e músicas ruins, segundo Regis Tadeu
O melhor disco do Led Zeppelin, segundo Robert Plant: "Soava muito pesado"
Quando uma turnê do Metallica virou um fiasco, e eles partiram atrás do Lemmy
Andreas Kisser afirma que irmãos Cavalera não querem participar de último show do Sepultura
As 35 melhores bandas brasileiras de rock de todos os tempos, segundo a Ultimate Guitar
O disco que Paul Stanley nunca quis fazer; "Eu não tive escolha"
Por que Aquiles Priester não quis opinar nas músicas do show do Angra, segundo o próprio
Roland Grapow: "Eu não me importo mais com fórmulas, só quero fazer Metal"
Os 30 melhores discos de heavy metal lançados nesta década, segundo a Louder
Fabio Lione dá resposta curta e "sincerona" a fã que questionou hiato do Angra


Ex-Engenheiros do Hawaii, Augusto Licks retoma clássicos da fase áurea em nova turnê
O erro que Humberto Gessinger admite ter cometido no disco "O Papa é Pop"
Humberto Gessinger e a linha tênue entre timidez e antipatia: quem está certo?
Engenheiros do Hawaii - "De Fé" e a prova de amor de Humberto Gessinger
Os 10 maiores discos de estreia do rock nacional de todos os tempos


