Pink Floyd: E do caos nasceu "The Wall" - Primeira Parte

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Por Ronaldo Celoto, Fonte: Pessoal
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“No princípio era a palavra” (João, 1:1). E a palavra não estava mais em Deus. Ela fundia-se em guerras caóticas, conflitos existenciais, obrigações capitalistas, adultérios, toxinas, dores, dogmas e ausência de amor. E o amor, enquanto maior de todas as profecias, já não reinava diante da humanidade perdida. Dia após dia, pessoas amontoavam-se feito tijolos. Entre elas, um único ser parecia pensar e sentir todas as incoerências e insuficiências do mundo que o rodeava. Cansado, ele resolveu amontoar, tijolo por tijolo, a insignificante doutrina do estigma promovido pela sociedade, e, construir um muro ao seu redor. E inúmeras foram as tentações e as palavras em forma de escórias que todos aqueles tijolos lançaram sobre ele. E inúmeras foram as torturas e as insanidades que ele teve de enfrentar, sem poder sair do próprio muro que erguera. Mas era preciso isolar-se, para encontrar, dentro de sua alma, a resposta para a liberdade. Era preciso anestesiar-se de si mesmo e dos antídotos transformados em alucinações, ideias, poemas, memórias, para poder, finalmente, voar. Nascia aqui, a tragédia que não era shakesperiana, mas era a maior de todas as tragédias conceituais já concebidas em forma de música: Pink Floyd – The Wall, aqui recontado sob a ótica do disco e do filme, simultaneamente.

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I – O Início do Filme

A canção “The boy that Santa Claus Forget” (VERA LYNN) inicia os meandros iniciais do fabuloso filme concebido para interpretar o disco “The Wall”, obra máxima da banda. Em um quarto que relembra os corredores outrora já plantados por STANLEY KUBRICK para seus filmes mais famosos, a “Ilíada” moderna concebida por ALAN PARKER e ROGER WATERS tem início.

Aos poucos, esta imagem migra para os campos de guerra, a mostrar, por pequenos e remotos instrantes de esperança, a imagem do pai (obviamente, o pai de WATERS – morto verdadeiramente durante a segunda grande guerra – numa concepção autobiográfica do músico).

Vagarosamente, a música “When The Tigers Broke Free” (uma das mais épicas e tristes canções da história) surge de forma exponencialmente fabulosa, e, as imagens mergulham para o menino PINK, já entorpecido em todas as dores pungentes em seu inconformismo, sentado no quarto daquele hotel, em um dos momentos musicais e artísticos mais sublimes de toda a carreira da banda.

Curiosamente, a canção “When The Tigers Broke Free” foi concebida para o disco, mas a banda considerou-a como pessoal demais, e, resolveu retirá-la do produto final de “The Wall”.

Pessoalmente, eu já a encontrei em um compacto, como “lado B” da famosa “Another Brick in the Wall”. Vamos então, à sua concepção poética, juntamente com o vídeo.

“Foi pouco antes do amanhecer
Uma manhã miserável nas trevas de quarenta e quatro
Quando o Comandante Avançado recebeu a ordem de permanecer em sua posição
mesmo tendo pedido para que seus homens pudessem bater em retirada
E os Generais agradeceram
Enquanto outras fileiras retinham os tanques inimigos por um tempo
E a ponte de Anzio foi mantida pelo preço de algumas centenas de vidas comuns
E o velho Rei George
Enviou à Mamãe uma nota quando soube que papai tinha partido
Foi, eu recordo, sob a forma de um pergaminho
Com folha de ouro e tudo mais
E eu o achei um dia, em uma gaveta de fotografias velhas, escondido
E meus olhos ainda lacrimejam quando recordo que Sua Majestade assinou sob selo próprio:
“Estava tudo escuro
Havia neve no chão
Quando os tigres se libertaram
E ninguém da Companhia C de Fuzileiros Reais sobreviveu
Foram todos deixados para trás
A maioria deles mortos
O resto estava a morrer
E foi assim que o Alto Comando tirou meu pai
de mim”.

II – O Início do Disco: Por Dentro da Atmosfera da Carne (In The Flesh)

A ilusão apoteótica da guerra, numa mensagem sublinear conduzida sarcasticamente por ROGER WATERS, inicia a construção do primeiro tormento magistral, chamado “In The Flesh?”. Enquanto todos nós nos associamos à condição de que somos carne e osso, muitos de nós vislumbramos em nosso âmago a odisséia de serem transformados em heróis. A guerra, como que um convite a mergulhar dentro de uma revista de quadrinhos, é o campo onde o espetáculo de apresenta e desenrola-se nos poucos minutos iniciais.

Em meio à guerra, WATERS pergunta:

“Então você achou
Que gostaria de poder ir ao show
Para sentir o calor vibrante da confusão
Aquele brilho de cadete espacial”

Apesar de servir de contraponto, na turnê, para que a figura de ROGER WATERS surgisse nas vestes de um ditador, a romper com a expectativa da plateia e torná-la à condição de idolatrá-lo de forma icônica, na verdade, é o sarcasmo o grande veneno (ou seria elixir) que o na época líder do PINK FLOYD pretendia inserir neste instante, como crítica a todos os dogmas sociais que transformaram o mundo em um ambiente hostil durante o século XX: a guerra (inicialmente por mim citada), a política e seus ditadores, o amor e suas ambições, procrastinados no conceito de uma família feliz, rapidamente corrompida pela perda e mergulhada no senso comum da sociedade, na famosa mensagem de “ter de seguir em frente”.

Não, WATERS não deseja seguir em frente, sem antes dimensionar a sua dor em pequenos e suaves deslizes em uma única canção. E ele propõe muito mais do que isto, ao conceber:

“Diga-me tem algo o iludindo querido?
Isto não era o que você queria ver?
Se você quiser encontrar o que esta por trás destes olhos frios
Você terá de ter garra em seu caminho com este disfarce.”

Ou seja, ele cria um leque de questões e hipóteses a serem pensadas, que poderiam ser as seguintes:

A – Seria a guerra o grande “show” que você quer presenciar? E agora? O que você fará com este espetáculo de carne e osso ensanguentados, e, esta máscara supostamente heróica que você veste?

B – E a vida, poderia neste momento, ser delimitada por inúmeros quadros transformados em sentimentos, se você, enquanto um suposto herói saberá que o único troféu a receber, será uma inscrição em mármore com teu nome?

C – E você, político corrupto, que criou uma imagem e semelhança divina ao seu redor, mas esqueceu-se de que a sociedade é corruptível e o então prazer de dominar a todos, será um dia, convertido na solidão de não ter com quem dividir a sua forma de enxergar o mundo?

D – E você, sociedade, que procura messias em todos os políticos, ainda não percebeu que, de todas as máscaras que você está a vestir, a pior e mais insignificante, é a de observador a assistir os líderes cuspirem sobre si?

E – Por fim, você, mulher de um soldado, que sonha com o orgulho de vê-lo retornar à casa, e, de repente, é atingida pelo “míssil” da notícia de que ele está morto. Qual a solução fatídica para criar o teu filho, agora que estás sozinha, e, que não existem empregos para “mães solteiras” nem para “viúvas”? Terá você de entregar-se ao conformismo de casar-se com um novo proponente, para substituir o seu verdadeiro amor, por uma carteira e uma obrigação para com o sustento do teu filho, ainda um bebê?

Em meio a este dantesco e já mencionado sarcasmo, inúmeras são as possibilidades que se abrem na mensagem de WATERS para esta canção. E o que fez ALAN PARKER (diretor do filme) para apresentá-la aos fãs?

Seguindo fielmente as dúvidas e possibilidades apontadas por WATERS, o diretor mesclou a musicalidade a cenas de ditadura, a do menino inserido na solidão e na expectativa da ausência do pai, morto no campo de batalha, o soldado a preparar sua arma para ir à guerra, todas convertidas em uma mensagem também sublinear, dentro da já sublinear mensagem contida em “In The Flesh?”: - o vazio, o nada, a sensação de inutilidade perante os desígnios do destino.

E, então, surge, diante do silêncio ressonante, a segunda canção do álbum, mesclada à concepção de silêncio que o diretor PARKER ofereceu ao filme: a mãe a descansar no jardim ao lado do filho após a perda do marido (como que a tentar viver em um universo paralelo, por não aceitar a perda), enquanto a belíssima “The Thin Ice” (que até hoje arranca-me lágrimas) toma conta, naquele instante, não apenas do coração de quem a ouve e assiste às imagens, mas de toda a galáxia concebida na forma de seres vivos. E então, disco e filme fundem-se.

III – Sobre o Lago Congelado, a Vida Caminha Diante do Gelo Fino

Sentada, no jardim, uma mãe atônita, distancia-se do mundo a partir da sua dor, tentando recriar um mundo particular dentro de si. Ao longe, o carrinho de bebê com a criança a chorar, sem que qualquer ruído cortasse a linha tênue entre a dor e a metástase espiritual que consome sua genitora.

A sonoridade remete a uma cantiga de ninar, um piano tocado por RICHARD WRIGHT, entretido entre a mais doce tristeza, uma tristeza que, entretanto, não corrói os ouvidos, e, neste momento, nem aos olhos de quem ouve ao disco e vê o filme. Ao contrário, é uma tristeza “blue”, pacífica. Uma tristeza que apazígua a alma, embora o requinte esfíngico do enigma por detrás da canção carregue desde a beleza do nascer até a impossibilidade de ser amado.

Após a imagem do jardim, surge novamente, a imagem dos soldados destroçados e ensanguentados pela guerra, enquanto que a voz de GILMOUR sussurra:

“Mamãe ama seu bebê,
Papai o ama também,
E o mar pode parecer morno para você, bebê.
E o céu pode parecer azul,
Ooooh, bebê
Ooooh, bebê triste (baby blue)”.

Enquanto a sonoridade no disco parece acalmar, no filme, soldados marcham em direção ao precipício do nada, da retirada, do desfiladeiro da redenção.

Evidentemente, o diretor PARKER tenta construir dentro da história da canção de ROGER WATERS, a sua própria história através de imagens. O céu azul da canção é um céu procriativo na medida em que produz a chuva que cria e sustenta toda a vida no planeta, e, ao mesmo tempo, é o céu por onde os olhos da criança olham atentos, à espera do consolo de mãe. Naquela idade, o universo perceptível de uma criança se emaranhasse através dos olhos e do tato, e, quando nada vê, a não ser o azul do céu, torna-se evidente, embora por pequenos instantes, a sensação de repulsa e de abandono por parte de sua mãe.

Neste instante, a canção tenta navegar no simbolismo da água, que está presente tanto na ideia da vida do bebê chamado ‘PINK’ – a criança deitada dentro do carrinho que a mãe, reclusa em seu universo, e, ainda sem saber bem como lidar com este – enquanto a própria denominação “baby blue”, oferecida a ele por sua mãe, reforça a noção de uma pureza triste e o acréscimo do significado umbilical entre ela e seu filho, mas, também, o acaso desfigurado pela perda do marido na guerra, e, a sensação de impotência para com o seu futuro.

Aí, as pequenas perturbações causadas pelo ruído quase que despercebido da água em meio ao piano infante da canção, adicionam um momento um tanto quanto menos inocente, e, anunciam o que haveria por vir. É então que, de repente, a água é o universo que envolve o menino ‘PINK’, já agora maduro nas imagens do filme (que sugerem um momento de ‘flashback’ entre a infância e o tempo presente), a refrescar-se em suas memórias acerca de um mundo onde ele, desde a infância até os dias de hoje, ele não soube bem definir o real sentido de sua existência. Sua mãe era por demais ausente, e, ao mesmo tempo, amarga.

Evidentemente, é neste instante que o ouvinte percebe o que GILMOUR disse na canção: “E o céu pode parecer azul”, e, o porquê ele disse. Nitidamente, já havia aí, a primeira perturbação acima de toda e qualquer pureza: - a constatação de que o mundo é, sim, um vale de sombras e penumbras, de pessoas frias e insensatez, de destruição, morte, melancolia.

Muitos podem pensar se a violência da guerra seria tão cruel quanto uma violência de uma mãe dominadora e ao mesmo tempo, abandonadora e indiferente aos sonhos do filho, e, se as imagens do filme poderiam entrecruzar-se com as inúmeras suposições trazidas pela canção “The Thin Ice”. A minha resposta é: - Sim.

E digo por quê: - Muito embora possa parecer distante a comparação do peso e da gravidade de uma guerra com a trivialidade da vida de um homem, a questão é que a própria guerra é gerada a partir de instabilidades pessoais (por exemplo, as próprias obsessões de Hitler), e, desta forma, a violência da guerra não é diferente do que a violência moral sofrida por um indivíduo (um menino sem pai), uma violência incutida desde os primórdios dos tempos. Tanto é verdade, que PARKER fez questão de colocar o desenho de TOM & JERRY neste momento do filme, na televisão do quarto de hotel onde PINK (muito bem interpretado por BOB GELDOF) aparece deitado em sua “redoma”, aqui representada pelas águas da piscina, tendo, como sempre, a água como significado de proteção, de vida, mas que, ao mesmo tempo, oferece e tira a vida de quem a consome.

Entre o contrastar da incerteza, a migrar agora para as memórias após a imagem supracitada, o fato é que a voz da segunda parte da música abraça o sarcasmo e profetiza ao então menino, que, da mesma forma que a água se altera para o estado sólido de ‘gelo fino’, a antiga alegoria que representava a criação e a proteção, também pode significar destruição.

Explicando melhor: A chuva que faz as plantas crescerem pode acabar com uma massa de seres vivos através de uma inundação maciça. A água que dá vida ao homem um dia pode afogá-lo. As águas maternas que promovem uma nova vida podem se alterar, congelar, e abortar ou abandonar a vida que acabaram de criar. Esta é a vida em que PINK mergulha neste instante.

O que ele (PINK) pensava ser um ambiente aconchegante, alimentado pela água (vida) ao seu redor, acabou por ser frio e estéril, e, a “mãe amorosa” e a vida que o abraçavam tornaram-se congelados e inflexíveis. A canção já lhe anunciava isto: "O mar pode parecer morno".

A realidade então, não passa aos seus olhos, de uma camada fina de gelo que cobre uma paisagem ainda mais gélida, insensível.

É sempre bom acrescentar que este simbolismo da água, para muitos pesquisadores, também tem a conotação de idéias do ‘self’, como, por exemplo, a idealização da pureza e da libertação contidas no filme "Persona", do grande diretor INGMAR BERGMAN.

Será preciso, neste instante, adentrar um pouco no filme "Persona", para retornar a "The Wall", em seguida.

Em "Persona" temos o existencialismo de KIERKEGAARD, que, ao invés de pensar o que é a verdade, tenta agir de acordo com a verdade do seu coração, exponenciando a sua dor. A verdade na personagem ELIZABETH concebida no filme de BERGMAN, no primeiro momento, é a recusa do palco, pois a arte deixou de ser suplício de beleza, para se tornar lugar comum.

Depois, nascem no filme de BERGMAN duas individualidades: ELIZABETH, com sua persona de isolamento, sem comunicação, enquanto ALMA (a segunda individualidade), demonstra a persona do convívio social. A atriz que toma subitamente consciência da mentira em que vive, e rejeita a própria voz. Ela não quer mais mentir, não quer criar mais personas, pois ao se comunicar ela já cria uma mentira do que ela é (adere às sombras, então, pelo silêncio). Ela não quer faltar à verdade. E a sua enfermeira ALMA (que na verdade representa a sua sua segunda personalidade, de forma genial no filme sueco) assume esta responsabilidade. E aí, ambas acabam se tornando uma só. Primeiro comparam-se as mãos, simbolizando a individualidade, depois as duas faces.

Voltando aos esmeros psicológicos, eu preciso explicar a você, caro leitor, que o ‘self’ na psicanálise é a junção do consciente e do inconsciente, que se completam mutuamente para formar a totalidade do indivíduo.

O 'self', tanto em PINK (do filme "The Wall") quanto nas duas mulheres presentes no filme "Persona", é figurado em sonhos e memórias de forma impessoal (símbolos) ou pessoal (acontecimentos chocantes, tristes ou alegres). Em "Persona" o ‘self’ surge também representado pela na cena em que ALMA representa ELIZABETH no encontro com o senhor VOGLER. Sim, o mesmo sobrenome VOGLER encontrado em "A Hora do Lobo" (outro filme de BERGMAN). Seria coincidência? Claro que não. Em "A Hora do Lobo", o personagem VOGLER é mulher. Em "Persona", é homem. Ambos, em cada um dos filmes, são responsáveis pela desconstrução da felicidade. O 'self' de "Persona" age em dissonância com a felicidade. O 'self' de "The Wall" também.

E esta desconstrução, dentro de "The Thin Ice", tem como combustível a água, que, ao mesmo tempo é morna (como nas palavras contidas na letra) como é fria. Ou seja, a água viva presente em cada um de nós, pode proteger ou ferir. Enquanto esta água é muitas vezes um símbolo da mente de uma pessoa, as imagens de fundo que a cercam são freqüentemente associadas com a sua memória e suas feridas. Entendeu? Pois então, vamos prosseguir.

A música prossegue, para dizer a PINK que cada expectativa de sua vida tornou-se um gelo frágil e cruel. Uma memória que pode destruí-lo, assim como o ‘gelo fino’. Todo amor que ele esperava receber rendeu-se em lágrimas e acalantos de impossibilidade para com sua mãe. O ‘lago congelado’ ao seu redor, obrigou-o a experimentar as rachaduras, e, conhecer os tijolos que pouco a pouco, ele teve de presenciar. Ambos (o lago e os tijolos) foram na verdade, decepções pessoais colecionadas ao longo de sua existência.

O “blue” inicial, que o adjetivava à pureza, agora é o “blue” da depressão e do caos. PINK é, neste momento, um ser melancólico e atônito, entorpecido e depressivo.

E a letra lhe diz tudo que ele já sabia, diante de uma voz mais amarga (conduzida por WATERS) para destruir a primeira impressão de pureza, trazida antes por GILMOUR:

“Se você for patinar
Sobre o gelo fino da vida moderna
Arrastando atrás de você, a censura silenciosa
De um milhão de olhos cheios de lágrimas
Não fique surpreso, quando uma rachadura no gelo
Aparecer sob os seus pés
Você se desequilibra ante a profundeza e sai fora de si
Com seu medo fluindo por trás de você
Enquanto você se agarra ao gelo fino.”.

De repente, toda a melodia pueril da canção também se torna um rugido raivoso de alma, ao som da guitarra de DAVID GILMOUR e da bateria de NICK MASON, que entoam-se em um belíssimo momento, épico, para uma canção de tão curta vida, mas tão longo significado. E então, as águas tingem-se de sangue.

E este sangue trazido pela imagem acima enfatiza ainda e talvez, na minha humilde opinião, o sacrifício cristão, aparentemente igualando PINK a um messias dentro de um nível simbólico, que, mais tarde, será percebido com o decorrer do álbum e de sua interpretação.

É bem verdade que a Teologia cristã ensina que Jesus era um homem/divindade, que dedicou seu amor ao mundo e absolveu os pecadores por meio de sua morte na cruz. Muitos podem dizer que estas características não pertencem a PINK no filme e na canção. Mas o fato é que ROGER WATERS queria de alguma forma, chocar o mundo com sua metáfora sobre o gelo fino da guerra, do nascimento e do abandono. E o diretor ALAN PARKER, na minha humilde opinião, acabou, sem perceber, por catalizar um conceito a mais dentro desta trindade, expondo PINK dentro do seu universo egoísta e doloroso, mas, também, concebendo paráfrases com o cristianismo, apenas para simbolizar, em poucos segundos de imagem, o sacrifício do cordeiro, para que mais tarde, PINK retomasse o seu ego individual e se transformasse num personagem diferente, como dito, nas próximas canções do disco.

Vamos então, à monumental canção “The Thin Ice”.

Se eu pudesse resumir esta canção em um poema sobre abandono ou genocídio materno através da indiferença, eu diria algumas palavras, a exemplo do que um dia fez brilhantemente um poeta brasileiro; mas, para evitar copiar versos de outro autor, resolvi escrever a minha versão pessoal e poética (bem simples) sobre o ‘gelo fino’ da indiferença, e, narra-la sob a ótica da primeira pessoa que a sofreu, no caso, o menino PINK:

“Eram os primeiros dias do mês de janeiro,
Ouço vozes advindas de um povo,
Mas dentro de mamãe, ainda sou um astronauta,
Vestido de célula-ovo.

Quinze de fevereiro, sinto-me um embrião,
Mas há algo de triste no coração de minha genitora,
Ela parece não querer-me em unção,
Sou uma pergunta sem resposta, numa gigantesca incubadora.

E então, já possuo formatos,
Pernas e braços, suspiros e relatos,
Diante do mundo, já sou um fato,
Mas, para mamãe, transformei-me em fardo.

Os meses passam, e, então, mamãe sente sua última dor,
É chegada a hora... estou indo em direção ao mundo,
Sou fruto de um magnífico e responsável amor,
Por onde Deus gerou o milagre mais profundo.

Em meus primeiros respiros, carrego-me de choro,
Mas ouço mamãe, por um instante, tentar sufocar-me,
O arrependimento chega, e, ela se põe a abraçar-me,
E pede perdão aos céus, sem receber nenhum consolo.

Os anos passam, e, com eles, nenhuma palavra amiga,
Nenhum conforto ou consolo, sou um objeto a decorar uma sala,
Numa casa fria cuja madrugada de pesadelos me acala,
Eu... eu só queria que mamãe me desse um pouco de vida.

Sou um quase-órfão quasímodo envolto em ódio e abandono,
E cada vez mais mamãe parece não mais querer acordar,
Hoje ela tomou todos os comprimidos receitados para o sono,
Hoje... hoje... mamãe irá se drogar!

Sinto-me só... triste e rejeitado, eu apenas me alimento
De imaginária vida que um dia eu quis,
Tudo ao meu redor são emoções perdidas e tormentos,
De alguém que apenas queria, por um dia, ser feliz”.

Enfim... entre lágrimas e suspiros, retomo minha missão de continuar a decifrar as canções do álbum e as imagens do filme “The Wall”, comovido, evidentemente, pelo epitáfio causado por “The Thin Ice”. É uma canção que, como já disse, sempre me emociona, e, acredito, é a chave que inicia o enigma de todo o enredo contido no álbum, e, no filme.

E assim, tijolo após tijolo, confinado ao isolamento, o personagem PINK ainda se inquieta com as memórias até então concebidas, e, resolve mergulhar ainda mais dentro delas, agora, inserindo-as em seu período escolar primário, a remontar uma vez mais, o seu isolamento de tudo e de todos. Nascia aí, o primeiro contato com o que viria a ser um dos maiores sucessos do PINK FLOYD até hoje: “Another Brick in The Wall”.

IV – Todos São Apenas Tijolos Sobre Um Gigantesco Muro

Caos... lisergia... vaidade... fé. Dentro de uma sala escura, cercada de enormes bancos, a mãe busca uma oração silenciosa, um coquetel de preces sem respostas, mas, em busca de um milagre de Deus para consigo mesma. Indiferente ao seu filho, e, este, indiferente a ela, ambos passeiam feito fantoches etruscos.

Neste instante, PINK carrega em suas mãos um pequeno avião, e, duas medalhas sobre o paletó, que simbolizam a bestialidade heróica de seu pai, morto em combate. Lá fora, longe de todo e qualquer confessório, os pássaros transformam o centro da cidade numa sala de jantar de migalhas e restos do capitalismo humano. E, na igreja, dois mundos colidem como se fossem ilhas, cada qual cercada de seu próprio oceano.

A guitarra de DAVID GILMOUR cavalga em ritmo ‘funky’ através de leves dedilhados. Sim, a modernidade também atingia ao PINK FLOYD, e, as vertentes progressivas se distanciavam da antiga leveza, e, anunciavam ao modernismo de uma nova ‘era’, a era do ‘balanço’. Influenciados pelo movimento da música ‘disco’ que assolava todo o planeta, caberia aos britânicos recriar o seu próprio hino à sociedade futura. E, ele não podia soar de outra forma que não fosse dançante.

Mas, qual a melhor forma de fazer isto, e, honras suas origens, do que inserir um pequeno capítulo introdutório, uma passagem apoteótica, para, só então, adentrar à faixa pretendida? A melhor forma era simplesmente ser parte do grupo PINK FLOYD. E eles eram.

Neste instante, a voz de WATERS apossa-se do personagem PINK e comenta, no silêncio de sua inquietude, para si mesmo, os primeiros acordes da canção “Another Bick in the Wall – Part One”:

“Papai voou através do oceano
Deixando apenas uma memória,
Uma foto no álbum da família,
Papai, o que mais você deixou para mim?
Papai, o que mais você deixou pra trás para mim?
No final foi apenas um tijolo na parede,
No final todos eram apenas tijolos na parede”.

O contraponto do baixo de WATERS assume a segunda ecoação, duelando em um canal mais baixo, com os mencionados dedilhados de GILMOUR. No filme, as imagens traduzem um menino PINK a brincar no parque, e, a tentar segurar nas mãos de um senhor desconhecido, tentando transformá-lo no pai (morto na guerra) que ele nunca conheceu, e, rapidamente, ele é impedido por este senhor, que segue adiante. Desolado, PINK sente toda a sua fragilidade e impossibilidade diante do karma social da solidão e permanece sentado na cadeira do balanço.

É então que, como que num colapso visual, o filme adianta-se ao disco e cria uma cena paralela e única: o retorno da canção “When The Tigers Broke Free” (como eu já disse, uma das mais tristes e épicas canções de protesto feitas em todos os tempos), enquanto PINK, já em casa, encontra os pertences de seu pai na gaveta, e, veste o chapéu que pertenceu ao mesmo, e, confronta-se com o espelho, imaginando-se, diante do espelho, em seu lugar.

Neste momento, apenas o filme conduz a alegoria. O disco ficou pausado no final de “Another Bick in the Wall – Part One”. E o filme, mais uma vez, surpreende com a canção “Goodbye Blue Sky”, cercado de imagens feitas com animações poderosas sobre aviões de guerra em forma de cruzes, soltados atônitos, feito martelos sobre o chão, demônios, uma gigantesca águia preta a simbolizar o primeiro símbolo da Alemanha pré-nazista, a arrancar sangue do solo e a pairar sobre o céu, este mesmo céu que, de azul, torna-se cinza, elevado pelo violão tocado por DAVID GILMOUR e as vozes dele e de WATERS a entonarem o adeus à antiga paisagem. Vamos a algumas imagens, e, a seguir, à letra.

“Você viu os apavorados?
Ouviu as bombas caindo?
Já se perguntou por que tivemos que correr para o abrigo
quando a promessa de um admirável mundo novo
se desfraldava sob um limpo céu azul?
Você viu os amedrontados?
Ouviu as bombas caindo?
As chamas já se apagaram
mas a dor continua
Adeus céu azul
Adeus céu azul
Adeus
Adeus”.

E então, no último adeus ao céu azul, o desenho de um cadáver e a imagem de uma pomba, como que a trazer a última onda de esperança, cruzam as telas do filme.

Neste instante, o filme novamente, funde-se à sonoridade do álbum, e, as imagens trazem PINK para o cenário de sua infância, a ir para a escola. Começaria aí, a canção “The Happiest Days Of Our Lives”, prévia àquela que seria a continuação e o desfecho acerca dos tijolos da infância: “Another Brick in the Wall – Part Two”.

No início de “The Happiest Days Of Our Lives”, a música parece chamá-lo ao longe, enquanto as imagens simbolizam uma corja de alunos dentro de um trem, com máscaras irreconhecíveis, como que a serem levados para um matadouro.

A imagem é repentinamente intercalada com a sonoridade do disco e o rosto enfadonho de um cruel professor, que diz a PINK, em tom de zombaria:

“Você!
É, você! Fique parada senhorita!

Anuncia-se então, a anarquia necessária para que GILMOUR, WATERS, MASON e WRIGHT entrassem em êxtase criativo, e, começassem a destilar uma das maiores e mais poderosas canções antieducacionais já registradas. Enquanto o suingue ‘funky’ da melodia corrói sem culpa o passado e anuncia a modernidade já prevista, as narrativas que acabam por se transformar em regras para todos os jovens elevam-se:

“Quando crescemos e fomos para a escola
Haviam certos professores
que feriam as crianças de qualquer forma que pudessem
Zombando de nossas decisões e do que fizéssemos
Expondo quaisquer fraquezas
Tão bem escondidas pelas crianças.
Mas na cidade era bem sabido
Que quando eles iam à noite para suas casas
Suas esposas gordas e psicopatas
humilhavam-nos e esmigalhavam cada polegada de suas vidas.”

Em meio a esta epopéia, as imagens do filme mostram o menino PINK indiferente ao dogmatismo trazido por seu professor, e, este, ao percebê-lo a escrever poemas introspectivos, além de humilhá-lo, castiga-o com a chamada “varinha de condão”, que de mágica nada possuía, e, sim, requintes de tirania.

PARKER foi inteligente ao resumir a sociedade de uma época na figura de um professor amargo, assim como fez WATERS, pois em tempos onde se dizia que a educação era o único pilar de salvação para o mundo moderno, ambos, músico e diretor, dissecaram uma era de pessoas amargas e mal amadas. Em uma das cenas, o professor é obrigado a engolir um pedaço de osso de frango, para não deixar nenhum resto de comida sobre o prato, e, a imagem intercala-se com o castigo a um aluno. Genial!

Já não há mais regras, nem atalhos. O universo agora pertence a uma única voz. E ela se chama: “Another Brick in the Wall – Part Two”.

O hino de toda uma geração, e, de todas as gerações posteriores. Quem a considera uma música enjoativa, certamente a ouviu demais, mas, certamente, não teve paciência de entende-la dentro do contexto do álbum e do filme, e, principalmente, comprou coletâneas do PINK FLOYD, e, não teve coragem de concertrar-se na sua força, pois a canção é uma trilogia, e, não apenas uma segunda parte. Ela rompe com toda e qualquer requinte comum da sonoridade progressiva, e, adianta ao modernismo toda uma letra crítica e um balanço musical que conseguiu ser mais pop do que, por exemplo, “Start Me Up”, dos STONES (na época), e, mais reacionária do que “Anarchy In The UK” dos SEX PISTOLS, que, aliás, eram os ‘baba-ovos’ que viviam a dizer: “Eu odeio PINK FLOYD” (como se sua frase tivesse a força de mudar todo um conceito ao redor da banda – e, mais tarde, todos perceberam que os PISTOLS eram um golpe arranjado por uma gravadora, que copiava a agressividade dos STOOGES, a maquiagem dos NEW YORK DOLLS, mas não tinha a genialidade do VELVET UNDERGROUND).

Não fosse esta canção, e, os discos de rock progressivo e conceitual das décadas seguintes, talvez estivessem a procurar repetir canções de trinta minutos, com longas e densas passagens, e, duelos instrumentais intermináveis. Mas os músicos do PINK FLOYD mostraram que poderiam ser modernos, serem conceituais e serem inteligentemente brilhantes.

E, qual a melhor cena para definir um dos melhores inícios de música que já se ouviu? Sim, porque estamos a cantar as primeiras palavras que simplesmente dizem: “We don’t need no education”!

ALAN PARKER tinha a resposta certa para tal. Ele inseriu de forma soberba, uma fila de alunos a conduzir-se em direção a uma escada, e, a saírem desfigurados, e, sentados sobre as cadeiras escolares.

“Nós não precisamos de nenhuma educação
Nós não precisamos de nenhum controle do pensamento
Nenhum sarcasmo em sala de aula
Professores, deixem as crianças em paz
Ei, professores! Deixem as crianças em paz!”

Não, não me permitirei conter neste instante. A vontade uníssona que tenho dentro de meu coração agora é abrir as janelas e dizer, diante de todos os oceanos da imposição e das obrigações mundanas, que eu não preciso de nenhum dever ou ordem dentro de minha alma, eu só preciso viver, conhecer pessoas, amar, e, educar-me com tudo que a vida puder me ensinar, mas jamais sob a ótica de outro ser que tente me direcionar para ser o que eu não quero, em hipótese alguma!

Mas, é preciso continuar a analisar este magnífico álbum/filme. Pois vamos. E, retornando o processo verdadeiramente impactante, quase que alucinógeno que é ver e ouvir “The Wall”, nós chegamos até o refrão fantástico, e, até hoje, um dos mais cantados entre todos os grupos sociais, enquanto ao fundo, o filme entoa duas filas de alunos, como que a serem regidos por um mestre:

“No final, é apenas outro tijolo no muro
No final, você é apenas outro tijolo no muro”.

E o impacto visual, emocional e espiritual não termina por aí. De forma inteligentemente anárquica, WATERS recorreu a um coral de crianças para abrilhantar ainda mais o seu protesto, dando voz a toda uma sociedade numa época em que os Estados Unidos definiam-se como suprasumos da então guerra fria com a União Soviética, enquanto que a Inglaterra vinha marcada pelo início do conflito pela titularidade das Ilhas Malvinas, diante da Argentina, e, pela necessidade de se reerguer politicamente diante dos então dois impérios do oriente e ocidente (pois economicamente, ainda não enfrentava colapsos de maior grandeza).

Evidentemente, este coral de crianças não fugiu às imagens do filme. PARKER, aliás, aproveitou bem este contraste, e, colocou os alunos organizados dentro de uma grande sala.

E, enquanto estes alunos denunciavam a sua liberdade de expressão ao som de PINK FLOYD, a voz do impiedoso professor novamente contracenava com eles, a dizer:

“Errado, faça de novo! Errado, faça de novo!
Se você não comer carne, não vai ganha pudim!
Como você pode ganhar pudim se não come carne?”.

Uma autobiografia mais do que evidente não apenas de WATERS, mas de todos os componentes da banda, que passaram pela impiedosidade dos colégios britânicos conservadores.

Vamos ouvi-la, juntamente com “The Happiest Day Of Our Lives”?

E, por fim, diante da revolução sonora e visual promovida pela banda e pelos alunos em uníssono, nada melhor para o diretor ALAN PARKER, do que destruir toda e qualquer tentativa de ‘não reação’ dos que lá protestavam por liberdade de expressão, a colocar os alunos, tanto diante da moagem de carne em um gigantesco moedor, quanto, a quebrar suas cadeiras e atear fogo na escola, como forma de desprendimento social. Vamos repetir a letra, agora em inglês, para encaixar novamente, um pouco das novas imagens abaixo, dentro do contexto do filme?

“We don't need no education
We don't need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers, leave them kids alone
Hey! Teacher! Leave us kids alone!
All in all is just another brick in the wall
All in all you're just another brick in the wall”

Enquanto os últimos ruídos da liberdade anunciada congelam-se no filme, diante da imagem de PINK a ser abraçado por uma mulher, e, o som do telefone começa a impor-se, o mesmo ocorrendo no disco, chegamos à “quase conclusão” do “primeiro lado” do disco “The Wall”, faltando ainda, uma última canção a ser analisada. Vale lembrar que o trabalho tem quatro lados, e, ainda temos muito a falar.

Apenas gostaria de fazer um apêndice, neste instante, e, acrescentar algumas poucas palavras sobre “Another Brick in The Wall – Part Two”.

Alguns estudiosos da obra de ROGER WATERS entendem que a canção faz alusão à obra “Admirável Mundo Novo”, de ALDOUS HUXLEY. Nela, os ensinamentos são todos ocorridos por meio de um processo de repetição de lições fundamentais enquanto as crianças adormecem. Ou seja, em meio ao seu sono, a hipnose se encarrega de determinar-lhes os valores de toda uma sociedade, evidentemente, direcionados ao respeito por seus governantes e a nenhuma forma de contrariedade e oposição ao sistema, pois, como dissemos, tais ensinamentos são digeridos por meio de hipnose.

Dito isso, e, aí entendo que o filme foi até tímido nesse sentido em termos de imagens (mas eficaz), as crianças se transformariam, com o decorrer deste sistema de aprisionamento através de um ensino hipnótico, em verdadeiras ovelhas, como que a caminhar juntas em meio aos ditames, ou seja, todos não passariam de “clones sociais” (permissa venia a terminologia por mim utilizada), e, por isto, os dizeres “nós não precisamos de nenhuma educação” estariam a fazer menção do futuro previsto sob a ótica de HUXLEY, de quem WATERS, como se sabe, leu inúmeras obras.

Pessimista em relação à sua própria humanidade, e, temendo o pior (não bastasse o que ele já havia sofrido), WATERS tentou elevar o nível da discussão de sua banda ao ponto de torná-la profética. E, este é o grande segredo por detrás da trilofia de “Another Brick in The Wall” que a maioria das pessoas não compreende: o futuro.

Ora, todos precisam de educação. Mas, não a educação nos moldes que todos eram obrigados a assistir, e, pior, não a educação capitaneada pelo livro de HUXLEY para com o temível mundo após o século XXI.

Por detrás desta canção que tanto já tocou nas rádios e tanto já cansou aos ouvidos de muitos e muitos fãs de PINK FLOYD, há um universo paralelo de profecia e interferência no próprio destino da humanidade.

A seguir, entendi como necessário trazer uma imagem para ilustrar o que poderia ser este “Admirável Mundo Novo”, na visão de ALDOUS HUXLEY, e, na ótica temerária de ROGER WATERS.

Retornamos, enfim, ao disco, e, ao filme. Neste instante, as memórias de PINK (no filme), já com o músico e ator BOB GELDOF totalmente encarnado na mencionada entorpescência e melancolia do personagem, começam a vagar pelos seus primeiros questionamentos enquanto criança, dirigidos à mãe e ao vazio das respostas que nunca chegavam.

V – Mãe, Por Favor, Me Responda.

Inicia-se a pergunta que jamais obteve resposta em termos de palavras: a proteção materna de PINK lhe fez bem? Ela lhe trouxe libertação ou conforto? Ou era apenas uma fachada diante de uma alma amarga que se viu obrigada a carregá-lo como fardo, conforme já dito na canção “The Thin Ice”? Enquanto a resposta não chega, PINK se vê perdido entre a mulher ao seu lado e as memórias escolares e familiares, até o momento em que, envolto a pesadelos, ele procura o quarto da mãe para se refugia em seus braços.

Mãe, você acha que eles vão jogar a bomba?
Mãe, você acha que eles vão gostar dessa música?
Mãe, você acha que eles vão querer me castrar?
Mãe, devo construir um muro?
Mãe, devo concorrer para presidente?
Mãe, devo confiar no governo?
Mãe, eles vão me por na linha de fogo?
Ou isso é só uma perda de tempo?
“Calma bebê, não chore.
Mamãe fará todos os seus pesadelos se realizarem.
Mamãe porá todos os medos dela em você.
Mamãe vai manter você aqui, debaixo da asa dela,
não deixará você voar, mas talvez deixe você cantar
Mamãe vai manter o bebê aconchegado e quentinho
Oh, bebê, é claro que a mamãe irá ajudar a construir o muro.”

O tempo vaga como que num corte preciso entre passado e traz PINK de volta ao presente, agora ao lado de uma mulher, alguns comprimidos e maços de erva para ser enrolados, além de uma jovem mulher, em um dos cômodos sua casa, e, que, simultaneamente, como se ele estivesse a viajar por anos e anos, cai diante de seus olhos e lhe traz a sensação de que sua mãe está definitivamente morta. Ele não possui amigos, não possui futuro. Ele apenas continua a perguntar sobre as bombas que poderiam ser lançadas, mas, na verdade, ele queria perguntar: “Mãe, porque eles tiraram meu pai de mim”?

Para piorar as coisas, a mesma mulher que traz algum prazer a algum momento de realidade na cama de PINK, está a trai-lo com outro homem. E, entre lampejos de luz e alucinação triste, ele tenta, em vão, perguntar à memória de sua mãe, se aquela mulher era boa o suficiente para ele, e, se algum dia, iria magoa-lo.

“Mãe, você acha que ela é boa o suficiente pra mim?
Mãe, você acha que ela é perigosa para mim?
Mãe ela vai despedaçar o seu menininho e deixá-lo de lado?
Mãe, ela partirá meu coração?
‘Calma agora bebê, bebê, não chore.
Mamãe vai checar todas as suas namoradas pra você.
Mamãe não irá deixar ninguém sujo se aproximar.
Mamãe vai esperar acordada até você voltar.
Mamãe vai sempre descobrir onde você esteve.
Mamãe vai sempre manter o bebê saudável e limpinho
Oh, bebê, você sempre será uma criança para mim’.”

PINK neste momento sente-se um embrião perdido, tal qual a imagem acima, com a louca vontade de cortar-se, de exilar-se do ‘todo’ concebido ao seu redor. Novamente, a metáfora da água retorna à história, não pelas imagens do filme, mas, pela própria interpretação de que a vida é um belíssimo milagre, mas, em meio a estes milagres, há uma cordilheira de ilusões e tristezas, que somos obrigados a enfrentar, e, que, se desde cedo formos duramente castigados pelos desígnios da fatalidade, poderemos nunca mais nos recuperar das perdas, e, construir, ao nosso lado, um gigantesco muro, cada vez mais identificado com as múltiplas personas de PINK, suas dores, suas obrigações, seus traumas, seus medos, suas perdas emocionais, as mulheres que não o amavam da forma que ele queria, e, o egocentrismo fechado dentro de um universo espiritual particular, onde ele respira por aparelhos imaginários um oxigênio cheio de poesia e encanto, mas que não faz parte da realidade.

É por isto que, no final da canção, PINK pergunta: “Mãe, o muro precisava ser tão alto?”. Vamos então, ver e ouvir “Mother” dentro do filme.

Este verdadeiro desabrochar constituído pela história da canção “Mother”, cantada com a voz belíssima de DAVID GILMOUR, e, com um dos mais lindos solos de guitarra de sempre, contém muitas perguntas sem resposta. Por exemplo (dentro da ótica de pensamento de um menino): - Mãe, porque a cor do céu é azul? Mãe, porque o oceano é cheio de água? Mãe, porque as pessoas dizem que Papai Noel não é real? Mãe porque Jesus morreu na Cruz? Mãe, porque “eles” não lançaram a bomba aqui, e, lançaram a bomba sobre o papai? Mãe, o mundo ainda está em guerra? Mãe, o papai um dia vai voltar, nem que seja como um fantasma? Mãe, porque o professor bate em quem escreve poemas? Mãe, porque eles (professor e diretor) me deixaram de castigo por ler livros de amor? Mãe, eu gosto de uma menina mais jovem, mas todos dizem que ela não gosta de ninguém. A senhora pode me dizer se ela é boa para mim? Mãe, eu vou ser feliz? Mãe, a senhora um dia também vai morrer?

Enfim, inúmeras e inúmeras questões que permeiam o desabrochar de uma jovem mente enjaulada em um universo para o qual ele não estava preparado para encarar sozinho. De repente, é como se o termo “eles”, utilizado por PINK nos questionamentos da letra de “Mother”, não se resumisse apenas à guerra, mas a todo e qualquer perigo, que se traduz tanto pela figura dos professores, diretores, dos amigos que não mais existem, e, das mulheres que abandonaram PINK, tendo a última, como se vê no vídeo de “Mother”, o trocado por um militante pacifista com discursos poéticos – a mesma poesia pela qual PINK foi: castigado e humilhado em sua infância, por seus mestres na escola.

Aos poucos, PINK percebe que, entre a superproteção de sua mãe e a indiferença, ambas rotativas, ela acabou também, por se tornar um dos “eles”, um dos elementos causadores de sua insegurança e de sua fuga constante em relação à percepção da realidade. É por isto que a voz de GILMOUR, na segunda parte da canção, torna-se um pouco mais sórdida em relação à primeira parte, muito embora não se perceba tão facilmente esta dissonância.

Mas, quem é PINK neste momento? O adulto a tentar tornar-se o menino deitado sobre a cama e protegido pela imagem da mãe?

Ou seria o adulto transtornado e encostado ao telefone mudo, a descobrir a traição da namorada, e, a novamente, desejar desaparecer do conceito humano de existência?

Termina aqui, o primeiro lado deste álbum conceitual, cuja continuação dos próximos três lados ocorrerá no tempo certo, até finalizarmos a análise desta obra, capítulo por capítulo. Obrigado aos diversos sites e blogs que pude consultar. Alguns já haviam feito resenhas similares sobre o álbum – muito mais curtas, evidentemente – mas trouxeram alguma elucidação às ideias que eu já tinha sobre o tema. Obrigado também, aos escritores e diretores de outros filmes e livros aqui mencionados, que também enriqueceram a construção deste texto. Por fim, obrigado aos músicos do PINK FLOYD, por existirem, e, por terem concebido a obra máxima em termos de projeto conceitual.

E, claro, um obrigado e um abraço a todos os leitores!

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Sobre Ronaldo Celoto

Natural do Estado de São Paulo, é escritor, professor, poeta e consultor em direito, política e gestão pública. Bacharel em Direito, com Mestrado em Ciência Política, atualmente cursa Doutorado em Direito, Justiça e Cidadania pela Universidade de Coimbra. Além destas atividades, dedica diariamente parte de seu tempo à pesquisa e produção de artigos científicos, contos, romances, matérias jornalísticas, biografias e resenhas. Seus interesses pessoais são: cinema, política, jornalismo, literatura, sociologia das resistências, ética, direitos humanos e música.

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