Álbuns conceituais: sobre o rock como "literatura"

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Por Flávio Siqueira
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Os detalhes advindos de alguns discos produzidos na musicalmente fervorosa década de 70 expôs, de forma singular, uma das características mais criativas dos grupos de rock da época: a composição de álbuns conceituais. Livres para versarem sobre qualquer tema, os músicos criavam estórias através das canções que, quando interligadas, era como se cada álbum fosse um livro musicado. Há, no entanto, uma discussão que permeia os bastidores dos estudiosos dos álbuns conceitos. Para muitos deles, o primeiro álbum conceitual foi o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Para outros, foi o Days of Future Passed, da banda The Moody Blues. Ambos datam de 1967. Desde então, os álbuns conceituais brotavam dos estúdios como verdadeiras pérolas musicais, das quais tudo era meticulosamente organizado, desde a criação das letras passando pela cuidadosa elaboração dos instrumentais até o fino trato dos engenheiros de som ao disco.
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Os álbuns conceituais exigiam tanto dos compositores quanto dos ouvintes um pensamento mais crítico e um olhar mais acurado para a realidade para conseguir um resultado expressivo na lapidação do disco. Para as bandas, isso significava expandir os limites da música na época; e para os ouvintes, significava deleitar-se em álbuns que fugiam do lugar-comum das canções desordenadas, além apreciar um disco produzido detalhadamente e com muitas nuances da literatura, da filosofia e inclusive da psicologia.

Um detalhe pertinente é que, apesar de não ser uma regra, a maioria dos álbuns conceituais foram compostos por bandas de rock progressivo. Contudo, até mesmo Frank Sinatra se rendeu à esse formato de composição quando lançou In the Weel Small Hours, no qual expressava seu sofrimento amoroso após se separar da atriz Ava Gardner. Datado de 1955, esse disco é um caso à parte por ser exclusivamente de jazz, sendo, portanto, na história do rock, The Beatles e The Moody Blues os primeiros a engendrarem álbuns conceituais.

Indústria cultural ao avesso

Levando em conta que os primeiros fãs progressistas eram intelectuais ou envolvidos intimamente com filosofia ou arte em geral, os álbuns conceituais, carregados de profundas reflexões, foram bem aceitos pelo público que ouvia prog. O filósofo Theodor Adorno (1903-1969), um dos críticos da Escola de Frankfurt e precursor da chamada indústria cultural, preconizava que a massificação da arte para fins meramente lucrativos constituía uma gradual perda de qualidade da arte em si. Em relação à música, Adorno afirmava que a indústria cultural, calcada tão-somente no lucro, excluindo o verdadeiro valor da arte, conferia a desvalorização da música popular e erudita porque impedia de o público participar ativamente do meio musical, sendo vistos como meros consumidores. O futuro, no entanto trouxe uma agradável surpresa: a junção lírica da música erudita e da música popular através do rock progressivo. Os álbuns conceituais são dicotômicos no sentido de trazer certa erudição nas canções e, ao mesmo tempo, um evidente populismo, convidando o leitor a abrir discussões acerca dos temas contidos nos álbuns conceituais.

A música popular, de fácil digestão, também era característica dos álbuns conceituais: com dois acordes — lá menor e lá maior, caracterizando uma agradável sonoridade derivada da escala dórica — tocados por quase um minuto e meio, o Pink Floyd introduziu uma viagem simples, mas feérica na canção Breathe — “respire, respire o ar, não tenha medo de se preocupar” —, do álbum conceitual mais importante e festejado do prog: The Dark Side of the Moon. O que se segue nos minutos restantes é uma maravilhosa sequência de seis acordes que quebram as regras do tom original — mi menor dórico — mas que são fáceis de serem executadas pelos iniciantes do estudo da guitarra. Se Theodor Adorno não morresse antes dos anos 70, ao ouvir os álbuns conceituais da época, talvez diria: “cara, ainda bem que esses discos conceituais me contradizem. É a indústria cultural ao avesso. Que maravilha!” Talvez o filósofo ficaria ainda mais maravilhado se estivesse vivo em 1972, ano em que a banda italiana Banco Del Mutuo Soccorso lançou um álbum conceitual que, para muitos fãs progressistas, é considerado um dos dez melhores discos do rock progressivo.

O álbum Darwin, em sete canções, perpassa desde o surgimento dos seres vivos até o ponto em que insurge a Revolução Industrial, a substituição dos homens pelas máquinas. O álbum não aponta, determinantemente para o evolucionismo ou para o criacionismo. Assim, não se perde com relação à possibilidade de se proporcionar ao ouvinte uma autocrítica. Um fator interessante é que o álbum não se prende somente a questão das origens, mas vai além, abordando a evolução do homem social e tecnológico, o que pode ser observada na faixa sete ao se discutir a revolução industrial. O disco Darwin é uma sintonia perfeita entre o erudito e o popularismo — a erudição das ideias de Darwin popularizadas em forma de poesia nas letras de canções que propunham um tema um tanto complexo ser debatido de forma agradável através da música.

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Sobre Flávio Siqueira

Nascido e criado em Brasília, aos 14 anos pegou emprestado um "The Best of" do Pink Floyd. O choque foi tão grande que resolveu aprender guitarra somente para executar o solo de "Time". De lá pra cá vem estudando guitarra e apreciando bandas de stoner, grunge e rock progressivo, além de muito blues e algumas coisas de jazz e música erudita. Atualmente toca guitarra numa banda que mescla influências de stoner, grunge e uma pitada de rock psicodélico.

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