As músicas favoritas dos integrantes do Rush e aquela que causava risadas amareladas
Por Bruce William
Postado em 13 de junho de 2026
Escolher uma música favorita dentro do catálogo do Rush não parece tarefa simples nem mesmo para quem ajudou a construir tudo aquilo. Ao longo de décadas, a banda mudou de direção várias vezes, passou do hard rock inicial para composições longas, sintetizadores, canções mais compactas e diferentes experiências de estúdio. Cada integrante acabou guardando uma ligação especial com momentos distintos dessa trajetória.
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Antes de encontrar uma identidade própria, o Rush tocava muitas versões do Cream, relembra a Far Out. Geddy Lee sempre reconheceu o peso que o trio britânico teve sobre sua formação, principalmente como baixista. Mas, quando chegou a hora de citar uma música importante do próprio grupo, ele voltou ao primeiro álbum e escolheu "Finding My Way".
A faixa abre o disco de estreia, lançado em 1974, e representa para Geddy o momento em que aquele trabalho quase artesanal começou a ganhar forma profissional. O Rush já tocava a música ao vivo, embora nem sempre conseguisse conquistar públicos interessados apenas em dançar. Quando o produtor Terry Brown ouviu o material, gostou imediatamente de "Finding My Way" e decidiu gravá-la novamente.
"Ela se tornou para mim um símbolo de que salvamos nosso primeiro álbum", contou Geddy. A escolha tem menos relação com considerar a faixa o auge artístico do Rush e mais com o que ela representou naquele começo: a sensação de que a banda finalmente havia registrado algo capaz de apontar um caminho.
Neil Peart tinha uma ligação especial com "2112", composição que ocupou todo o primeiro lado do álbum de 1976. O Rush vinha de três discos feitos em apenas 18 meses desde sua entrada e atravessava pressão para produzir material mais comercial. Em vez disso, respondeu com uma obra de cerca de 20 minutos sobre um indivíduo enfrentando uma sociedade opressora.
"Quando fizemos 2112, tivemos um mês inteiro para escrever, ensaiar e gravar o álbum, então ele foi feito nas circunstâncias mais cruas, mas com muita convicção e entusiasmo", lembrou Peart. "Estávamos com muita raiva naquele momento. A história é sobre o indivíduo contra a opressão, e aquilo éramos nós; era como nos sentíamos. E funcionou."
Para Alex Lifeson, um dos momentos mais especiais veio em "Limelight", de "Moving Pictures". A letra escrita por Peart falava sobre exposição pública, isolamento e desconforto com a fama, enquanto o solo de guitarra ganhou um caráter emocional que Lifeson continuou carregando para os palcos.
"Eu amo a elasticidade do solo. É uma peça musical muito emocional para mim tocar", afirmou. "A música fala de solidão e isolamento, e acho que o solo reflete isso. Há muito coração nele." Lifeson dizia respirar fundo antes da primeira nota durante os shows e considerava aquele seu solo favorito para tocar ao vivo.
Se cada um tinha suas preferências, havia também uma música que nunca encontrou o mesmo entusiasmo dentro do trio. "Tai Shan", lançada em "Hold Your Fire", de 1987, nasceu de uma experiência pessoal de Peart após visitar a montanha sagrada chinesa que dá nome à faixa. O baterista tentou colocar nas palavras a emoção daquele momento, mas seus companheiros não conseguiram entrar completamente na história.
"É apenas uma daquelas músicas que Alex e eu gostamos de tirar sarro", admitiu Geddy, numa lembrança que soa mais como risada amarelada do que desprezo pela faixa. "Como era uma música tão pessoal para Neil, Alex e eu tivemos dificuldade para nos colocar dentro dela. E caras em bandas precisam de toda a munição possível para zombar uns dos outros. Acabou sobrando para 'Tai Shan'."
A gozação não vinha exatamente de falta de respeito por Peart ou pela experiência que originou a letra. "Tai Shan" simplesmente dependia de uma emoção muito particular, difícil de dividir entre os três. Geddy precisava cantar aquelas palavras, e Alex precisava encontrar um lugar dentro do arranjo, mas os dois não haviam estado naquela montanha nem vivido a revelação que Peart tentava descrever.
As escolhas formam um retrato curioso do Rush. Geddy ficou com uma música ligada à sobrevivência do primeiro disco; Peart escolheu a obra que transformou frustração em afirmação; Lifeson destacou um solo que continuava mexendo com ele depois de incontáveis apresentações. "Tai Shan", por sua vez, lembra que nem mesmo três músicos tão conectados conseguiam compartilhar todas as emoções - e que, quando isso acontecia, a faixa ainda podia render décadas de gozação entre amigos.
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