Big Star: Fundindo crueza do Rock com sofisticação do Pop
Resenha - #1 Record - Big Star
Por EliasRodigues Emidio
Postado em 23 de setembro de 2011
Berço do Rockabilly, Blues e Soul (cortesia do incessante trabalho da Stax) Memphis no estado do Tennessee se mostrou um dos cenários musicais mais criativos da história. De lá saíram artistas como Elvis Presley, Otis Redding, entre outros, que certamente tem seus nomes carimbados entre os mais importantes e influentes da música no século XX. Ironia do destino ou não Memphis também foi berço do Big Star, um dos grupos mais importantes do Rock cuja influência (comparável a do Velvet Underground) fez-se sentir mais profundamente nos anos 80 e 90, que o digam grupos como REM, Teenage Fanclub e The Replacements.
A história do grupo se inicia quando Alex Chilton (então com 16 anos) adentra em um grupo de soul (ao melhor estilo Righteous Brothers) denominado Box Tops em 1967 que alcançou relativo sucesso na época, mas divergências internas provocariam sua saída durante um show no fim 1969. Alex tentou carreira solo como cantor Folk em Nova York (a compilação "Lost Decades" contém algumas demos gravadas neste período), porém não obtendo o sucesso esperado ele resolve abandonar tudo e retornar para Memphis sua cidade natal.
É por esta época que ele conhece Chris Bell, guitarrista, compositor e antigo colega de escola que tinha um grupo chamado Ice Water junto com Andy Hummel (baixista) e Jody Stephens (baterista). Com a adesão de Bell o grupo muda seu nome para Big Star, nome de um supermercado próximo ao estúdio da Stax onde seria gravado o disco "#1 Record" em 1972.
Sua singular capa nada mais é do que o letreiro luminoso do referido estabelecimento comercial, mas é quando botamos o disquinho para rodar que percebemos a revolução promovida pelo grupo. Mesclando arranjos vocais influenciados abertamente pelos Beach Boys, o requinte instrumental dos Beatles e o peso dos riffs dos Kinks, o Big Star estava bem longe das sofisticações de grupos como Pink Floyd ou Led Zeppelin. E era justamente aí que residia o seu grande mérito, pois pouquíssimos grupos conseguiram encontrar o ponto certo entre a fusão da crueza/complexidade do Rock e a sofisticação/simplicidade inerente a melhor música pop.
A dupla Bell/Chilton era realmente imbatível no início dos anos 70, seja disparando riffs nervosos em canções como "Feel", "Don’t Lie To Me", "In The Street", seja nos Rocks mais melódicos como em "When The Baby’s Beside Me" e "My Life Is Right". O grupo (em especial Bell) tinha faro apurado para escrever baladas como atesta a sequência arrebatadora "Give Another Chance", "Try Again" (com sua maravilhosa guitarra slide que em nada deve ao Buffalo Springfield) e "Watch The Sunrise". Já "The Indian Song" (de Andy Hummel) com seu belo arranjo de flautas com certeza figura entre os pontos altos do disco.
A singela despedida "ST100/6" fecha o disco com maestria, mas é a dupla matadora formadas pelas baladas "The Ballad Of El Goodo"/ "Thirteen" que nos faz querer ouvir o disco um número infindável de vezes. A primeira tem simplesmente um dos melhores refrãos já gravados por uma banda de Rock, enquanto a segunda é de um lirismo cativante como atesta o trecho "Won't you let me walk you home from school. ... Won't you tell your dad, ‘Get off my back’. Tell him what we said about 'Paint It Black'. Rock 'n Roll is here to stay", Cat Stevens deve ter roído as unhas de inveja ao ouvir esta canção.
Longe de ser apenas flores, a estória do Big Star foi marcada por uma série de problemas em especial a rivalidade entre Bell e Chilton e o respectivo envolvimentos de ambos com drogas pesadas, além das baixas vendas de "#1 Record" graças a má distribuição da Stax mais chegada em artistas de R&B. O álbum marca o início e fim de uma das mais prodigiosas parcerias no Rock, pois Bell logo pularia fora do barco e se lançaria em carreira solo deixando o maravilhoso disco "I Am The Cosmos" lançado postumamente em 1992.
O segundo disco da banda de 1974 "Radio City" também é igualmente genial, porém soa mais pesado e bem menos polido do que seu debute. Um terceiro e obscuro álbum foi gravado em 1975 (embora lançado em 1978) com o nome de "Third/Sisters Lovers" e apesar de soar menos inspirado que os trabalhos anteriores trazia uma das melhores canções já gravadas nos anos 70 a comovente "Stroke It Noel".
Em resumo: "#1 Record" bem como os outros discos do Big Star são discografia básica não apenas para fãs de Rock, mas de música em geral. Recomendadíssimos.
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