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Ira! - Para entender os mods

Por Danton Boattini Jr | Em 07/06/07
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Quem assistiu as últimas apresentações do Ira! (plugado, após a turnê do Acústivo MTV) sacou que a banda voltou definitivamente para o formato vocal + guitarra + baixo + bateria que a consagrou na metade da década de 1980. Ou seja, sepultam-se – pelo menos por ora – as esquisitices eletrônicas (graças a Deus) e o banquinho e o violão do álbum acústico, de 2004. Esse é o tom de Invisível DJ, lançado pelos paulistas seis anos após o último álbum de inéditas. O resultado é uma porrada sonora: só não funciona para quem conheceu a banda através de Teorema.

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Nasi (vocal) completou 45 primaveras em 2007, mesma idade de Edgard Scandurra (guitarra). André Jung (bateria) tem 46 anos e Gaspa (baixo) chegará aos 50 no ano que vem. Como Romário (41), os quarentões do mod continuam dando conta do recado – e não é por incompetência dos adversários, ao contrário do futebol. Momento propício, portanto, para analisar uma das discografias mais consistentes do rock nacional.

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Mudança de comportamento, 1985

À sua maneira, o Brasil começava a trilhar o seu caminho mod. Quem acha cool os músicos do Cachorro Grande pulando no palco e trajando terninhos vai descobrir que o buraco é mais embaixo. Na capa do primeiro LP, as intenções já estão bem claras. Jung veste uma roupinha de marinheiro e Scandurra aparece dando um pulo a la Pete Towshend, o que está longe de ser mera coincidência com o líder do The Who. Núcleo Base, Tolices e a faixa-título ainda são entoadas de cabo a rabo nos shows, mas o filé está mesmo no “lado B”. Ninguém Entende um Mod, o hino dessa “geração”, e Como os Ponteiros de um Relógio mostram que o Ira! não era mais uma daquelas detestáveis bandas de new wave que infestaram os anos 80.

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Vivendo e não aprendendo, 1986

Chega o segundo disco e começa aquele papo de maturidade. Nasi, Scandurra, Gaspa e Jung tiraram isso de letra e fizeram um discaço. Muito além do sucesso de Envelheço na Cidade, Dias de Luta e Flores em Você (tema de novela global), a obra contém a letra mais bonita escrita pelo Ira! (Quinze Anos). A clássica Vitrine Viva evoca o melhor do The Jam, uma das bandas preferidas do quarteto, e a dobradinha Gritos na Multidão e Pobre Paulista, gravadas ao vivo e já conhecidas do público, exacerba a revolta juvenil daqueles que foram chamados de menudos pelos punks.

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Psicoacústica, 1988

O ápice criativo da banda, uma espécie de Pet Sounds tupiniquim. Todo grande nome da música possui no currículo uma obra incompreendida (até Ronnie Von!), geralmente uma obra-prima. No caso de Ira!, o cineasta Rogério Sganzerla faz as vezes de O Mágico de Oz e o disco contém inserções do filme O Bandido da Luz Vermelha. Rubro Zorro, inspirada na história do lendário João Acácio, é até hoje uma das preferidas dos fãs. Como se não bastasse, com Advogado do Diabo, um rap de roda, o Ira! influenciou ninguém menos que Chico Science, mentor do mangue beat pernambucano.

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Clandestino, 1989

Entre a confusão rítmica de Melissa e a suavidade de Tarde Vazia (“a” balada do Ira!), temos mais um disco pouco (e mal) ouvido. Boneca de Cera, presente no Acústico, é um dos destaques.

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Meninos da Rua Paulo, 1991

Começa com o riff rápido da excelente Rua Paulo, uma celebração ao livro que dá nome ao álbum. O experimentalismo abre caminho na bela A Etiópia e Meus Problemas e nas não tão inspiradas Imagens de Você e Amor Impossível. Há uma versão de Você Ainda Pode Sonhar (Raulzito e os Panteras) e duas músicas que estão entre as melhores de toda a carreira: Um Dia Como Hoje e Prisão Nas Ruas. Foi relançado em CD na versão 2 em 1, junto com o clássico Psicoacústica.

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Música Calma Para Pessoas Nervosas, 1993

Álbum pouco ouvido e ignorado. Lançado por questões contratuais.

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7, 1996

Entre regravações desnecessárias do Animals (The House of Rising Sun) e de si próprio (Nasci em 62, ao vivo), estão as versões originais de duas pérolas, Girassol e Longe de Mim. Com o sétimo álbum da carreira o Ira! mandava um recado bem claro: seguia vivo, mesmo no ostracismo.

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Você Não Sabe Quem Eu Sou, 1998

O título é adequado, pois o oitavo álbum soa como um ET na discografia do Ira!. O sucesso não voltou, então o caminho foi a experimentação. Fascinados pela música eletrônica (em especial o “DJ” Scandurra), os músicos assumiram de vez o flerte que havia começado em 1991. Miss Lexotan, cover do gaúcho Júpiter Maçã, alcança sucesso relativo.

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Isso É Amor, 1999

Um mal necessário, pois graças a este disco o grupo “renasceu” e voltou a ser a banda mais rock and roll do Brasil. Seguindo a onda de álbuns cover que tomava conta do inspiradíssimo rock nacional (Barão Vermelho e Titãs haviam feito o mesmo), o Ira! escolheu um repertório meia-boca e voltou às FMs com Teorema (Legião Urbana). Destaque para a versão de Bebendo Vinho, de Wander Wildner (comprovando a sintonia com o rock gaúcho).

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MTV ao Vivo, 2000

Uma grande apresentação ao vivo. Todos os clássicos estão aqui, provando que com um repertório destes ninguém precisa fazer cover pra ganhar a vida.

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Entre Seus Rins, 2001

Desde Psicoacústica, o Ira! não soava tão autêntico e criativo em estúdio. Inspirados com a volta ao mainstream, a banda “chupou” Serge Gainsbourg e se saiu com a anatômica faixa-título (“me deu o dedo, eu quis o braço e muito mais, agora estou a fim de ficar entre seus rins”). Outra pérola é a “onanista” Um Homem Só. O gaúcho regravado dessa vez é Frank Jorge, com a reflexiva Homem de Neanderthal.

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Acústico MTV, 2004 (CD e DVD)

O ponto alto da banda. Só mesmo o Ira! para transformar um formato já saturado (o tal Acústico MTV) em uma ebulição fantástica que mescla os hits do passado com inéditas do quilate de Flerte Fatal, Poço de Sensibilidade e Por Amor. Imperdível!

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Invisível DJ, 2007

Eles já andaram mais inspirados, mas ainda assim fizeram um grande disco. Abre com a faixa-título, um rockão básico, coisa que o Ira! sabe bem como fazer. O clima segue em Sem Saber Pra Onde Ir, que bem poderia ser o novo hit deles. Eu Vou Tentar, a melhor letra, é uma balada de piano e violão com bom gosto. Na segunda audição, você já estará cantando junto o belo e fácil refrão. Acrescidas de Não Basta o Perdão, as faixas citadas remetem aos melhores momentos da banda. Enfim, é o velho e bom Ira!.

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Sobre Danton Boattini Jr

Jornalista, 22 anos, nascido em Porto Alegre. Formado em Jornalismo, atua na cobertura política em um jornal diário de Erechim (RS). Tem um gosto musical eclético, que vai desde o rock inglês dos anos 1960 até as bandas alternativas e psicodélicas atuais, passando pelo hard do Thin Lizzy e o heavy do Metallica das primeiras formações. Também curte MPB e é fã de Chico Buarque, Caetano e Tom Zé. É gremista!

Visite o site do autor: http://leituramusical.zip.net.

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