Em depoimento emocionante, membro da equipe do Metallica lembra acidente que matou Cliff Burton
Por João Renato Alves
Postado em 28 de agosto de 2026
Embora muitos se lembrem do acidente de ônibus que tirou a vida do baixista do Metallica, Cliff Burton, houve um membro da equipe da banda que sobreviveu - tendo ficado preso ao lado do corpo do músico. O técnico de guitarra Aidan Mullen, um veterano de longa data do setor, falou abertamente sobre a experiência angustiante de ficar preso e aguardar o resgate enquanto Burton estava deitado sobre seu braço, em meio aos destroços do acidente.
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Ele disse ao podcast Beardo and Weirdo, lembrando a madrugada de 27 de setembro de 1986, na Suécia: "Resumindo a história: o ônibus passou por uma placa de gelo invisível na pista, rodopiou e tombou de lado, ficando virado na direção oposta à que seguia. Ele fez um giro de 180 graus. Hoje em dia, meu sono é mais leve quando viajo de ônibus do que era antes daquilo; acordei antes de a maldita coisa acontecer e jamais esquecerei aquele momento enquanto viver."
Ao falar sobre o ônibus e mencionar que as leis foram alteradas em decorrência do acidente, Mullen relembrou: "Naquela época, não havia regulamentação sobre o projeto desses ônibus de turnê, especialmente em relação ao interior. Nesse caso, eles começaram com um veículo que tinha janelas ao longo de toda a lateral e instalaram paredes de compensado cobrindo essas janelas... mas, quando o ônibus tombou - eu estava em uma beliche acima do Cliff -, a força da inclinação e do impacto contra o solo... não foi uma batida em alta velocidade, mas o veículo estava em movimento, então o impacto foi muito mais forte do que se ele tivesse apenas tombado parado. Assim, quando atingiu o chão, a janela quebrou e nós dois fomos arremessados para fora através da abertura."
A situação gerou o desfecho trágico que o mundo conhece. "O que aconteceu foi que o Cliff estava deitado sobre o meu braço. Eu estava deitado no sentido do comprimento, dentro da abertura retangular da janela - que era grande o suficiente para caber o meu corpo -, e o corpo dele ficou deitado sobre mim, atravessado. E ele não sobreviveu, obviamente, porque o ônibus caiu em cima de nós."
Aidan atribui a Bobby Schneider - então gerente de produção do Metallica - o mérito de ter salvado sua vida. Conforme relatou, diversos destroços e pertences pessoais de dentro do ônibus haviam caído sobre ele e Burton, deixando ambos imobilizados.
"Eu não conseguia respirar, não conseguia me mover. Naquele momento, mal sabia o que tinha acontecido. Não sabia o que estava acontecendo com o Cliff, que estava ao meu lado. Não sabia quem, o quê, onde, quando ou como. Lutava para respirar, não conseguia, mas lembro-me de uma situação que pareceu se arrastar por minutos a fio - embora provavelmente tenha durado apenas uns 30 segundos - em que percebi: 'Não vou sair dessa vivo. Não consigo respirar. Estou sufocando'. Pensei na minha família, nos meus amigos e em como aquilo era uma m*rda de situação. E então, de repente, as coisas começaram a se mover ao meu redor. Coisas estavam sendo tiradas de cima de mim de forma frenética."
Schneider aparentemente havia passado rastejando por uma escotilha de emergência no teto do ônibus para verificar se ainda havia alguém lá dentro. Foi então que ele avistou as pernas de Mullen se movendo em meio à pilha de destroços.
"Estavam tirando coisas de cima de mim e, de repente, consegui respirar; depois, tiraram mais coisas e ouvi a voz do Bobby dizendo: 'Calma. Estamos com você. Vai ficar tudo bem'. Eu não sentia meu braço. Não conseguia movê-lo. Olhei para o lado e percebi que havia alguém deitado sobre meu braço, ao meu lado. E, depois de um minuto, concluí que provavelmente era o Cliff. Ele não se movia, mas eu também não, naquele momento. Bobby disse: 'Fique calmo, vamos tirar você daí'. E eu disse: 'Bobby, vou ajudar o Cliff. Me ajude a tirá-lo daqui'. E lembro-me apenas de Bobby dizendo baixinho: 'Não se preocupe com o Cliff'. A ficha não caiu. Eu não entendi o que ele quis dizer com aquilo."
Entre os ferimentos, Mullen teve dedos dos pés e das mãos quebrados, além de um ombro deslocado. Ele admite que ainda sente certa ansiedade ao estar a bordo de um ônibus quando este começa a sair, ou ao acordar sem fôlego. Embora ainda fosse relativamente novo na turnê, admitiu que não havia passado muito tempo com Burton até se sentar ao seu lado em um voo transcontinental. Acrescentou que o período em que mais estreitaram laços foi durante as atividades realizadas na noite anterior ao acidente.
"Lembro-me de o Cliff ser uma pessoa meio quieta. Não convivi muito com ele até a noite em que ele faleceu. Depois do show que fizemos naquela noite, ficamos conversando e bebendo com algumas pessoas da região, nos divertindo muito - rindo, brincando, fazendo algazarra. E foi incrível que aquela tenha sido a minha última noite com ele e a última dele conosco."
Nascido em Castro Valley, Califórnia, Clifford Lee Burton começou a tocar baixo aos 13 anos. A relação com o instrumento foi uma maneira de lidar com a perda do irmão mais velho, Scott, falecido aos 16 anos por conta de um aneurisma cerebral.
Ainda nos tempos de escola participou da banda EZ-Street. O grupo contava com dois futuros membros do Faith No More, o guitarrista Jim Martin e o baterista Mike Bordin. A seguir, tocou com o Agents Of Misfortune e o Trauma, que chegou a gravar a música "Such A Shame" para a coletânea "Metal Massacre".
Suas performances chamaram a atenção do Metallica, a ponto de a banda aceitar se mudar para San Francisco para contar com sua presença. Gravou os três primeiros discos do grupo: "Kill 'Em All" (1983), "Ride the Lightning" (1984) e "Master of Puppets" (1986).
Morte de Cliff Burton
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