Encontra aí a sua turma: quando o folk chegou

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Por Rodrigo Contrera
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Lembro-me de ouvir Bob Dylan muito antes de ter uma leve impressão de ser ainda gente. E de não entender nada. Lembro-me também de ter impressões sobre sujeitos usando papagaios para pegar dinheiro dos transeuntes. E lembro-me de que uma vez concorri - e ganhei - um concurso de arte, no Chile.

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Comento a esse respeito porque a pegada folk para mim tem muito a ver com tudo isso. Com memórias, e com um jeito mais leve de encarar os dias, assim como com violões tocados bem melhor do que o normal. Por sua vez, o folk para mim também tem a ver com simplicidade, e com um jeito meio descompromissado ou mesmo descrente de ver a vida.

O folk nesse sentido para mim reacende memórias que vão até o Chile, quando ouvíamos alguns trovadores tocando violão. Também tem a ver com a ideia de ser um sujeito tocando violão, apenas, e de não precisarmos de uma banda para passarmos mensagem. Por sua vez, tem a ver com um jeito de tocar que não se aproxima da pobreza do rock posterior.

Quando ouvi Dylan pela primeira vez, eu não tinha qualquer informação a seu respeito. Só vim saber mais muito depois, e por meio de livros. As músicas e as letras dele eu sempre achei muito bonitas, mas também complexas demais. Ou até certo ponto pretensiosas. Notem que ele ganhou o Nobel, e não deve ser por outro motivo. O sujeito é seleto.

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Creio que a primeira vez que eu senti o folk foi, porém, com o Leonard Cohen. Cohen era um sujeito mais citadino, percebam. Por sua vez, seu universo é também mais soturno. E mais restrito a relacionamentos e a uma forma contida de ver a vida. Não tem nada a ver com a vida no campo. Ou em meio a trovadores perdidos no meio do sertão (ou do deserto, nos Estados Unidos). Não tem a ver com Guthrie, ou mesmo com as pretensões universalizantes de um Thoreau.

Porque o folk parece ser um movimento que busca as origens. O que há de mais profundo em nós mesmos. Aquela verdade que procuramos em nós, e que a sociedade parece nos fazer esquecer, ou nos confundir. De certa forma, o folk parece ser contrário à indústria cultural, à vida em cidade, ao consumo de supérfluos, a considerar certas coisas mais importantes do que nós mesmos.

Ocorre que eu sempre fui um sujeito de cidade. E que não por destoar da forma costumeira de ver o mundo - consumindo bobagens, por exemplo - necessariamente desgosto do que vejo. Por outro lado, não vejo nada de ruim na sujeira de São Paulo. No jeito destartalado (palavra em espanhol) dos bares. Ou na população que acorda em meio a um centro sujo de São Paulo, sem ter para onde ir.

Por sua vez, o folk não se comunica diretamente com influências citadinas como Bukowski ou Fante. O folk bebe de outras fontes, e elas não têm a ver com essas literatices que fizeram minha graça posteriormente (e que até a Cris, minha ex-esposa, quis entender, e deve ter entendido até melhor do que eu). O folk, como já disse, busca as origens. E origens que vão até o que há de mais espiritual no homem comum.

Mas o folk chegou tarde até mim. Pois mesmo que tenha conhecido Dylan bem antes, eu só o consumi como fã muito tempo depois (e sem entender). Pois até o próprio Cohen mudou, e hoje não sei como o entendo. De certa forma, quero entender o Leonard mais do seu primórdio, embora seja atualmente um homem mais próximo do Cohen tardio.

O folk passa para mim também por uma descrença irônica nas instituições. Ou seja, por não acreditar que tudo (o social) possa realmente ser diferente. O sujeito do folk nasce e morre sozinho, e prefere viver também assim. Os outros em geral são vistos por ele como ingênuos, gente que acha que tem realmente algo a ver com os outros. O cara do folk tem algo a ver com o bluesman, sujeito perdido em busca de um lugar para descansar a alma (mas que nunca consegue encontrar). Ocorre que o cara do folk não busca um lugar. Seu lugar é ele mesmo, e fica feliz sendo tudo assim mesmo.

Ocorre que para mim as instituições são em geral algo legal. Pode parecer estranho falar assim, logo eu, que gosto da estética e postura thrash, mas simplesmente não consigo distanciar a busca de mim mesmo da necessidade de ter algo social melhor. Ou seja, gosto da instituição, mas por outro lado não quero incutir em mim algo diferente de mim mesmo. Já o folk e o thrash desconfiam. Acham tudo uma merda. E a mesma merda.

De certa forma, vejo no folk uma saída romantizada sem romantismos inócuos para o sujeito que não vê a verdade fora de si mesmo. Penso no folk quando visito cemitérios em Paris (fui duas vezes), quando visito o centro de Sampa, quando ando em minha cidade em busca de uma padaria onde tomar um café de coador. O folk para mim nesse sentido é quase uma trilha musical para quando andamos por aí em meio à vacuidade do que está fora de nós. Porque nada parece estar fora de nós. Pelo menos nada que realmente interesse.

Lembro-me também de que o folk me capturou de vez quando assisti Pat Garret e Billy the Kid, do Sam Peckinpah. Não porque o Dylan esteja lá. Mas porque vemos ali dois sujeitos que se encaram enquanto futuro e passado, e para os quais nada está além do conflito entre eles. Como se tudo tivesse de ser resolvido aqui na terra, sem remeter a outras paragens. Ou seja, como se o mal e o bem estivessem em nós, apenas. E como se tudo fosse apenas um jogo de gato e rato. Como numa trilha de Paris, Texas. Claro que nisso há conexões com o blues, e mesmo com outras vertentes de entendimento (como o rock fora da lei).

Tem um sujeito que comentou no texto anterior (sobre o thrash) que não entendeu algo do que eu dizia ali. Pois bem. Meus textos desta série buscam tentar entender o que são os movimentos sob o ponto de vista social. O que é o heavy metal enquanto turma, o thrash enquanto turma, o experimental enquanto turma, e o folk enquanto turma. Porque, de alguma forma, todos nós somos sociais, e buscamos uma empatia com quem está distante de nós. Ocorre que no meu caso, talvez até por eu ser esquizofrênico, tudo se torna ainda mais quebrado. Parte de mim está no heavy, parte no thrash, parte no folk, parte no experimental, parte no blues, e até parte no glam. Estranho.

Bom, esta foi minha leitura do folk. Pretendo também abordar o experimental e o punk. E talvez, se tiver inspiração, ainda outros movimentos, como o rock romântico. Não sei.

PG e BTK




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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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