Manifesto do Nada na Terra do Nunca: o tal do livro do Lobão

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Por Guilherme Fernandes, Fonte: Jornalirismo
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Nem bem Manifesto do Nada na Terra do Nunca (Editora Nova Fronteira, 247 páginas) foi lançado e Lobão já está lá, de luvas postas, de seu lado do córner, esperando a sineta tocar para que o seu combate contra a bundamolice intelectual tivesse início. Prevenido, já adianta, aos leitores e críticos, os próximos capítulos, logo na orelha do novo rebento: “É certo que muita gente vai criticar este livro só de orelhada, a partir de frases tiradas do contexto e de uma visão estereotipada de seu autor”.

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E não é que, dessa vez, Lobão tinha razão?


O que se viu nestes últimos dias foram declarações ofensivas, frases sensacionalistas e artigos dos mais baixos possíveis defenestrando-o por causa de factoides criados pela própria imprensa. Nomes, como Paula Lavigne, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mano Brown, figuravam em notas nos portais de notícias desse nosso ciberespaço de meu Deus. Teve até chamado para a briga, advindo do líder dos Racionais MCs.

Achei tudo isso engraçado demais, porque tinha a certeza de que muitos que o estavam criticando, senão todos, e rebatendo pseudo-acusações, ainda não tinham lido nem sequer dois capítulos do tal “Manifesto Lobônico”. O livro nem ao menos tinha sido lançado, quando essas polêmicas surgiram. Ou seja, outra vez, a “imparcialidade” da imprensa nos pregou mais uma peça daquelas. Estavam criticando um livro que não tinham lido.

Mesmo assim, o estrago estava causado. Seja para o bem, já que haveria muitos curiosos adquirindo a obra somente para ler os pensamentos do velho lobo sobre os assuntos que pipocaram na imprensa; seja para o mal, uma vez que muitas pessoas já leriam o livro com uma veemente má vontade, procurando sustentáculos para suas críticas ao cantor. Adquiri a obra nem bem ela chegara às prateleiras das livrarias de São Paulo.

Acompanho de perto o trabalho de Lobão. Admiro suas músicas, sua batalha, mesmo que vista de outra forma, em defesa da classe musical e, acima de tudo, sua coragem para expor opiniões sobre quaisquer assuntos, mesmo que elas sejam divergentes do senso comum. Concordo com tudo que ele diz? Mas é claro que não! Se concordasse, me chamaria João Luiz Woerdenbag Filho e seria Lobão. No entanto, respeito-o, assim como qualquer pessoa que tenha pensamentos que divergem dos meus.

Descompasso entre livro e repercussão

Voltando ao livro, devorei-o em menos de dois dias. E, sinceramente, ao terminá-lo, tive a sensação de que algo estava em desacordo com o que estava acompanhando nos veículos de imprensa. O livro está longe de ser uma metralhadora giratória, como a mídia o estava vendendo, e os supostos alvos citados nas reportagens não passam de meros exemplos dentro de um contexto muito bem dissecado por Lobão, na explanação de seus pensamentos.

O livro nada mais é do que a exposição de pensamentos de um indivíduo que pensa diferente do status quo, da grande massa. Com várias passagens engraçadíssimas e outras mais sérias, mais argumentativas, Lobão tenta apresentar suas ideias da forma mais clara possível, seja debatendo situações que não são debatidas pelo grande público, como a Comissão Nacional da Verdade, criada pela presidente Dilma Rousseff, seja explicando mal-entendidos, como sua recusa em tocar no festival alternativo Lollapalooza e sua saída do programa “A Liga”, da Rede Bandeirantes.

Nada demais

Ao contrário do que muitos esperavam, Manifesto do Nada na Terra do Nunca é um bom livro, mesmo sendo um dos muitos rounds da luta “Lobão x Críticos”. Mostra que o autor estudou bastante para poder expor seus argumentos mais sérios de forma bastante embasada, e, ainda assim, consegue arrancar boas risadas com algumas situações inusitadas que perpassaram sua história recente.

É claro que, por ser um livro escrito por um indivíduo que expõe suas opiniões sobre determinados assuntos, ele se mostra bem parcial em certas partes. Eu mesmo não concordo com algumas celeumas levantadas por Lobão, mas respeito-o por ter, mesmo que de forma equivocada em alguns casos, tocado na ferida, a fim de suscitar um debate mais qualificado, mais intelectualizado sobre temas que merecem a atenção do povo brasileiro, como a Lei Rouanet, a via de mão dupla que é o preconceito, desilusões políticas, entre outros assuntos.

O que a repercussão desse livro está mostrando é que, nos dias de hoje, está cada vez mais difícil manter um debate intelectual no Brasil. Discordâncias ideológicas são levadas para o lado pessoal, e divergências de ideias, mesmo que embasadas em argumentos firmes, caso não façam parte do formato de um pensamento vigente, são descaracterizadas única e simplesmente por ser diferentes. Esmeram-se em combater as opiniões contrárias, ao invés de conviver pacificamente com elas.

Sem proselitismos, mesmo que inevitáveis, tenho visto certos partidos, algumas mídias, determinadas universidades e outras lideranças lutando, cada vez mais, pelo cerceamento das opiniões divergentes, querendo que todos pensem da mesma forma, assistam às mesmas coisas e leiam os mesmos livros.

E sem as divergências, o que nos sustentará como cidadãos, no futuro?

Abaixo, reproduzo alguns trechos do livro que julgo interessantes:

“Amamos a pobreza. O que mais me impressiona é a quantidade de gênios que nossa cultura produz, a formular teorias incríveis no intuito de proteger esse patrimônio de que, tristemente, acostumamos a nos envaidecer. Isso gerou uma forma singular de autoengano: nos achamos especiais através dos nossos piores defeitos.”

“E quanto ao rap? Bem, o rap e o hip-hop, em geral, estão vivendo momentaneamente como reféns do simplismo e do populismo da cartilha do partido do governo. (...) A atitude deles é essa, sempre: se você não é mano, você é um ser repugnante a ser desprezado.”

“Uma parte substancial da população exige saber a verdade integral. E isso não pode nos ser negado. Qualquer cidadão brasileiro, independente de partido, credo ou convicção político-religiosa, tem o direito de pleitear ao governo e, ao mesmo tempo, à Comissão da Verdade, todas as faces da história. De outra forma, a Comissão da Verdade será apenas uma patética Omissão da Verdade.”

“Somos obrigados a admitir que estamos lidando com sociopatas que não possuem o menor senso de autocrítica e anseiam por aniquilar a convivência com oposições e qualquer tipo de adversário.”

“Sabia que jamais poria os pés naquela produtora outra vez, sabia que nunca mais gravaria para aquele programa outra vez. Olhei para o microfone pendurado na lapela, que ainda estava ligado, dei uma risada de escárnio e devo ter dito algo como ‘Fodam-se todos vocês, seus babacas, fui!’”

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