Metallica: tiozinhos se tornaram adolescentes novamente

Resenha - Metallica (Estádio do Morumbi, São Paulo, 30/01/2010)

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Por Thiago El Cid Cardim
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O ótimo André Forastieri, um dos jornalistas brasileiros que mais admiro (e indico) na área cultural brasileira, escreveu dia destes em seu blog um post listando 32 razões pelas quais ele acha o Metalica uma banda “chata” (link no final deste texto). Posso não concordar com 99% do que ele escreveu – mas é inegável que, além de ser um mestre da ironia e do sarcasmo, Forastieri sabe criar polêmica, dando aquelas boas cutucadas para levantar a poeira no marasmo internético. E preciso dizer ainda que uma das coisas que Forastieri disse naquele texto faz todo o sentido: o Metallica é uma banda que fala com o “moleque espinhudo, inseguro e rancoroso que existe dentro de todos nós”.

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Na primeira apresentação do quarteto em São Paulo, como parte da turnê do disco “Death Magnetic”, eles fizeram milhares de tiozinhos de trinta, quarenta e até cinqüenta anos se tornarem adolescentes novamente, relembrando as camisetas velhas e os cabelos compridos de outrora, sempre ao lado daquele grupo de amigos fiel e com uma cerveja na mão. Foi um espetáculo de ferocidade e fúria, um exorcismo metálico público, uma catarse de pura gritaria e bate-cabeça que teve como ápice a música-título de “Master of Puppets”, o disco mais importante da discografia do grupo e um dos pilares fundamentais do heavy metal. No estádio do Morumbi, uma banda que passou por muitos anos tumultuados e turbulentos lavou a alma diante de mais de 60 mil brasileiros – recompensados pela ausência de 11 anos com um show inesquecível.

A noite de céu limpo e sem qualquer sinal daquela chuva que anda castigando quase diariamente a capital paulista começou pontualmente às 20h, com a abertura dos brasileiros do Sepultura. Repetindo a dobradinha de 1999, quando o Metallica passou pelo nosso país pela última vez, agora Andreas Kisser e cia. não puderam reclamar do volume do som, bastante adequado à porrada sonora que se seguiria. Ok, o setlist do Sepultura não foi exatamente uma novidade para os paulistanos que andaram conferindo as passagens dos quatro músicos pelos palcos da cidade – como no caso do Maquinaria Festival, por exemplo. Uma mistura de canções do disco “A-Lex” (Moloko Mesto, Filthy Rot, We’ve Lost You) com clássicos como “Refuse/Resist”, “Dead Embryonic Cells”, “Troops of Doom”, “Territory” e “Arise”.

Todavia, e me perdoem aqueles que já leram isso por aqui alguma vez, repito: vê-los ao vivo é uma senhora experiência. As viúvas dos Cavalera podem se morder de raiva, mas estamos falando de uma formação bastante sólida e que fica muitíssimo à vontade no palco, sem dever nada a ninguém e disparando um poderoso (e pesado) bloco sonoro. O Sepultura estava tão em casa, levando tão na boa a pressão de abrir para o Metallica, que o fanático são-paulino Andreas provocou os torcedores de outros times ao chamar o Morumbi de casa do “maior time do mundo”, enquanto Derrick Green arriscou e brincou de bossa nova ao evocar “Aquarela do Brasil” antes de “Inner Self”, para surpresa dos bangers fanáticos. Para fechar a apresentação de 1 hora, nada melhor do que “Roots Bloody Roots”. Se você está de saco cheio da canção, que pode parecer meio óbvia e repetitiva, bastava ver o resultado: um público completamente entregue e incendiado, ovacionando os brasileiros com bastante entusiasmo. Trabalho muito bem executado.

Quando uma bela lua cheia surgiu por cima do estádio, por volta das 21h30, foi a vez do Metallica assumir seu papel – devidamente precedido pela instrumental “The Ecstasy of Gold”, composição de Ennio Morricone para o clássico western “O Bom, o Mau e o Feio”. A brasileirada alucinou assim que James, Kirk, Lars e Trujillo (este último, em sua estréia nos palcos tupiniquins) adentraram sem muitas firulas, lascando pancada com “Creeping Death” – e enfiando na seqüência “For Whom The Bell Tolls” e “The Four Horsemen”. Enquanto a platéia recuperava o fôlego, o vocalista aproveitou para estabelecer a primeira das muitas interações com os fãs, esbanjando simpatia para acabar de vez com aquele papo de que o Metallica não vai muito com a cara da América Latina. “Esta noite, estou sentindo a energia”, disse. Depois de um momento arrepiante, quando milhares de vozes cantaram “Fade to Black” junto com o frontman, que começa a música apenas com um violão acústico, ele voltou ao assunto: “Vocês conseguem sentir esta energia?”. Impossível não senti-la, James.

Por se tratar de uma turnê do disco “Death Magnetic”, que não é exatamente uma unanimidade entre os ouvintes do trabalho dos caras, era de se esperar que as faixas mais recentes não causassem assim tanta comoção. O bloco formado por “That Was Just Your Life”, “The End of the Line” e “The Day That Never Comes”, apresentado assim, na seqüência, foi o grande ponto baixo, quando o headbangin’ deu uma bela esfriada. Mas “Broken, Beat and Scarred” teve melhor repercussão, talvez até pela introdução emocionada de James, que abriu o coração: “Esta é uma música dedicada à família do Metallica no Brasil. Vocês, que ficaram ao nosso lado nos piores e também nos melhores momentos, como este”, disse. “O que não nos mata, nos torna mais forte”, completou, evocando o refrão da faixa, que claramente foi incorporado aos berros pelos brasileiros.

O Metallica ainda mostrou respeito à banda de abertura, dizendo que era uma honra estar ali e tocar novamente ao lado dos amigos do Sepultura. E para Derrick, Andreas, Paulo e Jean, eles dedicaram “Sad But True”. Sem necessidade de uma milionária produção de palco, eles reservaram a maior parte do fogaréu e dos fogos de artifícios para a introdução de “One”, outro momento dos mais pungentes da performance dos americanos. Enquanto cada palavra da letra era repetida com exatidão pelos fiéis brasileiros, as imagens do grupo no telão eram transmitidas em preto e branco, para dar uma atmosfera de filme de época. Com aquele contraste de luz e sombra, era possível ver nitidamente as marcas do rosto envelhecido de James, o que dava ainda mais força à história do soldado mutilado e preso em seu próprio corpo durante a Primeira Guerra Mundial.

O fogo continuou com a fúria de “Blackened”, escolha inesperada e muito bem-vinda – mas deu uma trégua assim que Kirk (e suas guitarras tematizadas com pôsteres de filmes de terror estrelados por Boris Karloff) começaram o show de sutileza que é o riff inicial de “Nothing Else Matters”. E assim que a câmera se focou nas mãos de James, mostrando a palheta com a arte de capa de “Death Magnetic”, os mais atentos entenderam a dica, já que a imagem tem sido constante ao longo desta turnê: era a hora de “Enter Sandman”, que encerrou a primeira parte do show em grande estilo. Os puristas podem achar que a música tocou demais nas rádios e na MTV, que foi uma das responsáveis pela “pasteurização” da sonoridade do Metallica. Bobagem. Ao ver a empolgação daquele Morumbi lotado, cantando junto a plenos pulmões, fica claro o porquê de “Enter Sandman” continuar no set das apresentações dos caras. Agradecimentos rápidos, vivas e urras, o Metallica sai de cena. Mas era por pouco tempo.

O bis, sempre obrigatório, não demorou. A grande curiosidade era saber qual seria a escolha da vez para o espaço reservado ao cover, uma releitura de uma banda clássica que teria influenciado o Metallica. Se em Porto Alegre eles tocaram sua ótima versão para “Die Die My Darling”, dos Misfits, os paulistanos não puderam reclamar de ouvir a igualmente empolgante e energética “Stone Cold Crazy”, rendição que já é clássica para um hit do Queen. A adrenalina continuou em alta quando, sem qualquer anúncio prévio, veio uma versão em alta velocidade para “Motorbreath”. Pescoços doendo, pernas em frangalhos, os fãs queriam mais uma. Aquela música que James sabia muito bem qual era. O vocalista, evidente, não ia perder a chance de provocar seu público. “Vocês querem esta música?”. Sim. “Aquela que tem apenas três palavras simples?”. Sim. “Pois então que se acendam as luzes. Porque vocês passaram a noite toda olhando para nós. Agora somos nós que queremos ver vocês”, completou. E eis que vem “Seek and Destroy”, resultando em uma sucessão de pulos que fez o estádio tremer. Não à toa, Kirk rapidamente sacou seu smartphone para registrar o momento.

Ao fim do show, os quatro cavaleiros do apocalipse passaram um tempão agradecendo, indo de um lado ao outro do palco fazendo sinais para todos os lados, jogando dezenas de baquetas e palhetas para os sortudos da linha de frente. Enquanto James cobria a bateria de Lars com bandeiras do Brasil jogadas pelos fãs, levando a galera ao êxtase ufanista máximo, típico de shows internacionais, cada um dos músicos foi ao microfone agradecer, dizendo aquele macarrônico “obrigado” em português. E justamente do baterista Lars Ulrich, considerado bastante anti-social, é que veio o que todos os presentes queriam de fato ouvir: “Podem ter certeza de que o Metallica vai demorar muito menos do que 11 anos para voltar ao Brasil”. Bingo.

Pois é, Forastieri. Naquele sábado, saímos todos meio moleques daquele Morumbi. Mais do que “espinhudos, inseguros e rancorosos”, estávamos todos cansados, suados, quase roucos e surdos. E muito felizes.

Line-up:
James Hatfield – Vocal/Guitarra-base
Kirk Hammett – Guitarra-solo
Robert Trujillo – Baixo
Lars Ulrich – Bateria

Setlist:
CREEPING DEATH
FOR WHOM THE BELL TOLLS
THE FOUR HORSEMEN
HARVESTER OF SORROW
FADE TO BLACK
THAT WAS JUST YOUR LIFE
THE END OF THE LINE
THE DAY THAT NEVER COMES
SAD BUT TRUE
BROKEN, BEAT AND SCARRED
ONE
MASTER OF PUPPETS
BLACKENED
NOTHING ELSE MATTERS
ENTER SANDMAN

Bis:
STONE COLD CRAZY (Queen cover)
MOTORBREATH
SEEK AND DESTROY

32 razões pelas quais André Forastieri acha o Metallica uma banda “chata”

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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