Lulu: Obra de arte destinada (injustamente) ao esquecimento
Resenha - Lulu - Lou Reed & Metallica
Por Tiago Neves
Fonte: The Seventh Wall
Postado em 06 de novembro de 2011
Certos discos já nascem condenados ao esquecimento. Não será diferente com o tão aguardado fruto da parceria entre a banda METALLICA e LOU REED – Lulu (2011). A parceria – surgida após uma apresentação de ambos no Rock and Roll Hall of Fame em 2009 – inspirou o velho REED a compor este trabalho baseado em duas obras do dramaturgo expressionista alemão Frank Wededkind: "O Espírito da Terra" (1895) e "A Caixa de Pandora" (1904), e arranjada musicalmente pelo Metallica. Independente do enredo da história, o que esperar de uma mescla de estilos tão inusitada quanto essa?
Para os fãs xiitas e ortodoxos do METALLICA, um conselho: passem longe desse disco! O caráter predominantemente experimental da obra, aliado aos vocais declamados de REED, passam longe de qualquer álbum clássicos como "Master Of Puppets" e "Ride The Lightning". A banda arrisca mais uma vez em um território musical diferente do habitual e, na minha opinião, acho isso completamente válido, pois é isso que a mantém viva e criativa na cena musical. Porém, a banda peca ao transformar esse disco em uma versão melhor produzida de St. Anger (2003), apenas com o diferencial de "Lulu" ser melhor produzido e com a inclusão de um vocal dez vezes mais desafinado, no caso, a voz já cansada de MR. REED em seus quase 70 anos.
O disco é ruim? Não, longe disso. A mistura de sons estranhamente inseridos entre as composições, somados as recitações de Reed, combinam perfeitamente com o conceito da obra. As melodias cruas em músicas de longa duração (a última faixa – a melancólica "Junior Dad" – tem mais de 19 minutos de duração) podem cansar o ouvinte menos habituado a canções digamos... ahn... progressivas como esta. Obviamente, este não foi um disco composto pensando em vendas extraordinárias ou na adoração dos fãs a ele. Eu mesmo, a princípio, não gostei de "Lulu", entretanto, o disco não foi concebido para ser ouvido e assimilado de imediato, e aí está a grande proeza da parceria: a criação de uma obra de arte que estimule a audição mais atenciosa da mesma. Sim, pois o disco passa a ter sentido e aceitação a partir do entendimento dele como um todo, não apenas como um disco somente do Metallica ou de Lou Reed, mas sim como uma parceria de igual contribuição dos dois mundos musicais completamente distintos de ambos.
O destaque absoluto fica para a excelente "Mistress Dead", musicada com o thrash metal que o METALLICA faz como ninguém, e que soaria perfeitamente bem no já citado "St. Anger", com seu clima frenético (qualquer comparação com "Frantic" não será mera coincidência). "Dragon", com seus 11 minutos de duração, assim como grande parte do repertório deste disco, não faria feio em qualquer um dos injustamente subestimados e execrados "Load" e "Reload", de 1996 e 1997, respectivamente.
A comparação com os trabalhos mais recentes do METALLICA será inevitável, e é aí que grande parcela de fãs e crítica musical vão torcer o nariz, porém trata-se de uma obra atípica, a qual não será dada a devida atenção e reconhecimento. O que será uma pena, pois perde-se aí a oportunidade de conhecer um mundo musical completamente distinto do habitual, como a experiência de ouvir "Lulu".
Como disse no início deste texto, certos discos já nascem condenados ao esquecimento. Não deixe que este se inclua à sua discografia injustiçada e dê a ele ao menos a oportunidade de fazê-lo desbravar uma experiência repleta da tensão, melancolia de "Lulu".
Faixas:
1. "Brandenburg Gate" – 4:19
2. "The View" – 5:17
3. "Pumping Blood" – 7:24
4. "Mistress Dread" – 6:52
5. "Iced Honey" – 4:36
6. "Cheat on Me" – 11:26
7. "Frustration" – 8:33
8. "Little Dog" – 8:01
9. "Dragon" – 11:08
10. "Junior Dad" – 19:28
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