Greenday Eco Festival: como foi o evento em Fortaleza

Resenha - Greenday Eco Festival (Praça Verde do Dragão do Mar, Fortaleza, 18/05/2013)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Alguns dias depois de perder o fôlego com a presença de Sir James PAUL MCCARTNEY, Fortaleza reservou o dia 18 de maio para aprender como respirar melhor. Foi a segunda edição do Greenday Eco Festival, um evento dedicado a disseminação do pensamento ecológico, sustentabilidade, agroecologia, consumo responsável e boa música, que aconteceu na Praça Verde do Centro Cultural Dragão do Mar. Além das atrações principais, mais de trezentas bandas se inscreveram para tocar no festival, tendo conseguido o espaço bandas que foram consideradas pela curadoria aquelas que apareciam como novidade no cenário alternativo e tinham melhor ligação com a proposta do festival: mudar, reciclar, celebrar e viver (palavras do subtema do evento: Mude, Recicle, Celebre, Viva).

Gigwise: as capas mais polêmicas dos anos 2000Slayer: "Raining Blood" é brutal, mesmo com a bateria da Barbie

Imagem

Além das atrações musicais, o evento contou com a presença da Companhia de Teatro Plural, que a cada troca de banda, fazia números (alguns impagáveis e altamente recomendáveis) que misturavam circo e teatro à sétima arte, com a utilização de fragmentos de conhecidas trilhas sonoras de grandes filmes para ajudar a contar suas estórias. Durante uma coisa e outra, o apresentador Dan Viana, conhecido pelo seu trabalho em algumas redes de TV locais, batia um papo com a galera, enfatizando o tema do festival.

Outra resolução do evento foi promover a reciclagem de cerca de 200 quilos de plástico, arrecadar quase dez mil quilos de alimentos (que seriam doados as entidades filantrópicas Fundação Espírita Maria de Nazaré , Grupo Sol, Lar Francisco de Assis, Grupo Espírita Mei Mei, Associação Comunitária Padre Eloi e Estação da Luz) e, após o evento, neutralizar o seu impacto ambiental com o plantio de 200 árvores (neutralizando cerca de sessenta toneladas de gás carbônico).

Imagem

O evento, que é uma iniciativa do Ministério da Cultura, com o apoio de diversos outros órgãos governamentais ligados à cultura e empresas patrocinadoras, entre elas a que empresta seu nome ao festival, teve seus cinco mil ingressos disponíveis, o equivalente à capacidade da Praça Verde, foram completamente trocados até a véspera do evento. O custo para cada participante foi de apenas dois quilos de alimento ou uma lata de leite em pó, que foram doados para as instituições citadas, além da cuca aberta para receber as informações passadas durante o evento e se engajar na luta por um planeta mais sustentável. Cabe aqui o agradecimento à produção por ter realizado o nosso credenciamento tardiamente, no próprio dia do festival.

Abrindo o festival, tivemos o Maracatu Povos do Mar (o próprio também uma entidade filantrópica), com a participação de muitas crianças

Foto: Sílvia Amora

Outro destaque do festival vai para a feirinha, com muitos itens de artesanato e culinária vegana, uma oportunidade para experimentar uma nova filosofia ou simplesmente provar algo diferente.

Foto: Tarcísio Feijó

Mas, vamos falar agora do que mais nos interessa por aqui, ou seja, música. A parte musical, propriamente dita, foi aberta para um publico ainda muito pequeno, por MIGUEL CORDEIRO, com um folk rock sofisticado, com o luxuoso acompanhamento do excelente violonista RODRIGO CARDOZO, conhecido violinista da cidade com alguns trabalhos solos já lançados. No repertório, faixas de “Que Seja”, primeiro disco oficial de CORDEIRO, a ser lançado ainda neste primeiro semestre de 2013.

Miguel Cordeiro. Foto: Tarcísio Feijó

Rodrigo Cardoso e Miguel Cordeiro. Foto: Tarcísio Feijó

Em seguida, após mais uma apresentação do Teatro Plural, subiu ao palco o cantor Daniel Groove, com sua banda O SONSO, fazendo uma mistura de rock, reggae e... brega. Por incrível que pareça, o primeiro ponto alto do show foi "Voce Vai Se Arrepender" do artista brega BARTO GALENO, numa versao roqueira, que contou com a presença de Vitor Colares (FOSSIL). Destaque também para o próprio guitarrista da banda de Daniel. Tanto nessa quanto na próxima, “Sei Lá”, o primeiro single de seu proximo disco, Daniel e banda mostraram que são capazes de transformar um brega de bar de copo sujo em uma “porrada nas orea”, um rockasso pesadissímo. E o maior exemplo desta afirmação foi a ótima versão para "Abraçando Voce", também um ícone brega das antigas, também transformada em rockão de levantar a crescente quantidade de presentes.

Daniel Groove e O SONSO. Foto: Tarcísio Feijó

PLASTIQUE NOIR

A próxima banda no palco trouxe um som inspiradissímo em bandas como THE CURE e JOY DIVISION, mas com alma própria na voz grave do vocalista Airton S, também responsável pelas programações (a banda não tem ninguém nas baquetas). A banda é complementada por Danyel fritando a guitarra com perfeição e Deyvison num baixo muito bem executado. Já registrei aqui em textos anteriores que sou bem reticente quanto à inclusão de sons pré-gravados em apresentações ao vivo (como, por exemplo, trechos de teclado gravados e usados durante apresentações de power-trios). No caso do PLASTIQUE NOIR, esta formação (vocal+programações, guitarra, baixo) tem funcionado e não deixa nada a desejar, embora tenha tido trocas de integrantes ao longo do tempo. No entanto, no palco, um baterista (mesmo que fosse um músico convidado) talvez pudesse dar um pouco mais de energia (não que isso falte) ao som da banda, deixando-o ainda mais vivo e dançante.

Com o terceiro disco no forno, A PLASTIQUE NOIR apresentou músicas do segundo álbum “Affects” e do debut, o excelente “Dead Pop”. Apesar do formato enxuto, a banda faz com muita competência o seu pós-punk gótico e é uma das melhores do estilo no Brasil, tendo recebido criticas muito positivas nacional e internacionalmente. Alias, aqui cabe uma outra nota. A banda chegou a iniciar uma campanha nas redes sociais para abrir o recente show do THE CURE, mas isso não chegou a acontecer. Teriam agradado bastante, como agradaram na abertura de outros artistas internacionais do gênero como FROZZEN AUTUMN e em festivais no Brasil e no exterior.

Dê um play no vídeo abaixo e curta o som da PLASTIQUE NOIR enquanto lê o resto da matéria.

Inscreva-se no nosso canalWhiplash.Net no YouTube

CHIPANZÉS DE GAVETA

A próxima banda a subir ao palco foi uma grata surpresa. Vindos de Goiânia e até aquele momento ainda desconhecidos pela maioria do publico, os CHIPANZÉS DE GAVETA trouxeram um som cheio de groove e feeling, definido em suas próprias palavras como “música para dançar e letra para pensar”. No repertório, entre outras, Lucas Ribeiro (bateria), Gustavo Barros (percussão), Erik Magalhães (baixo), André Hiromi (guitarra), Adriano Zago (teclado) e Michel Edere (vocal), executaram, entre outras, músicas de seu mais recente EP “Produto Interno Groove”. Aconselho a quem gosta de novidade e não conhecia a banda, como este redator, a procurá-los nas redes sociais e conhecer o seu som.

Foto: Tarcísio Feijó

ROCCA VEGAS

A última atração antes das headliners foi a banda cearense ROCCA VEGAS, com seu rock dançante, frenético, com pitadas de música eletrônica. No comando da banda está um dos hostess do festival, Maurílio Fernandes, bastante conhecido na cena musical cearense por ter sido o vocalista da extinta SWITCH STANCE (uma das bandas de rock que mais atingiu o sucesso no estado) e dono do selo Empire Records. Maurílio vem acompanhado por Deo Menezes, no baixo, Bruno Souza e Igor Dantas, nas guitarras e Igor Dantas na bateria, com a participação de Loretta Loli como DJ. A ROCCA VEGAS abriu o show com a explosiva “O Grito”, seguida de “Acenda A Luz”. No entanto, o show da banda seria prejudicado um pouco mais tarde pela forte chuva que caia sobre a cidade naquele momento, fazendo que boa parte do público procurasse algum abrigo, enquanto outros agitavam, mesmo embaixo de chuva, durante “Navegar”. Era a força da natureza se fazendo presente naquele festival ecológico.

Foto: Rocca Vegas & Loretta Loli

Maurílio, passou por um momento delicado em sua vida pessoal há cinco meses, quando quase perdeu a vida em um assalto, tendo sido, inclusive, alvejado, e fez questão de, antes de “Sinal de Alerta”, falar sobre sua experiência e declarou que estar de volta ao trabalho aos palcos, diante de tanta gente, era uma celebração e que estava muito grato por isso.

Foto: Tarcísio Feijó

Foto: Sílvia Amora

Durante “O Espelho”, no entanto, a chuva ficou mais intensa e a banda, para garantir a segurança de todos os envolvidos e dos equipamentos, optou por antecipar o final de seu show.

Foto: Tarcísio Feijó

Inscreva-se no nosso canalWhiplash.Net no YouTube

Vídeo: Sávio Martins

CIDADÃO INSTIGADO

No meio tempo que se seguiu, não tinha como haver mais uma intervenção do teatro plural. Só restava aguardar que as forças da natureza se acalmassem, enquanto o palco era preparado para o show de Fernando Catatau (guitarra e vocal), Regis Damasceno (guitarra), Clayton Martin (bateria), Rian Batista (baixo) e Dustan Gallas (teclado), o CIDADÃO INSTIGADO, banda formada em São Paulo, mas com alma, corpo e atitude cearense (como dito pelo próprio Catatau a certa altura do show). Traduzindo, o som da banda tem muita criatividade, aliada à técnica, com letras que, a primeira vista podem parecer engraçadas, mas, que se revelam bebuns, viajandonas, trazendo as inquietações da alma de Fernando Catatau e sua trupe. O som da CIDADÃO INSTIGADO é uma mistura de rock progressivo com um toque regional, tristonho, brega da voz característica (horrorosa, mas isso é um elogio) de Fernando Catatau, trilhando os mesmos caminhos já abertos por RAUL SEIXAS. A guitarra tocada por ele é também um caso a parte, passando por toda a range dos grandes guitarristas (HENDRIX, SANTANA, YOUNG), podendo transitar de uma levada bem jovem guarda num momento bem jovem guarda, para, segundos depois, entrar em um solo “gilmouriano”.

Foto: Tarcísio Feijó

O show começou com “Lá Fora Tem”, do álbum que mostrou o CIDADÃO INSTIGADO ao mundo, “O Ciclo da Decadência”, seguida pela cabeçuda “O Cabeção”, de “Uhuuu!”, o disco mais recente.

Foto: Tarcísio Feijó

A guitarra de Catatau fala, geme, se lamenta, filosofa, murmura imprecações, dialoga com os teclados metade AOR, metade synthpop e mais uma metade brega de Gallas, como duas velhas fofoqueiras de janela que, arrependidas da vida que não viveram, invejosamente falam da vida alheia, ou fazem como a dupla de palhaços, que fazem rir enquanto escondem na maquiagem o caminho de suas lágrimas.

Na “Younguiana” “Homem Velho”, homenagem a Neil Young, referência inegável de CATATAU, o que seria mais improvável que um convite ao menino homem velho para dançar reggae em uma barraca em Canoa Quebrada, de braços dados com uma nativa. E outra improbabilidade, “O Nada”, com versos como “Abram As Portas Das Suas Casas, deixem os ladrões entrarem, eles vão levar tudo o que puderem. E você vai ficar cansado e também muito triste e vai caminhar por aí pensando em seus próprios passos flutuantes, com aquela vontade de sumir progressivamente”, se transforma em bastante provável nas mãos do CIDADÃO INSTIGADO.

Foto: Tarcísio Feijó

“Estou morrendo. É tarde demais”. A música “Te Encontrar Logo” é uma boa definição de tristeza. Junte o já citado THE CURE (especialmente da época do sublime “Desintegration”), o ROBERTO CARLOS dos anos 70 e toda a dor de corno que os sertanejos tentam mas não conseguem expressar e você ainda não conseguirá algo tão irremediavelmente triste. Se Eleanor Rigby ou o Padre McKenzie tivessem escrito alguma música, talvez tivessem chegado a algo parecido.

Foto: Tarcísio Feijó

As improbabilidades líricas continuam com versos como “Veias que me levam aos meus braços instigados”, trecho de “Deus É Uma Viagem”, momento magistral e momento ô ô ô ô da banda.

E, ainda sob a ameaça da chuva, a música do CIDADÃO INSTIGADO declara que “escolher entre chuva e sol é como sofrer de hérnia”. Eu penso: “Esse fidumaégua não escutava PINK FLOYD, tomava com café”.

Foto: Tarcísio Feijó

Sem direito a calma, sem direito a água com açúcar nem pros membros da banda nem pro público molhado lá embaixo, a pesadona “A Radiação” saudava a resistência roqueira do Ceará, nas palavras do próprio Catatau. Para esse show memorável ser melhor, só faltou a inclusão da melancolíssissima (adicione aqui mais alguns -ssi) e bela “O Tempo” e a pirada “Os Urubus Só Pensam Em Te Comer”.

Foto: Tarcísio Feijó

Catatau, que faz parte da banda de OTTO, voltaria ao palco alguns minutos mais tarde, mas, extasiados com o espetáculo que tínhamos acabado de presenciar e completamente encharcados pelo temporal, eu e minha esposa acabamos saindo mais cedo do festival, deixando para conferir o OTTO e seu novo álbum “The Moon 1111” numa outra ocasião, mais enxuta. Os relatos de quem ficou é que foi outro show de arrasar.

Foto: Tarcísio Feijó

SetList CIDADÃO INSTIGADO

1.Lá Fora Tem...
2.O Cabeção
3.Como As Luzes
4.Pinto de Peitos
5.Homem Velho
6.Contando Estrelas
7.O Nada
8.Te Encontrar Logo
9.Deus É Uma Viagem
10.Escolher Pra Quê?
11.A Radiação da Terra

Quer ficar atualizado? Siga no Facebook, Twitter, G+, Newsletter, etc

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Todas as matérias da seção Resenhas de ShowsTodas as matérias sobre "Cidadão Instigado"Todas as matérias sobre "Rocca Vegas"Todas as matérias sobre "Plastique Noir"

Capas polêmicas
Slayer, Megadeth, Dream Theater, Carcass...

Slayer
"Raining Blood" é brutal, mesmo com a bateria da Barbie

Slipknot
Joey Jordison revela o verdadeiro motivo de sua saída

Vuvuzela Hero: muito mais fácil de jogar que Guitar HeroAvenged Sevenfold: cheirando cocaína com The Rev após a rehabDio: "quero mais que Vivian Campbell morra"Michael Francis: O guarda-costas de Elvis Presley, Bon Jovi e outrosPostura: 12 coisas que você nunca deve dizer a um músicoMegadeth: 160 músicas tocadas em ordem cronológica

Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

Mais matérias de Leonardo Daniel Tavares da Silva no Whiplash.Net.

Link que não funciona para email (ignore)

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online