Metallica: Não arrisque tentar encaixar Lulu na discografia

Resenha - Lulu - Lou Reed & Metallica

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Por Thiago El Cid Cardim
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Nota: 6

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


É mais do que preciso deixar um par de coisas bem claras à qualquer um que ouse se aventurar na audição de “Lulu”, o projeto conjunto dos caras do Metallica ao lado do veterano roqueiro Lou Reed. A primeira delas: “Lulu” não é o novo disco do Metallica. Nem sequer arrisque tentar encaixá-lo na discografia do quarteto. “Lulu” é um disco no qual o Metallica faz uma participação como banda convidada. Portanto, não espere ouvir nada próximo de “Master of Puppets” ou “...And Justice For All”. Que isso fique claro, claríssimo, como água.
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“Lulu” não é um disco de heavy metal, mas sim um disco conceitual que usa do peso do metal para amplificar as emoções de uma história. E existe uma diferença do tamanho de um abismo morando aí, já que o objetivo aqui não é bater cabeça. Um grande amigo definiu bem, aliás: “Lulu” é muito mais um álbum de Lou Reed do que do Metallica. Por isso, inclusive, o nome dele vem na frente em toda a divulgação. Dito isto, caso o ouvinte ainda queira de verdade mergulhar nos mais de 87 minutos da bolacha, é provável que ele adentre em uma experiência experimental das mais estranhas e curiosas. Com direito a bons e maus momentos.

A primeira intenção de colaboração entre Hetfield e cia. e o ex-vocalista do Velvet Underground rolou quando eles se encontraram nos bastidores do show de 25 anos do Rock and Roll Hall of Fame, nos idos de 2009. Somente em 2011 é que a coisa deslanchou, quando Reed apresentou ao Metallica uma compilação de canções produzidas para servir de trilha-sonora para uma peça de teatro chamada “Lulu”, reunindo duas peças originalmente escritas pelo dramaturgo alemão Frank Wedekind (morto em 1918 e considerado um dos pais da estética do expressionismo, bastante difundida no cinema germânico). Juntas, as peças “Erdgeist” (Earth Spirit, 1895) e “Die Büchse der Pandora” (Pandora's Box, 1904) contam a história de uma jovem e provocante dançarina que ascende na sociedade alemã por meio de seus relacionamentos com homens ricos e poderosos, mas depois acaba desabando em um submundo de pobreza e prostituição.

Se os bangers que apedrejaram “Lulu” com todas as forças tivessem minimamente se dado ao trabalho de pesquisar sobre este tal de Lou Reed, talvez nem tivessem se dado ao trabalho de ouvir “Lulu”. Afinal, fosse à frente do Velvet Underground ou mesmo em sua carreira-solo (o lendário “Transformer”, de 1972, está aí para não me deixar mentir), o músico e compositor jamais se preocupou em fazer música dentro dos padrões estabelecidos, com um refrão fácil para cantar diante de uma multidão de cabeludos com os braços erguidos. E isso fica muito claro no decorrer das 10 faixas de “Lulu”.

Trata-se de uma audição difícil, ousada, sem fórmulas. As músicas são estranhas, quebradas, entrecortadas, com intervalos de tempo que não fazem muito sentido. Mesmo assim, é impossível dizer que “The View”, acertadamente escolhida para ser o primeiro single, não funcione. Ficou para mim, aliás, como uma das grandes músicas do ano. Em todas as vezes nas quais as composições aproveitam mais a dicotomia entre os vocais falados de Reed e os gritos rasgados de Hetfield, aliás, “Lulu” parece dar um passo adiante. É o caso de “Iced Honey” ou “Cheat on Me”, por exemplo.

“Lulu” é um bom disco, pelo menos para quem estiver disposto a ouvi-lo com a cabeça aberta. Isso não quer dizer, no entanto, que seja perfeito. Na verdade, a nota 6,5 está no topo deste texto por um motivo muito claro. No meio de tamanho experimentalismo, por vezes Reed acaba se perdendo, e vem daí sua fraqueza. Sua forma de cantar quase como que declamando um poema de maneira mal-humorada, como uma espécie de versão sombria de Bob Dylan, funciona à princípio, mas acaba se provando monocórdica e cansativa em dados momentos – em “Dragon”, por exemplo, o que deveria ser uma interpretação sufocante torna-se um momento que nunca chega ao fim, quase insuportável de agüentar.

O mesmo pode se dizer da duração das faixas – nem todas precisariam, de fato, ser tão imensas, porque próximo dos minutos finais, elas passam a soar repetitivas e sem sabor. Apesar da letra intensa e dramática, “Junior Dad” perde metade de seu poder porque se prolonga além do que deveria, além do que seria necessário para reforçar o impacto inicial.

No frigir dos ovos, creio que “Lulu” era um disco que o Metallica precisava ter feito, sabe? Talvez menos pelo resultado final e mais pelo processo como um todo. É o tipo de provocação artística que mexe com a cabeça do camarada, que o tira da acomodação do lugar-comum, que o ajuda na evolução de vindouros projetos, que o chacoalha e o faz pensar fora da caixinha – com o perdão da expressão-chavão dos meios empresariais. Quem sabe “Lulu” não ajude o sucessor de “Death Magnetic” a se tornar mais do que estava predestinado a ser? Só o futuro dirá.

Line-up
Lou Reed – Vocais
James Hetfield – Vocais/Guitarra
Kirk Hammett – Guitarra
Robert Trujillo – Baixo
Lars Ulrich – Bateria

Tracklist
1. Brandenburg Gate
2. The View
3. Pumping Blood
4. Mistress Dread
5. Iced Honey
6. Cheat on Me
7. Frustration
8. Little Dog
9. Dragon
10. Junior Dad

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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