A Autobiografia - Eric Clapton
Por Rodrigo Werneck
Postado em 27 de janeiro de 2009
Nota: 9 ![]()
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Independentemente do fato de concordarmos ou não com as célebres pixações "Clapton is God" ("Clapton é Deus") que surgiram em Londres no fim dos anos 60, o fato é que esse inglês de aparência pacata vem se mantendo com grande sucesso no mercado musical já há quase cinco décadas. Boa parte dessa história é contada, de forma bastante eficiente por sinal, em sua autobiografia, lançada no Brasil (em português, portanto) pela Editora Planeta.
Talvez poucos músicos tenham feito de forma tão perfeita a transposição entre o blues e o rock quanto Eric Clapton. Tendo participado de grupos seminais como The Yardbirds (do qual fizeram parte também Jeff Beck e Jimmy Page), John Mayall’s Bluesbreakers e Cream (junto a dois outros monstros sagrados, Jack Bruce e Ginger Baker), de projetos breves mas que marcaram a história da música de forma indelével, como Derek And The Dominos (com Duane Allman, da Allman Brothers Band) e Blind Faith (com Steve Winwood, do Traffic), e tendo desenvolvido desde então uma carreira solo de grande sucesso, Clapton certamente tinha muita estória para contar. E contou, sob sua perspectiva, neste livro.
É importante frisar que o enfoque principal do livro não é o aspecto musical de sua carreira, mas sim o aspecto pessoal. Claro, a música está sempre presente na narrativa, e não poderia deixar de ser, mas o que transparece é mesmo que o guitarrista tinha uma espécie de necessidade de botar pra fora todos os seus demônios, meio que num processo de "limpeza geral" que a sua vida vem sofrendo nos últimos anos. De qualquer forma, é fascinante entender como uma personalidade como a de Clapton vai sendo moldada ao longo dos anos, e vários nomes que vão surgindo são, obviamente, bastante conhecidos: Chris Farlowe, John Lennon & Yoko Ono, George Harrison, Mick Jagger, Ron Wood, Roger Waters, Phil Collins, Albert Lee, Bob Dylan, Mick Fleetwood, John McVie, Alexis Korner, Jimi Hendrix, além de todos os citados acima, é lógico. Não deixar de ser um relato (ou pelo menos uma visão) de como a cena rhythm’n’blues e, depois, blues/hard rock, foi formada na Inglaterra especialmente.
Clapton passa a idéia de nunca ter inteiramente compreendido toda a veneração por seu nome, manifestando uma reação dupla em relação a isso, por vezes negando-a e por vezes simplesmente aproveitando o momento. Estórias como a da pixação de "Clapton is God", ou de como surgiu seu apelido "slowhand" ("mão lenta"), ou sobre sua paixão por Pattie Boyd (esposa de George Harrison), são narradas no livro, de certa forma desmistificando a sua figura. Sua visão pessoal da cena inglesa (e norte-americana) do final dos anos 60 e início dos 70 nos ajuda a melhor compreender como tudo se desenrolou. Ele cita, por exemplo, que seu estilo diferia do de Page e Beck pois eles eram mais influenciados pelo rockabilly, enquanto que ele tinha raízes mais profundas no blues.
Chega a ser impressionante (e louvável) a forma extremamente sincera com a qual Clapton trata no livro de temas polêmicos, como o consumo de drogas e álcool de forma desenfreada, quase o matando em algumas ocasiões, entre outras questões. Vários dos relatos são oriundos de anotações de seu próprio diário.
Tragédias não ficaram de fora, como a morte de seu filho Conor, assim como as de Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan.
Não é um livro pequeno (são quase 400 páginas), mas é uma leitura tão fluida e fácil, que de forma alguma se torna cansativa. Mais um trabalho bem feito de um artista que dá a si próprio menos créditos do que merece (e do que recebe dos outros).
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