A inacreditável forma que Lobão soube da morte do presidente Tancredo Neves
Por Gustavo Maiato
Postado em 17 de outubro de 2025
Nos primeiros anos da década de 1980, o Brasil vivia uma efervescência cultural e política que se refletia diretamente na música. O punk trazia uma postura mais contestadora, mas foi a new wave que abriu espaço para uma nova geração de artistas que moldaria o rock nacional. Foi nesse cenário que Lobão despontou, ao lado de nomes como Titãs, Gang 90, Lulu Santos, Ritchie e Paralamas do Sucesso.
Em entrevista ao Podcast50mais, o músico relembrou o início daquela fase e afirmou que a new wave acabou funcionando como uma "camuflagem inofensiva", que permitiu a entrada de artistas de espírito rebelde em um mercado ainda dominado por conservadorismo. "Os produtores achavam que era uma nova jovem guarda, uma coisa inofensiva. Aí vieram os Titãs com Sonífera Ilha, a Gang 90 com Perdidos na Selva, depois eu com Cena de Cinema, o Lulu com De Leve e o Ritchie com Menina Veneno", recordou.

A partir de 1984, segundo Lobão, a cena se transformou. O país começava a respirar os ares da Nova República e as letras ficaram mais engajadas. "Até então, ninguém falava muito em política. Era uma geração vista como o novo iê-iê-iê. Mas logo vieram Que País é Este?, Polícia Para Quem Precisa, Revanche, Alagados... e a coisa mudou", explicou.
Lobão e a política brasileira
Mas o músico também apontou um divisor de águas nada positivo: o Rock in Rio. "O Rock in Rio foi o túmulo do rock brasileiro. Os artistas nacionais tocavam de manhã, em palcos minúsculos, com som e luz ruins, enquanto os gringos tinham toda a estrutura. Era um apartheid musical", criticou. Para ele, o festival serviu para colocar o artista brasileiro "no cercadinho", cumprindo apenas exigências legais que obrigavam a presença de músicos locais no evento.
Em meio às lembranças da época, Lobão revelou um episódio curioso - e um tanto surreal - sobre o momento em que soube da morte do presidente eleito Tancredo Neves, em 1985. "Eu tinha tanto desprezo por política que fiquei sabendo da morte do Tancredo através do Planeta Diário, que depois virou o Casseta & Planeta. A manchete era: 'Dona Risoleta parte para carreira solo'. Eu falei: 'Quem é Dona Risoleta?'", contou, referindo-se à esposa de Tancredo, Risoleta Neves, com seu humor ácido característico.
Apesar da irreverência, Lobão lamenta que, desde então, nenhum festival tenha de fato impulsionado o artista brasileiro. "Nenhum levantou nossa bola. Ninguém virou celebridade por causa disso. O que a gente vê são apenas episódios lamentáveis", concluiu.
Confira o episódio completo abaixo.
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