Metallica & Lou Reed: "Lulu" não é um disco fácil
Resenha - Lulu - Lou Reed & Metallica
Por Ricardo Seelig
Postado em 19 de outubro de 2011
Nota: 7 ![]()
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Não espere uma audição fácil ao dar play em "Lulu", álbum da parceria entre a maior banda de heavy metal do planeta – Metallica – e um dos ícones do rock "com cérebro" - Lou Reed. Concebido para ser uma espécie de trilha-sonora para o teatro de vanguarda, preenchendo o espaço que antes era ocupado por trilhas orquestradas e clássicas, o disco soa como uma espécie de ópera, alternando momentos mais "visuais" com outros mais palatáveis ao ouvinte "normal" de música.
Conceitual, o trabalho conta a história de Lulu, personagem criada pelo ator e dramaturgo alemão Benjamin Franklin Wedekind, uma jovem dona de um desejo sexual infinito e sem restrições que a conduz através de uma jornada repleta de prazer e sangue. Reed havia escrito as letras das canções há alguns anos atrás para uma montagem norte-americana da peça, que acabou não saindo. Agora, essas mesmas letras ganharam o acompanhamento instrumental do Metallica, alcançando um resultado final, no mínimo, controverso.
Pra começo de conversa, é preciso deixar claro que Lulu não é o novo álbum nem do Metallica nem de Lou Reed. O disco é a estreia da parceria entre ambos, portanto não espere encontrar aqui o que o Metallica fez em "Death Magnetic" (2008), por exemplo. Grande parte da força do trabalho está nas letras de Reed, que serão ignoradas pela imensa parcela dos ouvintes que não domina a língua inglesa. Assim, o que importa, para grande parte do público, é a música propriamente dita.
O Metallica soa de maneira inédita em "Lulu". No lugar dos riffs thrash, temos a predominância de jams, ruídos e passagens construídas a partir de feedbacks. Não há o formato clássico do heavy metal, e nem do rock, na parte instrumental do disco. Salvo algumas exceções - como "Mistress Dread", onde a banda soa mais próxima do que os seus fãs estão acostumados -, a maioria das músicas caminha por sons que causarão estranhamento ao ouvinte tradicional de heavy metal. Isso, aliado à maneira peculiar de cantar de Reed – recitando as letras, como se estivesse falando -, realça ainda mais essa sensação. Pra fechar, a duração das músicas – todas longas -, faz com que se feche um casulo em torno dos músicos, impenetrável na maioria das vezes.
Ainda assim, algumas faixas funcionam. É o caso de "The View", primeiro single, onde o Metallica soa bastante similar aos álbuns "Load" e "Reload". Já em "Iced Honey" o que temos é um hard rock interessante, que remete ao ótimo "New York", lançado por Lou Reed em 1989.
O que torna a audição do álbum difícil é o excesso de experimentalismo de algumas faixas. Entendendo o objetivo dos músicos – criar uma trilha para uma peça de teatro, traduzindo nas faixas os diferentes momentos e emoções do roteiro -, fica mais fácil absorver as composições. No entento, algumas delas simplesmente não funcionam sozinhas, sem o acompanhamento de atores em um palco imaginário, por mais fértil que possa ser a imaginação de quem está escutando o disco. É o caso de "Pumping Blood" e "Frustration".
Entretanto, em alguns momentos a transição é feita de maneira suave, sem a exigência de uma barreira intransponível entre a música e o ouvinte. Quando isso acontece, somos brindados por boas faixas como "Cheat On Me" - uma tour de force de mais de 11 minutos -, "Dragon" e "Junior Dad", que não só encerra o trabalho como funciona como um fechamento de tudo o que ele propõe.
"Lulu" não é um disco fácil. Ele não foi feito para ser ouvido de maneira casual. É preciso se concentrar, deixar-se levar pelas mãos de Hetfield e Reed através de suas composições. Desafiador, erra em alguns momentos e acerta em outros. É uma espécie de sinfonia repleta de pretensão, que, definitivamente, não será assimilada por quem vive em um universo musical formado somente por rock e heavy metal. Os ouvintes mais curiosos e já habituados com a música clássica, por exemplo, absorverão muito melhor as ideias propostas, já que elas estão muito mais próximas dos conceitos e variações desenvolvidos pelo gênero do que do formato padrão do metal e do rock.
Vai gerar discussão? Vai. Vai receber críticas negativas? Sim, a maioria. "Lulu" mostra que o Metallica, inquieto por natureza mesmo com os milhões de dólares de suas contas bancárias, continua buscando desafios criativos em sua carreira. Essa atitude, que muitas vezes não é entendida pelos fãs, é extremamente saudável, pois mantém a banda viva artisticamente e não apenas como uma enorme empresa da indústria musical, como muitos gigantes por aí. No final, o Metallica sai ganhando ao experimentar novas sonoridades, assim como Reed, que teve um acompanhamento literalmente de peso para as suas letras.
Ouça, e tire as suas próprias conclusões. Para mim, o saldo é mais positivo do que negativo.
Faixas:
CD 1
Brandenburg Gate
The View
Pumping Blood
Mistress Dread
Iced Honey
Cheat On Me
CD 2
Frustration
Little Dog
Dragon
Junior Dad
Outras resenhas de Lulu - Lou Reed & Metallica
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