Headbanger de direita: o resultado de quem ouve música sem se aprofundar em seu conceito

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Por Bruno Silvestre
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Num país onde grande parte dos grupos políticos organizados na disputa pelo poder se encontram desmoralizados, falar de política ou assumir determinada posição ideológica se torna muitas vezes um tabu gerado pelo constrangimento e vergonha por parte de quem se engaja politicamente em alguma causa. Mas, como as decisões políticas e institucionais refletem diretamente o nosso cotidiano e determinam o nosso papel social, tratar desse assunto é algo muito necessário, ainda mais por ser algo extremamente relacionado a música, neste caso, ao Heavy Metal/Rock'n Roll.

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Neste contexto onde as contradições sociais e ideológicas no Brasil se encontram ainda mais acentuadas, vemos o surgimento de muitas personalidades dentro da nossa cena que ganham atenção vociferando discursos conservadores, moralistas, autoritários, com um ódio bem acentuado contra os movimentos sociais e coletivos de esquerda. Particularmente eu afirmo isso com um grande pesar e decepção de alguém que desde os 15 anos de idade sempre entendeu a cultura do Rock com algo libertário que quebrasse com todos os padrões sociais e morais impostos por essa sociedade que, há pelo menos 40 anos, sempre foi criticada na cena.

Quando o Black Sabbath lançou seu primeiro álbum, em 1970, o que mais chamou a atenção foi o fato das músicas baterem em assuntos tidos como verdades universais pela nossa sociedade ocidental, como religião, sexo, drogas. A mesma coisa aconteceu quando o Sex Pistols lançou seu debut Never Mind Bollocks, Here's The Sex Pistols. Como o próprio da banda já é polêmico para a época, as músicas Anarchy In The UK e God Save The Queen foram o suficiente para deixar as posições morais da aristocracia e da elite britânica ainda mais afloradas. Judas Priests, AC/DC, Twisted Sister, Motley Crue e Mercyful Fate são outros exemplos que fizeram a elite conservadora arrancar os cabelos e não medir esforços para censurá-los através da Parental Music Resouce Center (PMRC).

O Metal foi algo que surgiu dentro das maiores periferias dos Estados Unidos e da Europa, e sempre teve a ideologia de criticar as estruturas dominantes, excludentes, que a sociedade sempre aceitou passivamente e sem nenhum questionamento. Uma prova disso é a religião. Ao contrário do que muitos pensam o conceito de satanismo dentro do gênero musical não é uma expressão espiritual ou religiosa, e sim uma crítica e uma oposição a todo tipo de atrocidade e disseminação de violência e repressão que sempre foi (e ainda é) justificado por meio do cristianismo.

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Mesmo que muitos tentem negar, todos nós sem exceções possuímos uma ideologia, seja ela bem fomentada ou várias ideias tortuosas. Ideologia não significa apoiar partidos políticos ou determinadas pessoas, mas, sim ter uma base de raciocínio com o qual utilizamos para enxergar a sociedade e agir dentro dela. A nossa ideologia defini nossa posição em relação a questões que permeiam a sociedade em que vivemos, se somos contra ou favor de algo, e o que se deve fazer diante de um fato. Apenas o ato de expressar nossa opinião já demonstra que somos ideológicos.

O Heavy Metal é um movimento que se apropriou de vários conceitos culturais para poder surgir e continua se apropriando de outros para se inovar. Porém, na essência do movimento, o Metal sempre pregou uma sociedade livre onde as pessoas pudessem realizar seus desejos e vontades pessoais sem serem julgadas ou reprimidas por alguém que se incomode por isso. O dilema "Sexo, drogas e Rock'n Roll", é um reflexo deste clamar por liberdade e tolerância diante da nossa sociedade autoritária e hipócrita. Basta levarmos esses aspectos em consideração para entender o por que é ignorância e incoerência haver Headbanger's esbravejando preconceito e elitismo nos lugares por onde andam.

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Algumas pessoas tentam justificar que gente como eu está "tentando impor" um conceito único e imutável ao Metal, mas, a verdade é que estamos apenas corrigindo desvios e conceitos que são aversos a cultura que fazemos parte, entendemos que o Metal tem sim um conceito libertário e não segregador. Depois de figuras como Jair Messias Bolsonaro e Olavo de Carvalho, outros personagens também se projetaram e ganharam visibilidade por defender ideias semelhantes, como Nando Moura. A partir daí formou-se uma legião de fãs de Metal ignorando todo o conceito do gênero, toda crítica presente nas composições musicais e apoiando a extrema-direita brasileira como alguém que queira mostrar radicalidade e brutalidade sem pensar no que está dizendo.

Trazendo a tona novamente a questão da ideologia eu sintetizo melhor a contradição em questão: Todos nós temos uma base de raciocínio pela qual enxergamos o mundo, Bolsonaro por exemplo já demonstrou que na sua compreensão a sociedade seria melhor se houvesse mais controle e repressão contra aqueles que ele considera como o "câncer" da sociedade. Abertamente, ele defende uma sociedade construída sob uma viés moralista, conservador, no que rege as estruturas socioeconômicas, além de homogeneidade sociocultural, e o pior: tudo isso imposto autoritariamente sob um regime totalitário. Ele deixa tudo isso bem claro quanto aos elogios a ditadura militar e as críticas ao governo petista.

Nada que é proposto pela extrema-direita ou por setores elitistas está de acordo com a ideologia colocada nas letras das músicas ou no papel social que desempenhamos na história. O Metal jamais poderá ser significado de segregacionismo, elitismo, eugenia ou dogmatismo religioso. Metal é o oposto a tudo aquilo que sempre tentou ser imposto, ser forçado independente da nossa vontade, é o grito de liberdade pela autonomia de pensamento, comportamento e atitude.

É com base nisso que expresso meu profundo repúdio a quem dá o braço a torcer por figuras e conceitos ideológicos que na verdade querem mesmo é acabar com qualquer suspiro que seja a nossa liberdade e direito de ser e pensar como queremos independente da opinião dos outros ou mesmo da sociedade. Independente de ser fã ou músico, misturar conservadorismo e Heavy Metal é como misturar água e óleo.




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