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Iron Maiden: Revisitando parte da carreira em The Book Of Souls

Resenha - Book of Souls - Iron Maiden

Por Luis Fernando Ribeiro
Em 30/09/15

Após o maior hiato entre lançamentos de estúdio da carreira do IRON MAIDEN e em especial após aquele que parecia ser o último disco da banda, com o sugestivo nome de 'Final Frontier', finalmente a ansiedade foi sanada com o esperado 'The Book of Souls'. Afinal de contas, 'Final Frontier' é um dos, senão o disco mais fraco da carreira da Donzela e 'The Book of Souls' é deveras superior a ele em todos os aspectos. Não que eu esteja sugerindo que este será o disco derradeiro da banda, mas se assim o for, eu ao menos estarei completamente satisfeito.

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Em 'The Book of Souls' (que a partir de agora tratarei por TBOS), a banda revisita boa parte de sua carreira, mesclando velhos e novos elementos e destoando um pouco da fórmula manjada dos últimos discos: Introdução lenta conduzida especialmente por Steve Harris, música crescendo aos poucos até chegar ao ápice em um refrão bombástico, culminando em solos de todos os guitarristas e terminando na mesma melodia que introduziu a canção. A banda chegou em um ponto tão alto de sua carreira, que suas referências musicais diretas são quase que somente eles próprios, pois nota-se nas canções reflexos do próprio Maiden e cada vez menos de suas influências principais.

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Neste décimo sexto álbum de estúdio - primeiro disco duplo e primeiro pela Parlophone Records após o fim da EMI Music - a banda se mostra muito empenhada em lançar um bom disco, sem soar forçada em nenhum momento ou preocupando-se em agradar fãs de determinado período da carreira, soando honesta consigo mesma e com o momento que vive.

Quase tudo nesse disco é acertado, a começar pela simples e bela capa, criada por Mark Wilkinson, composta apenas por um Eddie meio aborígene, acompanhado da versão original do logotipo do IRON MAIDEN, que já não era utilizado desde o 'The X Factor'. As imagens no encarte também são incrivelmente bem feitas. A produção, novamente a cargo de Kevin Shirley é a melhor desde 'Brave New World', com todos os instrumentos bem "na cara", sem destaque principal para o baixo de Harris, como acontecia outrora, permitindo com que o disco seja apreciado como um todo em seus mais profundos detalhes.

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Pode soar óbvio citar Bruce Dickinson, devido a sua recente recuperação de um câncer na língua, mas não é preciso tratá-lo como herói por isso e talvez os fatos não estejam associados, mas, mesmo com a idade avançada, o vocalista faz aqui um de seus trabalhos mais inspirados, tanto como compositor, quanto como intérprete. O baterista Nicko McBrain também é uma surpresa agradável, já que passou quase despercebido nos lançamentos mais recentes por atuar de forma quase mecânica, mas novamente não participa de nenhuma composição. Os demais músicos não precisam nem de destaque especial, já que desempenham com maestria suas funções.

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Falando das músicas, é impossível não referenciá-las com o passado da banda, comparando elementos comuns nas composições. Alguns são notados logo nas primeiras audições e outros surgem ao assimilar melhor cada detalhe, mas em suma, o disco merece uma audição atenta e repetida para que se possam apreciar todas as suas nuances. Foi assim que fiz e aqui estão minhas impressões acerca dessas onze canções, que com certeza já me marcam como fã da maior banda de Heavy Metal de todos os tempos.

Disco 1

O primeiro disco abre com a dramática 'If Eternity Should Fail', uma música que Bruce compunha originalmente para seu disco solo e claramente feita para abrir os shows da banda, tal como fora a faixa título do disco anterior, mas não tão enrolada, onde Bruce entoa a voz da alma de um homem, em uma interpretação magistral e teatral do cantor, que dá espaço para riffs e melodias de uma epicidade poucas vezes antes vista nas músicas da banda, tanto que chegaram a lembrar-me vagamente as canções dos alemães do BLIND GUARDIAN em seu disco 'Nightfall in Middle-Earth' (Talvez seja só uma impressão minha, mas notei isso aos 1:42 e 5:59 de música). O refrão é marcante e um dos mais belos de toda a carreira do Maiden, o que, aliás, é uma das máximas de todo o CD, que apesar de ter seus momentos baixos, não possui nenhum refrão fraco. Nesta música também fica claro o uso das três guitarras, o que passava um pouco despercebido, em especial em 'A Matter of Life and Death'. A narrativa no final fica um pouco deslocada e talvez um efeito vocal melhor soaria mais interessante (Lembra ‘Toltec 7 Arrival’ do Bruce Dickinson ou 'King of Thousand Years' do HELLOWEEN).

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'Speed of light' foi a primeira música de trabalho do disco, ganhando um clipe espetacular, onde Eddie vive a evolução dos vídeo games e que imediatamente viralizou na internet, chegando a milhões de acessos em poucos dias. É uma música simples e direta, sem grandes novidades, mas muito empolgante, que lembra vagamente o MONSTROSE e o THIN LIZZY, influencias declaradas da banda. Remete diretamente a 'El Dorado' do 'Final Frontier' por sua estrutura semelhante. Logo no início escutamos uma das novidades de Nicko, utilizando o cowbell, o que eu lembro de ter ouvido apenas em 'Can I Play With Madness'.

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Os já tradicionais dedilhados iniciais aparecem em 'The great unknown', onde a introdução curiosamente me remeteu a 'Aerials' do SYSTEM OF A DOWN (Calma Haters! É apenas uma impressão minha em relação ao dedilhado inicial). Trata-se de uma música mais soturna e carregada, que ganha peso aos poucos, como boa parte das músicas que a banda tem lançado desde o 'X Factor'. Poderia facilmente figurar em 'Dance of Death' ou 'A matter of life and death', mas acerta em não se prolongar demais, como era comum nas estruturas dessas canções. Possui excelentes melodias e arranjos de teclados, que estão presentes em todo o disco, o solo lembra vagamente a grandiosa 'Paschendale' do 'Dance of Death'.

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'The red and the black' tem novamente uma introdução conduzida pelo baixo de Steve Harris, mas não lembra em nada os lentos dedilhados já citados, estando mais próxima do que ele já fizera em 'Blood on the world's hand' do ' The X Factor'. Logo a música se encaminha para um ritmo marcial, comum nos tempos de 'No Prayer for the Dying', como em 'Run Silent, Run Deep' e 'Mother Russia', com alguns elementos de 'A Matter of life and death', em especial 'For the greater good of god' e outros de 'Powerslave' nas partes mais pesadas. O riff inicial desta música é marcante, mas já virou inclusive alvo de acusações de plágio pela banda URIAH HEEP, em relação à canção "I Hear Voices", do disco 'Sonic Origami', lançado em 1998. A música também é cheia dos já tradicionais coros em 'OoOoo', feitos para serem cantados em uníssono nos shows e apesar de longa, não é enjoativa, pois a banda soa solta e criativa.

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'When the river runs deep' começa despretensiosa, com um riff um pouco desconexo e um Bruce um pouco excessivo em sua interpretação, mas logo é tomada por um baita riff e ganha ares de 'Powerslave', com andamento ditado pela cozinha empolgante de Harris e Nicko, até chegar ao refrão quebrado e 'bangeante', com backing vocals muito bem encaixados, possivelmente feitos por Smith, para serem cantado a plenos pulmões pelos fãs. É uma música de ritmo forte e ótimos solos que figuraria facilmente em qualquer CD da era Dickinson do início dos anos 80.

O primeiro disco encerra com a faixa-título. 'The Book of Souls' é uma obra para ser consumida aos poucos, pois é cheia de nuances e elementos que vão sendo descobertos a cada nova audição. Começa com uma leve linha melódica, lembrando 'The Talisman' do disco anterior e evolui para um ritmo marcial forte, carregado e muitíssimo pesado, numa mescla de elementos sombrios de 'The X Factor' e ritmo de canções típicas do 'No Prayer for the Dying', lembrando 'Mother Russia' no início. A interpretação de Dickinson nesta canção é incrível com o melhor refrão do disco, onde o vocalista alcança notas incrivelmente altas e belas. Na segunda parte, a música envereda por um ritmo totalmente 'Powerslave', lembrando especialmente 'Losfer words', cheia de riffs e solos para todos os gostos e finalmente voltando para a melodia inicial.

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Disco 2

O segundo disco abre no peso máximo com 'Death or glory', que apesar do nome clichê, é uma baita música e uma das mais empolgantes do disco. O ritmo lembra em alguns momentos as músicas 'Monstégur' e 'New Frontier', do 'Dance of Death'. A essa altura já é repetitivo falar dos ótimos refrãos, mas nesta faixa especificamente o verso que antecede o refrão é mais legal do que o próprio refrão. Trata-se de uma típica composição da dupla Smith-Dickinson.

Ouvir o início de 'Shadows of the Valley' e não lembrar de 'Wasted Years' do 'Somewhere in Time' é tarefa quase impossível, mas as similaridades entre as canções acaba por aí, já que 'Shadows' evolui para um ritmo mais pesado, lembrando a época do 'Brave New World', com ótimos riffs e um ritmo constante. Apesar de ser um álbum longo e bastante progressivo, 'TBOS' conta com várias músicas relativamente diretas - para os padrões da banda - e pesadas como esta. O refrão, apesar de incrivelmente bom, é repetido à exaustão, como a banda já fez em inúmeras outras ocasiões (Vide 'The Mercenary').

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'Tears of a Clown' é uma homenagem ao ator Robin Williams, que se suicidou aos 63 anos em agosto de 2014, com uma bela letra de Steve Harris numa clara referência ao filme ‘Patch Adams – O amor é contagioso’, de 1998, onde o ator interpreta um médico que trata seus pacientes ilegalmente usando o humor como remédio. A temática dramática e melancólica pode ser sentida em cada nota da música, que foi eleita por Bruce como sua preferida em 'TBOS', com excelentes riffs e trechos cheios de quebras de ritmo. Os belíssimos solos encerram essa que é uma das melhores músicas de todo o disco.

Encaminhando-se para o fim, 'The Man of Sorrows' é uma típica composição com a participação de Dave Murray, carregada de sentimentos e melodias marcantes, como já fizera em 'The Thin Line Between Love and Hate, 'The Reincarnation of Benjamin Breeg' e 'The Man Who Would be King'. Evolui lentamente ganhando peso aos poucos, indo da melancolia a um ritmo mais arrastado, culminando em mais um espetacular refrão, seguido de outro belíssimo solo e terminando numa completa viajem carregada de feeling e emoções. Muitos fãs acharam a música deslocada e desnecessária, mas particularmente achei-a uma belíssima canção, apesar de bastante previsível.

Finalmente, "Empire of the Clouds" é uma epopeia que encerra o disco de forma magistral. Por ser a maior música da história da banda, deixando para trás a clássica 'Rime of the Ancient Mariner', provavelmente foi a que mais rendeu expectativas e curiosidade nos fãs, e, ao menos para mim, superou-as em todos os aspectos. Trata-se de uma música a parte, cheia de novos e velhos elementos no som da banda, mas diferente de qualquer coisa que a banda ja tenha composto, com arranjos de incrível bom gosto e de uma epicidade impressionante.

Tal como sua sucessora no posto de maior música da banda, ela conta uma longa história, que agora não se passa no mar e sim nos ares, falando do desastre ocorrido em 1930 com dirigível inglês R101 que matou 48 pessoas, o que se justifica no gosto de seu compositor pela aviação. A música pode ser dividida em várias partes, indo da parte melancólica ditada pelo piano de Dickinson e sua magistral interpretação, acompanhada levemente pelos arranjos orquestrais e melodias dos demais músicos, até trechos extremamente pesados, acompanhados de variações para a melodia inicial, mudanças de ritmo, solos, riffs e todos os elementos possíveis de se encontrar em uma canção da Donzela. Ao final dela, parece que você acabou de ver um filme que o absorveu completamente. Nenhuma outra canção da banda pode ser usada para tentar descrevê-la e talvez, estruturalmente falando (Não falo de qualidade) compare-se apenas a 'When the Wild wind Blows'. Palavras não podem descrever tamanha obra que será vista de inúmeras formas diferentes por cada um que a escutá-la, fazendo valer o convite para a audição de todo o disco, que valeria apenas por esta música, mas que vai muito além disso e figura facilmente entre os principais lançamentos do Heavy Metal nos últimos tempos.

Um disco que não agradará quem continua esperando um novo ‘The Number of the Beast’, ou um novo ‘Piece of Mind’, mas que agradará em cheio fãs da boa música da Donzela. Enjoy!

Track List:

1 - If Eternity Should Fail (Dickinson) 8:28
2 - Speed of Light (Smith/Dickinson) 5:01
3 - The Great Unknown (Smith/Harris) 6:37
4 - The Red and the Black (Harris) 13:33
5 - When the River Runs Deep (Smith/Harris) 5:52
6 - The Book of Souls (Gers/Harris) 10:27

1 - Death or Glory (Smith/Dickinson) 5:13
2 - Shadows of the Valley (Gers/Harris) 7:32
3 - Tears of a Clown (Smith/Harris) 4:59
4 - The Man of Sorrows (Murray/Harris) 6:28
5 - Empire of the Clouds (Dickinson) 18:01

Line-up:
Bruce Dickinson – Vocal e piano em "Empire of the Clouds"
Dave Murray – Guitarras
Adrian Smith – Guitarras
Janick Gers – Guitarras
Steve Harris – Baixo
Nicko McBrain – Bateria


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Sobre Luis Fernando Ribeiro

Apaixonado por música, cinema, escrita, literatura e pela zoeira infinita. Inserido no mundo da música pesada em 2004 com Destruction, Metallica e Blind Guardian, quando ainda se compartilhava música através de fitas K7.

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