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Rush inicia novo capítulo de uma carreira baseada em fortes convicções

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Postado em 12 de junho de 2026

A história da banda canadense Rush sempre foi de resistência e convicção sobre suas decisões. Em 1974, depois de seu primeiro disco, tiveram que dispensar o baterista John Rutsey, porque Geddy Lee (baixo, vocais e teclados) e Alex Lifeson (guitarra) queriam se aventurar por caminhos musicais mais sofisticados que o rock and roll básico apreciado por Rutsey, que também sofria de diabetes e tinha limitações físicas para grandes turnês.

A chegada de Neil Peart transformou a história da banda, que lançou os discos Fly By Night e Caress of Steel em 1975, este último incompreendido pela gravadora e por parte do público, o que fez a banda acreditar que sua carreira havia acabado.

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Foto: Polygram
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Bem na época em que começavam a abrir shows de bandas como Uriah Heep nos Estados Unidos, receberam um ultimato da gravadora, que queria músicas mais básicas e prontas para tocar nas rádios, parecidas com a que grupos como Bad Company faziam à época.

O contrato previa apenas mais um disco e, com a convicção em sua música inabalada e a teimosia da juventude em seu auge, o Rush entrou em estúdio e basicamente fez um disco igual ao anterior. Uma faixa de abertura com mais de 20 minutos e músicas menores no lado B. Queriam sair da indústria musical em grande estilo, fazendo aquilo que acreditavam.

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Foto: Reprodução - Universal
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No entanto, o disco acabou caindo nas graças do público, que foi conhecendo e tomando gosto pelas músicas nas longas turnês pelos Estados Unidos. Sempre foram um grupo de estrada, de tocar muito ao vivo, e o sucesso de 2112 veio a partir dessas longas séries de shows.

O resto é história. A música foi ficando mais intrincada e o som foi evoluindo através das décadas, o que fez com que ganhassem muitos fãs, perdessem outros e mantivessem fiéis aqueles fãs que seguiram confiando na convicção do trio canadense.

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Essa história teoricamente tinha chegado ao fim em 2015, quando o baterista Neil Peart anunciou a aposentadoria da bateria. Vale destacar que Peart é um capítulo à parte na história do rock. Uma figura de personalidade exótica, um cara extremamente reservado, ainda que muito articulado em entrevistas.

Rush - Reprodução
Rush - Reprodução

Além do talento monstruoso para compor as partes de bateria que ajudaram a guiar o Rush pelos caminhos do rock progressivo, Peart chamou a atenção de Geddy e Alex pelo seu amor à literatura, o que logo fez dele o letrista oficial da banda, em temas que variam da ficção científica à filosofia, passando por reflexões mais pessoais sobre o mundo.

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Autor de letras de clássicos como Limelight, que fala sobre a angústia de viver sob os holofotes por conta de seu ofício como músico, ao mesmo tempo em que preza por uma vida o mais reservada possível, Peart também escreveu alguns livros, onde reflete sobre suas viagens de motocicleta e o prazer de passar despercebido em meio às suas aventuras.

Sua paixão pelas aventuras solitárias era tão grande, que costumava viajar de moto entre uma cidade e outras nas turnês, para conhecer novas estradas e tornar a rotina de trabalho mais interessante.

Por volta de 1998, o baterista foi atingido por uma grande tragédia em sua vida pessoal, ao perder a filha Selena, de 19 anos, em um acidente de carro, e a esposa Jaqueline, que não suportou a tristeza e morreu de câncer um ano depois.

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A maneira de Peart se recuperar do luto foi justamente rodar milhares de quilômetros em sua motocicleta pelos Estados Unidos e México, aventura contada no livro "Ghost Rider – A Estrada da Cura".

Foto: Andrew MacNaughtan
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Eventualmente, o Rush voltou a tocar, gravar e fazer turnês, até 2015, quando Peart decidiu que havia chegado ao seu limite físico e não se permitiria entregar performances aquém do que o público e ele mesmo esperavam.

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Em 2020, cinco anos depois do seu último show, Neil Peart morreu aos 67 anos, vítima de um câncer no cérebro. Já estava casado novamente, com a fotógrafa Carrie Nuttall e tinha uma filha de cinco anos, Olivia. A tão sonhada aposentadoria e sua segunda chance de ter uma família duraram pouco tempo, infelizmente.

Nos últimos anos, Geddy Lee e Alex Lifeson, que se conheceram na escola aos 12 anos e sempre foram amigos, antes de serem colegas de banda, seguiram se encontrando e eventualmente começaram a tocar músicas do Rush em suas "jam sessions". Até que decidiram incluir nesse processo a baterista alemã Anika Nilles, de 43 anos, que tem grande experiência em jazz rock e fusion, inclusive com discos solo gravados e turnês com o guitarrista Jeff Beck.

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Foto: YouTube Oficial
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Com Nilles na bateria e o tecladista Loren Gold também no time, este com experiência excursionando com o The Who, o Rush iniciou sua turnê "Fifty Something", em celebração aos 50 e poucos anos de música produzidos pela banda, no último domingo (07/06), com uma série de quatro shows em Los Angeles, no mesmo Kia Forum, local onde terminaram sua turnê anterior, em 2015.

Pelos primeiros shows, já deu pra ver que não estão pra brincadeira. Com uma lista de 40 músicas ensaiadas, mudaram drasticamente o setlist da primeira para a segunda noite. Abrem o show com Xanadu, tocam By-Tor & The Snow Dog, o disco Moving Pictures na íntegra e a suíte 2112 também inteira, além de outros sons obrigatórios e algumas pérolas reavivadas.

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Foto: Richard Sibbald
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Logicamente, toda a atenção estava voltada para Anika Nilles e como era recriaria todas aquelas viradas antológicas criadas por Neil Peart. Muita se fala sobre a capacidade técnica absurda de Anika e isso é óbvio, a base para sua escolha. Mas acontece que música não é só técnica. Uma boa parte do que acontece ali atrás da bateria, como em qualquer outro instrumento, é feeling.

Assistindo aos vídeos dos primeiros shows, gostei muito de Anika tocando com o Rush. Nem todas as viradas são idênticas àquelas criadas por Peart, mas isso não é ruim. Ela mantém as partes principais intactas, pois são assinaturas de Neil Peart, como as viradas que encerram a sessão instrumental com o solo de Alex Lifeson em Tom Sawyer, e algumas outras em La Villa Strangiato e YYZ, por exemplo. Mas também coloca um pouco de sua personalidade e de seu estilo próprio em outras partes.

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Essa turnê é uma celebração da música do Rush e um tributo à vida e obra de Neil Peart. Somente ele é capaz de tocar as músicas do Rush com o mesmo feeling, pois ele compôs todas aquelas partes. A pessoa que senta hoje na banqueta de bateria mais desejada e ao mesmo tempo mais perigosa do mundo, por toda mística que envolve o personagem Neil Peart, está ajudando Geddy e Alex a fazerem essa celebração e não substituindo o titular, que obviamente é insubstituível, não importa a técnica do baterista que se proponha a isso.

Foto: Promo DW - Sabian
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Se o escolhido fosse um clone de Neil Peart, que apenas replicasse nota por nota tudo que ele fez, seria um desrespeito à sua história e sua trajetória. Eles escolheram Anika Nilles por ser uma musicista extraordinária, capaz de tocar todo o repertório do Rush, e que traz consigo uma bagagem, uma história própria, que se une à história de Geddy e Alex e dá um novo gás para que sigam fazendo o que mais amam, que é tocar as músicas que fizeram ao lado de Neil Peart.

Tudo que envolve a turnê, desde as homenagens a Peart no show, passando pela foto que Anika Nilles publicou em seu Instagram, de um par de baquetas de Peart sob sua bateria, dizendo que ele estava com a banda na estreia da turnê, até os textos de Carrie e Olivia, viúva e filha do baterista, no "tourbook" lançado no dia do show de abertura, e a própria escolha de Anika Nilles, mostram delicadeza e respeito à memória do músico e à música que ele ajudou a produzir em mais de quatro décadas.

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O bônus, e não o motivo principal da escolha, é que o Rush tem hoje uma mulher na bateria, o que não deixa de ser uma homenagem e um incentivo a todas as musicistas do mundo.

Todas as escolhas da carreira do Rush se basearam em uma forte convicção do que faziam. A primeira semana da turnê "Fifty Something" mostra que, mais uma vez, fizeram a escolha certa.


Rush retorna aos palcos em 2026

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Sobre Roberto Schiavon

Roberto Schiavon é jornalista, ouvinte de música e toca bateria nas horas vagas. Entre as bandas que ama estão Beatles, Rush, AC/DC, Led Zeppelin, Iron Maiden, Deep Purple e Saxon.
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