Haken: apresentação técnica e precisa em Toronto
Resenha - Haken (Lee's Palace, Toronto, 24/08/2017)
Por Rodrigo Altaf
Postado em 26 de agosto de 2017
Apesar da impressão de ser uma banda relativamente nova na cena prog, os britânicos do Haken já têm dez anos de estrada, e estão em turnê pra comemorar essa data. Fui conferir a apresentação deles em Toronto nessa quinta-feira, dia 24 de Agosto.
Pra quem não conhece, o Haken costuma ser definido como "Dream Theater com o Jon Anderson do Yes nos vocais". Eu diria que é uma definição até certo ponto justa, mas após quatro discos e um EP lançados, um tanto simplista, já que eles adquiriram a própria personalidade. Todos os álbuns têm conceitos ambiciosos, e uma atmosfera própria que envolve o ouvinte do início ao fim. Não chegam a ser conceituais, mas cada disco carrega uma ideia central que permeia todas as faixas.
Aliás, a associação da banda com o Dream Theater não é por acaso: alguns integrantes juntaram-se a Mike Portnoy em sua Shattered Fortress Tour (os guitarristas Richard Henshall e Charlie Griffiths o baixista Connor Green e o tecladista Diego Tejeida). Além disso, Portnoy e Jordan Rudess já subiram ao palco com a banda em 2015 (confira abaixo a reportagem).
Cheguei ao local e fui checar o stand de merchandise, que pra minha surpresa vendia, entre camisas, álbuns e tourbooks, o café da marca Haken. O que as bandas não fazem nos dias atuais pra garantir um trocado a mais, não? Acabei não comprando nada dessa vez, embora tenha achado algumas camisas que valessem ser compradas.
A abertura dos shows dessa tour tem sido do guitarrista Sithu Aye, cuja banda investe em um prog metal instrumental com toques de jazz. Assisti ao show com boa vontade, mas honestamente, nenhuma música me chamou muito a atenção. Não que seja mal tocado, mas parece faltar punch a esse estilo, e a tímida comunicação com o público não ajudou. Mas alguns dos presentes curtiram bastante.
O Haken entra no apertado palco executando o tema instrumental "Premonition", do álbum Visions. O carismático vocalista Ross Jennings entra apenas na segunda música "In Memoriam", do aclamado álbum Mountain, saudando a galera. Em seguida, emendam com "Nocturnal Conspiracy". A voz de Ross é pequena, e a opção de cantar em falsete por vezes o prejudica, já que é bem difícil conseguir um sustain decente usando essa técnica. Como resultado, Ross soa desafinado em algumas músicas. Mas sua presença de palco é bastante energética, e compensa as deficiências técnicas eventuais.
O show prossegue com a faixa "Insomnia", e com um longo e incrível medley de músicas do álbum de estreia, Aquarius. O carisma de Ross e a destreza do instrumental conquistam o público bastante jovem, que parece hipnotizado pela presença da banda. Nesse medley, Ross mostrou sua versatilidade, por vezes investindo em vocais guturais. O baixista Conner Green se espremia nas laterais do palco e suava pra acompanhar ritmos tão quebrados.
A seguir vieram dois temas do álbum mais recente, Affinity: "Red Giant" e "1985". As duas lembram propositalmente o direcionamento que várias bandas prog tomaram nos anos 80, com toques de Yes da fase 90125 e Rush da fase Power Windows. Bateria eletrônica com ritmos bastante quebrados, e teclados como elemento marcante das composições, mas concluindo com uníssonos de guitarras e teclado. Ross entra em cena com uma gravata fina e óculos verdes que brilham no escuro, jogando vários outros óculos pra galera.
A próxima música, Cockroach King, inicia com um riff matador, e parte para um ritmo quase dançante, lembrando uma trilha sonora de desenho animado, quase um King Crimson vers. O falsete de Ross aqui é um pouco irritante, mas as harmonias dos vocais ao final soam muito bem, com a participação do tecladista Diego Tejeida. Aliás, chamou a atenção que Ross também assume os teclados quando Diego pega seu teclado portátil estilo "Polegar" e vai à frente do palco.
A evolução da banda fica evidente quanto são tocados mais dois temas de Affinity: The Endless Knot e The Architect. Esta última começa com uma mistura de climas: alterna teclados que lembram uma trilha sonora de filmes do David Cronemberg (fechando os olhos, dá pra se sentir dentro de "Scanners, Sua Mente Pode Destruir") com riffs poderosos de guitarra, lembrando um pouco Octavarium, do Dream Theater. É incrível notar como os seis músicos estão sincronizados e sintonizados no palco.
Um trilhão de notas depois, o final apoteótico veio com a execução da faixa título do álbum Visions, de mais de vinte minutos, cuja última frase, "I know I'll come back for more", soou como uma promessa da banda para os fãs. A apresentação de cada membro da banda arrancou aplausos, culminando com Ross dizendo "together, we are Haken". Acabei encontrando Ross e Richard na saída do show, quando já caminhavam para o tour bus.
Ainda é cedo para dizer se esses britânicos vão causar na jovem e devotada plateia o impacto que um dia causaram Yes, Rush, Genesis e Dream Theater, mas é uma banda cujos próximos passos merecem ser acompanhados com carinho.
Setlist:
• Premonition
• In Memoriam
• Nocturnal Conspiracy
• Insomnia
• Aquarius Medley
• Red Giant
• 1985
• Cockroach King
• The Endless Knot
• The Architect
• Visions
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