Ozzy Osbourne morreu. O Mercado do Luto
Por Aleph Neutro
Postado em 26 de julho de 2025
Ozzy Osbourne morreu, e como é de se esperar, começou imediatamente a avalanche de homenagens públicas. Não apenas de fãs, mas também de músicos, empresas, perfis oficiais, portais de entretenimento, influenciadores e celebridades, todos apressados em garantir seu espaço no luto coletivo.
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Estas figuras famosas, não importando sua extensão, acabaram, hoje em dia, se tornando os faróis da opinião individual. No momento de algum acontecimento, olhamos aos faróis para saber como guiar nossos pensamentos. Sendo bem claro, você também faz isso: todas as vezes que algo acontece na vida real, sua ação imediata é correr para as redes em busca do seu influencer pessoal, afim de buscar a opinião dele para reforçar, ou confrontar a sua. Todos nós fazemos isso. Você quer que fique bem claro de que lado você deve se posicionar levando em conta a forma como seu influencer pensa. É o mal estar da nossa época.
E o que realmente me incomoda nisso é que a morte de uma figura pública, especialmente alguém como Ozzy, parece dar permissão para que as pessoas transformem o falecido num símbolo para suas próprias perspectivas de vida. Parece que ninguém pode simplesmente morrer. Essa morte é o reforço da sua visão muito particular sobre como você acha que a vida é, independente de como o morto pensava. Poucos falam sobre ele, sobre o que ele foi. A maioria fala sobre si mesma. Sobre o quanto foi impactado, o quanto era fã, o quanto se sente tocado, o quanto este momento diz algo sobre mim, ou até o absurdo de potenciais videntes que fazem uso do momento para reafirmar "viu, eu estava certo, eu disse que ele ia morrer logo, uma fonte muito próxima me confirmou". A morte vira, então, um espelho onde cada um vê sua própria imagem, e reforça sua própria distorção.
Eu, pessoalmente, não gosto de prestar tributos públicos. Principalmente porque se tornou uma espécie de cobrança emocional. Como se fosse uma obrigação demonstrar tristeza, postar um vídeo, escrever um texto, fazer um post de luto para provar que você se importava. Virou um sinal social, uma performance de como "você sentiu".
Um caso que ilustra isso foi o tributo feito pela banda Iron Maiden. Ao invés de parecer um gesto espontâneo e sincero, o tom soou ensaiado, quase como um comunicado institucional. Parte disso, talvez, se deva à pressão dos próprios fãs, exigindo manifestações, cobrando postagens, querendo que seus ídolos sinalizem publicamente a dor. Mas ninguém deveria ser forçado a externalizar seu luto. Isso é pessoal. Nem toda perda precisa virar manchete, e quem acompanhou as notícias sobre as duas bandas, sabem do que se trata. Reacender a fagulha de uma briga de anos atrás, como se publicamente houvesse um roteiro muito bem articulado que nos faça viver nesse eterno dia da marmota.
Há também algo desconfortável nessa pressa de reafirmar vínculos com o falecido. Frases do tipo "sim, fui amigo dele", "sim, ele me conhecia", "sim, fiz parte da vida dele" acabam soando como uma disputa por legitimidade, como se a proximidade com o morto servisse para validar o próprio status. Isso me parece mais sobre o ego dos vivos do que sobre a memória de quem partiu. Uma inversão completa do que deveria ser um momento de homenagem.
Além disso, eu sempre tomo cuidado com essa tendência de beatificar pessoas imediatamente após sua morte. Ozzy era uma figura complexa. Ignorar isso soa desonesto pra mim. Não dá para esquecer certos comportamentos e declarações, principalmente vindos da sua esposa, Sharon Osbourne. Ela já expressou opiniões xenofóbicas abertamente, inclusive em contextos extremamente delicados, como quando refugiados árabes buscavam acolhimento em meio a guerras civis provocadas, ou pelo menos agravadas, por décadas de colonialismo e políticas neoliberais do Ocidente, como forma de subjugar sociedades inteiras como se fossem um laboratório do capitalismo tardio. Referindo-se aos imigrantes como se fossem uma "ameaça" à identidade do país. Exigindo a revogação de cancelamento de vistos, e até mesmo a proibição de entrada no país, seja nos EUA, ou na Inglaterra. É semelhante ao tipo de mentalidade que encontrei aqui no Brasil, quando brasileiros de classe média se incomodam ao ver pessoas humildes em aeroportos. O famoso caso do "Rodoviária de Congonhas" dito por um marido de influenciadora. É sempre o mesmo discurso elitista, fantasiado de defesa da ordem. Eu nunca vou entender um país que olha para as pessoas humildes como se eles fossem o inimigo. Eu vim para o Brasil querendo fugir, mas parece que é uma visão de mundo que seduz a todo tipo de pessoa, infelizmente.
É irônico, e até melancólico, testemunhar isso em alguém que também vem de uma história de sofrimento e marginalização. Ozzy foi operário. Cresceu entre trabalhadores. Foi vítima da pobreza, da falta de estrutura, da falta de apoio à saúde mental, do vício. E, mesmo assim, construiu um império. Mas esse império, com o tempo, passou a explorar sua imagem de forma tão intensa que, muitas vezes, se tornava difícil separar o homem do personagem. A relação simbiótica entre ele e Sharon foi, por décadas, marcada por episódios públicos de abuso, dependência emocional, violência e exposição. Transformaram sua casa num reality show, sua doença em enredo, sua decadência em produto.
A gota d’água, pra mim, foi a proposta recente de transformar a mudança de Ozzy dos Estados Unidos para a Inglaterra em conteúdo audiovisual. A justificativa era "mostrar os últimos momentos". Mas, na prática, parecia mais uma tentativa de lucrar com o definhamento, como se fosse o último capítulo de uma série.
Sharon Osbourne não é apenas vítima. Ela também é condutora de muitas decisões que alimentaram esse ciclo de destruição. E o que mais se fala de Sharon é a narrativa de que ela "salvou" Ozzy, como se ela mesma não fosse uma pessoa, mas um órgão externo ao próprio marido. Por que colocamos sempre nas esposas essa responsabilidade de "salvar" homens autodestrutivos, como se eles não fossem capazes de cuidar de si mesmos, ou até, como se a responsabilidade pela sua derrocada fosse de quem estivesse ao redor? Por que se espera que elas sejam mártires, mecenas, mães, terapeutas, administradoras e, ainda por cima, pacientes mudas e coniventes com a violência que lhes obrigam a conviver? A função de uma esposa não é "dar limites" a um homem. Isso é uma distorção cruel dos papéis numa relação.
O que é espantoso para mim, é a percepção de como o luto virou um dos braços mais lucrativos desse supermercado digital. As redes sociais transformaram a morte em um espetáculo de baixo nível. Comentários vazios, vídeos rasos, manchetes click bait. É o festival da insensibilidade disfarçado de comoção. Um show de vaidades sob o financiamento silencioso de empresas de tecnologia, onde a burrice, a arrogância, a falta de sensibilidade e a superficialidade se tornam mais um capital dessa indústria do "me dêem atenção".
Nem todos conheciam Ozzy, ou sua música, apenas sua imagem, e está tudo bem. E ele foi importante na vida de muitas pessoas, foi importante para a manutenção da indústria da música, e para algumas pessoas do seu círculo íntimo. Mas o luto às vezes é escutar um disco inteiro em silêncio, de olhos fechados, lembrando de como aquilo mudou a gente por dentro. O luto real pode ser vivido também em silêncio. O resto é apenas ruído.
E percebam a ironia deste texto, em que, indubitavelmente, ele será também o palco de um espetáculo do egocentrismo. Mas até então, qual é o meu nome e quem pode descrever o meu rosto, não é mesmo?
Morte de Ozzy Osbourne
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