Pink Floyd: Mais um grande álbum desta grande banda

Resenha - Endless River - Pink Floyd

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Por Tunai Porto Marques
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"The Endless River" é um álbum para aqueles que gostam de Rock Progressivo. Ele não possui hits, nem tampouco muitas músicas com vocais pegajosos ou artifícios do tipo. É um disco para se apreciar, de fato, o som e a atmosfera criada. E ninguém melhor do que o Pink Floyd para fazer isso. Ele deve ser ouvido do início ao fim de uma só vez, pois funciona melhor como uma peça única. O destaque absoluto fica com a guitarra extremamente característica de David Gilmour, que mais uma vez cria peças de uma simplicidade e um poder sem igual.

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Resenhar um disco do Pink Floyd é uma tarefa árdua, sobretudo quando ele é o primeiro a apresentar músicas inéditas em 20 anos. Para que a análise seja imparcial, o álbum deve ser escutado sem todo o peso que a história do Pink Floyd carrega. Neste caso, entretanto, a parcialidade trazida no julgamento de um fã talvez seja positiva e necessária. Diferente da resenha de um álbum lançado por uma banda nova, que consiste apenas na análise do álbum como obra individual, ao criticar um álbum do Pink Floyd, deve-se levar em consideração a importância da banda, o contexto de lançamento do álbum e, logicamente, os aspectos relacionados ao álbum propriamente dito. "The Endless River" é muito mais que o novo álbum de uma banda de Rock Progressivo.

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O Pink Floyd nunca lançou álbuns irrelevantes. Mesmo quando porventura um álbum da banda não agrada por quaisquer motivos, é difícil negar que ele possui uma capa representativa (mérito do grupo britânico de design Hipgnosis), letras emblemáticas, sonoridade única e, extrapolando o espectro do disco, na maioria das vezes é (foi) acompanhado por shows que retratavam a identidade visual da obra. Desta forma, cada disco pode ser considerado uma obra realmente completa, seja a avaliação musical dele boa ou ruim.

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Para entender o porquê da importância desse álbum o leitor deve estar ciente, inicialmente, da importância do Pink Floyd no meio musical. Por que ele é considerado uma das maiores bandas de todos os tempos? Por que ele é tão referenciado por outros artistas e pessoas? A resposta dessas perguntas ajuda a entender a importância de "The Endless River". Desta forma, farei uma breve contextualização dos motivos pelos quais o Pink Floyd é tão relevante e como ele chegou a tal patamar. Tentarei traçar um mapa que vai do início da carreira, em canções simples como "Bike", até peças ímpares e de grande complexidade como "Shine on you Crazy Diamond". Para isso, apresentarei as fases que marcaram a história da banda, assim como os álbuns de cada uma delas. Se preferir ler apenas a resenha do álbum "The Endeless River", siga diretamente para o parágrafo 25.

O Pink Floyd teve início no ano de 1964, lançado seu primeiro disco, "The Piper at the Gates of Dawn", em agosto de 1967. A primeira fase da banda, muitas vezes referida como "Era Syd Barret", mostrou a face mais psicodélica do Pink Floyd. Com Syd barret encarregado dos vocais, da guitarra e boa parte das músicas no álbum, o Pink Floyd atingiu considerável sucesso nas paradas britânicas e americanas. O maior legado deixado pelo álbum foi, sem dúvida, o viés psicodélico que seria seguido e aprimorado, introduzido por Barret.

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O uso excessivo de drogas por Syd Barret levou à contratação de outro guitarrista para ajudá-lo no seu papel. Um dos nomes considerados foi Jeff Beck, mas o guitarrista definitivamente escolhido foi David Gilmour. Desta forma, estava montada a formação clássica da banda: Roger Waters no baixo, David Gilmour na guitarra, Nick Manson na bateira e Richard Wright nos teclados. Já sem Syd Barret (mas ainda com sua participação em algumas músicas), a banda lança em 1968 "A Saucerful of Secrets". O álbum contém músicas mais complexas e bem trabalhadas que seu antecessor, apesar de ainda carregar vários elementos psicodélicos (ecos, efeitos sonoros, percussão dissonante) que se destacam. Nele o Pink Floyd apresenta sua primeira música longa (12 minutos), "A Saucerful of Secrets", característica que se tornaria marca registrada da banda. O álbum já mostra uma grande evolução musical, e aponta para a direção que a banda seguiria nos anos subsequentes.

No disco quádruplo "Ummagumma", de 1969, o Pink Floyd entrega seu álbum mais experimental. Cada membro foi responsável pela gravação de um lado do disco, além de conter uma série de músicas ao vivo. Músicas folk de Waters, peças de piano de Wright, belos solos de percussão de Manson fazem desse álbum uma verdadeira miscelânea do grupo na época, altamente experimental. As músicas ao vivo, já conhecidas do público, são um ponto fortíssimo do álbum. Uma excelente versão com vocais de "A Saucerful of Secrets" e "Set the Controls for the Heart of the Sun" engrandecem o álbum. Neste ponto o Pink Floyd já ocupava a quinta colocação nas listas musicais do Reino Unido.

Em "Atom Heart Mother", de 1970, o Pink Floyd já se sentia seguro o bastante para dedicar um lado inteiro do disco a uma só música, a faixa-título. Com o apoio de uma orquestra, o Pink Floyd criou uma música que se constrói, atinge o ápice e desvanece ao longo de sua longa duração de forma maravilhosa. A música mostra que, neste momento, a banda já havia dominado e sabia dosar com maestria os elementos psicodélicos da Era Barret e o estilo de Rock Progressivo que viria a representar tão emblematicamente. O outro lado do disco, assim como havia sido feito em "Ummagumma", contém músicas de cada um dos membros, com caráter mais experimental. Apesar de ter sido algumas vezes menosprezado pelos próprios membros da banda, certamente neste disco surge o embrião do que no futuro seriam os grandes álbuns progressivos do Pink Floyd. Neste momento, o Pink Floyd já ocupava a primeira posição nos rankings musicais do Reino Unido e partia para sua primeira turnê norte-americana.

Até então a banda apresentava fortes ligações com o estilo psicodélico introduzido na Era Barret. Entretanto, do disco "Atom Heart Mother" para frente, o Pink Floyd passa a apresentar um som único, sinalizado nos discos passados, fruto das diferentes concepções musicais de Wright, Gilmour e Waters (principais compositores). Se na época era difícil definir o som da banda, hoje pode-se dizer que o que eles estavam criando o que definimos hoje como Rock Progressivo. O Pink Floyd nunca deixou de possuir elementos psicodélicos em suas composições, mas deste ponto em diante frente a banda criou uma identidade completamente independente daquela que incialmente possuía. Desta forma, pode-se afirmar que o lançamento de "Meddle" marca o início de uma nova fase da banda.

"Meddle", lançado em 1971, foi considerado por Nick Manson como "O primeiro álbum real do Pink Floyd". E há uma razão clara para isso: a partir de "Meddle", o Pink Floyd inaugurou o som extremamente característico que apresentaria dali para frente, e que lavaria a banda ao topo do mundo. "Echoes" (música de 23 minutos) segue a estrutura de "Atom Heart Mother". Um início completamente emblemático, consistindo apenas em um tom repetido e ecoado, dá lugar para uma encantadora passagem vocal com colaboração de Gilmour e Wright, seguida de uma linha de baixo poderosa, que por sua vez dá lugar a um solo de guitarra de Gilmour. Após a marca de 11 minutos, a música apresenta um interlúdio que remete aos elementos psicodélicos do início da banda: sons de guitarras distorcidas e sintetizadores que lembram atividades espaciais. Após a criação de grande expectativa com tons que evoluem gradativamente, a música atinge o ápice voltando para os trechos vocais de seu início, finalizando não só a faixa, mas também este maravilhoso álbum. Descrever "Echoes" é bastante difícil. Neste ponto, a melhor opção para o leitor entender o porquê dela representar um divisor de águas para o Pink Floyd seria ouvi-la.

Em "Dark Side of the Moon" o Pink Floyd atinge o seu ápice criativo (discutivelmente) e comercial (indiscutivelmente). Os temas abordados no álbum são diversos: morte, dinheiro, violência, insanidade, tempo. A ideia de Waters foi tratar de temas que afligem todo ser humano diariamente, dando ao álbum um leque temático enorme. Trechos de entrevistas com pessoas comuns foram adicionados entre as músicas. Estas pessoas respondiam perguntas como: "Você tem medo da morte?", "Qual foi a última vez que você foi violento?". O álbum contou com a participação ativa de todos os membros da banda como autores de quase todas as músicas, o que o tornou bastante diversificado e mostrou a maturidade musical do grupo. Além disso, há a primorosa participação de Dick Parry no saxofone e belíssimos vocais femininos. Diferente dos álbuns passados, que possuíam músicas extremamente longas, o Dark Side possui várias faixas curtas que puderam ser usadas como singles. Unindo uma qualidade de gravação nunca antes apresentada pela banda, musicalidade impecável por parte de todos os integrantes, letras que abordavam temas relevantes a qualquer ouvinte e uma capa que se tornaria símbolo importantíssimo da cultura pop, "Dark Side of the Moon" se tornou um dos discos mais bem sucedidos do mundo. Para descrever tal sucesso, basta dizer que ele foi, segundo referencias citadas no final da resenha, o segundo disco mais vendido de todos os tempos. Em "Dark Side of The Moon" o Pink Floyd se junta aos gigantes da música (não só do rock) para sempre, influenciando várias gerações de músicos das mais diversas vertentes musicais que viriam futuramente.

Após ter atingido estrondoso sucesso comercial com Dark Side, o Pink Floyd conseguiu evoluir mais ainda na esfera musical. Em "Wish you Were Here", de 1975, a banda apresenta como tema central a falta que Syd Barret fez e as facetas negativas da indústria musical. O álbum contém uma suite de 9 partes chamada "Shine on you crazy Diamond" e mais três músicas, dentre elas o famoso hit "Wish you were Here". Com "Shine on you Crazy Diamond", o Pink Floyd mostra que dominou todas as características marcantes que vinha apresentou em álbuns passados: efeitos sonoros, melodias misteriosas e melancólicas, guitarra de blues, solos de saxofone, construção progressiva de longas faixas, gravação cristalina de som. "Shine on you Crazy Diamond" tem tudo isso, sintetizando bem o que tornou o Pink Floyd tão notório. Assim como sugerido na análise de "Echoes", a melhor opção aqui seria escutar a música novamente para relembra-la. Na opinião do autor, essa é uma das melhores músicas já escritas. Não por acaso, a crítica do álbum foi tão boa quanto àquela recebida em Dark Side.

Em 1977 a banda lança "Animals", disco conceitual que busca inspiração no livro Animal Farm (A Revolução dos Bichos no Brasil), usando animais como metáforas de membros da sociedade. Mais uma vez, uma música longa de caráter essencialmente progressivo ("Dogs") e algumas músicas menores, independentes, estão contidas no disco.

Os próximos dois discos mudam um pouco o paradigma criativo da banda: até então, os temas abordados nos discos e a composição das músicas eram desenvolvidos de forma relativamente dividida entre os membros. Entretanto, após "Animals", Roger Waters passa a assumir o controle criativo de forma mais enfática. Os temas dos próximos dois álbuns são autobiográficos do baixista e boa parte da sonoridade e da estética deles é também de sua autoria. A "fase Roger Waters" estava começando.

"The Wall", de 1979, é um disco de ópera-rock que trouxe grandes novidades a sonoridade do Pink Floyd. Mais Hard Rock, ainda que com uma grande orquestra como suporte, o disco não trouxe, por exemplo, longas músicas progressivas, marca que havia se tornado comum em álbuns da banda. O tema central do álbum é a criação de uma muralha entre a pessoa (especificamente um artista de rock, "Pink") e o mundo exterior. Os tijolos dessa muralha, entretanto, são identificáveis durante as canções. Costumo citar os seguintes: educação, superproteção maternal, imposição sexual, progressivo isolamento do mundo e, claro, guerra. Este álbum é autobiográfico porque a ideia de isolamento e alienação surge quando Roger cospe na cara de um fã em um show em Montreal. Além disso, seu pai morreu na segunda guerra mundial e os outros temas do disco também são citados como familiares por ele. O álbum duplo vem carregado de uma identidade visual poderosíssima, apresentada incialmente no encarte do disco e depois reforçada em um filme extremamente emblemático de mesmo nome. Os shows desta época da banda, assim como aconteceu nos shows dos últimos anos de Roger Waters, contavam com a construção física do muro ("the wall"), juntando os tijolos durante as músicas do show e destruindo-o no fim, em concertos que eram considerados os mais espetaculares até então. Neste álbum o Pink Floyd consegue não só apresentar músicas maravilhosas como "Confortably Numb", "Hey You", "Goodbye Blue Sky" e "Another Brick in The Wall", mas também um conceito e uma identidade visual muito fortes. O álbum teve um grande sucesso comercial e se tornou um dos discos mais vendidos da história.

Nos bastidores da banda, por outro lado, Waters demitiu Wright durante a gravação do disco alegando que ele pouco contribuía criativamente, apesar do mesmo ter sido usado como músico contratado nos shows da turnê do "The Wall". A cisão "Waters-demais membros" se tornava cada vez mais forte, pois o baixista se isolou no comando do Pink Floyd, muitas vezes tomando decisões impopulares e autoritárias.

"The Final Cut", de 1983, é dedicado ao pai de Roger Waters. Por conta disso, o tema principal do álbum é a guerra na qual ele morreu (Segunda Guerra Mundial). O álbum é completamente creditado à Waters. O Pink Floyd é na verdade citado como banda que "tocou" o disco junto com Roger. O disco é bem mais seco e sombrio que o "The Wall" e funcionou como um instrumento para expor as críticas sociais e políticas que Waters desejava fazer. Muitos afirmam que ele deveria ter sido lançado, na verdade, como um disco solo do baixista.

Neste ponto, a banda estava completamente dividida entre Waters e Gilmour/Manson. Roger tentava convencê-los da importância de suas letras com caráter político, enquanto eles queriam voltar o foco dos trabalhos para a musicalidade, como acontecia em discos anteriores. A rixa entre os membros da banda, que começou quando Waters tomou para si o controle da mesma, culminou, em 1985, em sua demissão. Ele disse, na ocasião, que a banda era uma "força criativa desgastada". Após esse ponto, durante vários anos o Pink Floyd esteve em batalhas judicias com Roger Waters pelo direito do uso do nome da banda. Como Roger Waters foi o principal letrista, além de ser peça essencial na composição das músicas, havia dúvida na continuidade da banda após a sua saída.

Em 1987 o Pink Floyd lança seu primeiro álbum sem Waters, "A Momentary Lapse of Reason". Richard Wright retornou à banda e as letras do disco foram feitas com a contribuição de escritores externos. Se anteriormente a banda era capitaneada por Roger Waters, após a sua saída David Gilmour é quem tomou o seu lugar, iniciando a "fase David Gilmour". Por conta disso, a guitarra melancólica e marcante, tão característica do músico, voltou a ter um papel importantíssimo. De fato, Gilmour comentou que Manson e Wright não tiveram grande contribuição no disco.

"The Division Bell", lançado em 1994, é um álbum extremamente importante na análise de "The Endless River", uma vez que o mais novo álbum da banda consiste na união de músicas que ficaram de fora de "The Divison Bell" (com algumas modificações). O disco de 1994 continua a fase David Gilmour dando bastante destaque para seus vocais e suas peças de guitarra. Porém, diferente do que aconteceu em "A Momentary Lapse of Reason", neste disco Richard Wright e Nick Manson tem mais participação. "The Divison Bell" faz referência aos sinos da divisão usados no Parlamento do Reino Unido quando há divisão de opiniões e consequentemente a necessidade de uma votação. O disco trata da dificuldade na comunicação, na necessidade de diálogo como resolução de conflitos, entre outros. A musicalidade da banda neste disco, apesar de diferente daquela vista nos grandes discos, é espetacular. A guitarra de David Gilmour com certeza merece destaque (vide a música "Marooned"), mas os teclados de Richard Wright também e a bateria de Manson também são relevantes. As músicas são menos progressivas, mais diretas e possuem menor duração, assim como ocorreu nos últimos álbuns da banda.

O Pink Floyd é citado como influência por inúmeras bandas: Queen, David Bowie, Nine Inch Nails, Radiohead, Dream Theater, The Mars Volta, Tool, Queensryche, 30 Seconds to Mars, Rush, entre tantos outros músicos e pessoas de dentro e fora do meio musical. Não é para menos. Como mostrado nesta contextualização, a banda foi responsável por criar um som completamente original e primoroso, além de possuir letras emblemáticas (anos iniciais), críticas e reflexivas (anos pós - The Wall). A identidade visual da banda, apresentada nos encartes e reforçada nos shows e filmes é também muito forte. Os shows ao vivo que fizeram na década de 80 e 90 são considerados até hoje alguns dos melhores do mundo, pois usavam todo o aparato tecnológico possível para entregar uma experiência completa à plateia. De forma genérica, a "experiência" Pink Floyd sempre foi ímpar e por isso é relembrada e aclamada até hoje.

O público sempre esteve na expectativa de uma reunião entre a última formação do Pink Floyd (Gilmour, Manson e Wright) e Waters. Entretanto, apenas em 2005 eles se reuniram em prol da causa do Live 8 (perdoar a dívida externa de países pobres e ajudar no combate à pobreza) numa única oportunidade. Quantias multimilionárias foram oferecidos para o grupo se reunir após o evento, mas todas as propostas foram negadas. Desde então, a esperança por uma reunião esteve aparecendo e desaparecendo repetidamente. Em ocasiões pontuais o Pink Floyd se reuniu sem Waters em shows de Gilmour. Infelizmente, em setembro de 2008 o tecladista Richard Wright faleceu vítima de um câncer, tornando o futuro da banda realmente incerto. Daí para frente, imaginava-se que dificilmente o Pink Floyd se reuniria ou lançaria material inédito. Em 2011, entretanto, os membros remanescentes da banda se uniram à Roger Waters em um show de sua turnê comemorativa do disco "The Wall", mais uma vez criando a esperança de uma reunião.

A reunião não aconteceu. Porém, na comemoração de 20 anos do disco "The Division Bell", ficou claro que a banda (Glimour e Manson) estavam revisitando os materiais desta época. Um clipe foi lançado para "Marooned" e o disco "The Endless River", contendo músicas de autoria de Gilmour, Waters e Wright gravadas durante as sessões de "The Divison Bell" foi anunciado. As letras são de autoria da mulher de Gilmour, Polly Samson (na verdade apenas uma música tem letras, "Louder Than Words"). Desta forma, espera-se que "The Endless River" siga os mesmos passos e temas apresentados em "The Division Bell". Dado que desde 1994 a banda não lança um álbum com músicas inéditas, há, desde esta época, uma ansiedade enorme dos fãs por qualquer novidade vinda da banda: seja uma reunião, material inédito ou mesmo uma aparição pública dos membros originais. É neste contexto que "The Endless River" foi anunciado, gerando gigantesca expectativa.

Foi com essa carga altíssima de expectativa que recebi nesta segunda-feira (10 de novembro) o pacote deixado na porta da minha casa com minha cópia de "The Endless River". A expectativa só aumentava quando coloquei o novo disco do Pink Floyd no meu som. Abaixo descrevo minhas impressões sobre ele. A edição que vou resenhar é descrita como "Deluxe Casebook Edition" e contém o CD, um Blu-Ray e vários materiais de apoio.

A primeira coisa que chama atenção em "The Endless River" é a beleza de sua capa. A arte criada pelo artista egípcio de 18 anos Ahmed Emad Eldin lembra muito os trabalhos de Storm Thorgerson, integrante do grupo de design Hipgnosis, responsável pelas mais marcantes capas do Pink Floyd. Algumas pessoas interpretaram que o homem remando nas nuvens faz referência à Richard Wright, dado que o disco é uma homenagem à ele. O aspecto visual da obra, não só da capa, é grandioso.

Ao abrir o case que continha todo o material do disco, fiquei realmente impressionado. Assim como trata o tema de "The Endless River", a forma com a qual eles se comunicarem vai além das palavras. Eu diria, inclusive, que vai além do som. O aspecto visual de toda a obra é belíssimo. Reafirmo o que disse no início da resenha: o Pink Floyd não lança nada irrelevante. As obras são completas.

Esta edição vem com um livreto de capa dura que contém várias fotos da banda nas sessões de gravação, além de informações sobre todas as músicas e as letras de "Louder than Words".

Há um cartão com um enigmático efeito em 3D.

Bela impressão de duas fotos: uma de Gilmour e Manson, outra criando duas silhuetas.

Além disso, o case contém as versões em CD e Blu-Ray do álbum.

O primeiro "lado" do disco (ele é dividido em 4 sides) começa com "Things Left Unsaid". Esta introdução apresenta o tema do disco, que seguindo a linha de seu antecessor, trata da comunicação entre pessoas. Algumas rápidas passagens de violão e o clima criado pelos teclados de Wright dão o tom do início do disco. "It's What We Do" é uma peça belíssima em que Nick Manson e Richard Wright criam uma atmosfera cheia de espaços vazios para a guitarra de Gilmour. Como esperado, a semelhança com a sonoridade de "The Divison Bell" se mostra muito forte. Um interlúdio chamado "Ebb and Flow" prepara o terreno para o segundo lado do disco com uma passagem de violão com efeitos.

O segundo lado do disco, contendo "Sum","Skins","Unsung" e "Anisina" é mais acelerado e cria um clima de tensão no ouvinte, mais uma vez com Wright e Manson preparando o clima e dando destaque para a guitarra de Gilmour. "Skins" lembra o antigo "A Saucerful of Secrets" e tem na bateria de Manson seu maior propulsor. "Anisina", última música do segundo lado, apresenta um clima menos melancólico e a primeira participação de Saxofone no disco.

O lado três começa com "The Lost Art of Conversation", o que cria uma interessante antítese entre o tema do álbum e as músicas propriamente ditas. Assim como em "The Divison Bell", o tema principal do álbum é a (falta de) comunicação entre as pessoas. Mas em apenas uma música há letras a serem cantadas. Muitas vezes, como sabemos, a comunicação não precisa ser falada. E o Pink Floyd se comunica muito bem com seus instrumentos.

"The Lost Art of Conversation" é uma pequena música (assim como as outras do lado três) que apresenta sons de chuva, canto de pássaros e dá destaque ao piano de Richard Wright. Em "On Noodle Street", a bateria de Nick Manson aparece em primeiro plano, junto com o baixo muito destacado de Guy Pratt. "Night Light" retoma o foco no violão com efeitos ecoantes de David Gilmour. O som de Gilmour realmente ecoa na sua cabeça enquanto toda uma atmosfera foi criada por Wright para que isso fosse possível. A quarta parte do lado três é a já conhecida (pois foi previamente lançada) "Allons-Y(1)". Música poderosa e dinâmica, nela estão destacados todos os instrumentos da banda. "Autumn '68" começa com um poderoso som de órgão, que depois é acompanhado pela guitarra de Gilmour, como se eles estivessem conversando. "Allons-y (2)" realmente retoma de onde "Allons-y (1)" parou, mais uma vez apresentando um passeio de Gilmour e Manson, principalmente. Aqui o som duplicado da guitarra de Gilmour cria um efeito muito interessante.

A sétima parte do terceiro lado chama-se "Talkin' Hawkin". Em "The Division Bell" o Pink Floyd usou sons do famoso cientista britânico que eles admitem terem ouvido em um comercial. O físico teórico é tão simbólico pois, apesar de ser uma das personalidades mais inteligentes do mundo, possui grandes problemas em se comunicar decorrentes da sua esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença que recentemente recebeu muita atenção. Um sistema de comunicação foi criado especificamente para que Hawking pudesse se comunicar, mostrando que embora que a comunicação seja um desafio para determinadas pessoas, ela nunca deixa de possuir papel fundamental em nossas relações. Assim como aconteceu no último álbum da banda, nesta música é possível ouvir trechos de Hawking falando com o uso do sistema supracitado.

O quarto lado do disco começa com "Calling". Em "Eyes to Pearls" Gilmour toca um violão solitário enquanto Manson e Wright mantém um clima dramático, resultando numa música muito bonita. Em "Surfacing" a guitarra de Gilmour soa poderosíssima quando é executada junto com os vocais de apoio.

"Louder Than Words" é a única música do disco onde há letras. Ela é cantada por David Gilmour e teve sua letra escrita por sua esposa, Polly Samson. Apesar de não sentir a necessidade disso, acredito que a música quebrou um pouco o clima mais subjetivo e progressivo do resto do disco, se tornando muito bem vinda para fechá-lo. A música trata, mais uma vez, de comunicação. Nela a ideia é que as vezes podemos nos conectar sem usar palavras, com instrumentos ainda "mais altos" que elas. "A soma de nossas partes, a batida de nossos corações, seu blues favorito, essa coisa que eles chamam de alma", tudo isso pode ser mais alto que palavras. A música é muito bem construída e mostra um belo vocal de Gilmour auxiliado pelos vocais de apoio, possuindo ainda um incrível solo ao melhor estilo do guitarrista. Essa excelente música fecha a quarta parte e a versão padrão do novo disco do Pink Floyd.

Na versão "Deluxe" há ainda 3 músicas extras: "TBS9", "TBS14" e "Nervana". "TBS9" tem um baixo muito forte que lembra "Set the Controls for The Heart of the Sun" e alguns efeitos de fundo. "TBS14" mantém o baixo forte e os efeitos, mas desta vez a guitarra de Gilmour ganha um destaque maior. "Nervana" foi uma belíssima surpresa. Os instrumentos giram em torno do riff "rock'n roll" criado por Gilmour. A música progride em torno do riff para um final altamente energético levado por um belo solo de guitarra. Certamente uma das melhores do disco. A música, apesar de extremamente interessante, talvez destoasse do resto do disco, motivo pelo qual deve ter sido lançada como bônus. Se você por acaso tem a versão padrão do disco, não deixe de tentar ouvi-la.

Nos extras do Blu-ray (que contém o álbum em alta resolução de áudio e material bônus) a banda disponibilizou vários vídeos das sessões de gravação da época (1993) e de hoje.

O vídeo da música Nervana mostra de forma bem humorada como ela foi gravada, em cenas como Gilmour tocando bateria e Nick Manson com uma fita na boca.

Há um vídeo chamado apenas de "Untitled" que apresenta cenas de uma jam entre os membros da banda. O vídeo de Anisina, de 2014, mostra fotos da época original da gravação e cenas de Gilmour tocando piano.

O vídeo de Evrika (A) é interessantíssimo, pois mostra o embrião da música "Wearing the Inside Out", que foi lançada no "The Division Bell". Apenas Gilmour e sua guitarra fazendo mágica. Em Evrika (B), ele ensaia a faixa com o resto da banda.

O material de apoio realmente engrandece a obra, pois com ele é possível conhecer e se familiarizar com o ambiente de gravação de "The Division Bell" e "The Endless River". As participações de Richard Wright nos vídeos são um presente à parte, pois infelizmente serão as últimas vistas dele com a banda. Assistir várias das músicas apresentadas nos dois álbuns ainda em fase de ensaio é realmente muito interessante e faz valer a compra da edição especial.

A experiência de ouvir um disco inédito do Pink Floyd acompanhado de todo o material de apoio que vem junto com ele é realmente única (e particularmente achei que eu nunca teria). Em poucas palavras, afirmo que vale muito a pena comprar esta versão do álbum.

Como afirmo na abertura da resenha, "The Endless River" é um álbum para aqueles que gostam de Rock Progressivo. As músicas se constroem com o tempo e não imediatamente, baseadas em uma atmosfera bastante familiar aos fãs da banda. O ouvinte deve assimilar o clima criado para cada parte do disco, pois o resultado em cada "side" é muito bom. Assim como foi feito nos primeiros discos da banda, o foco aqui não são as letras, e sim os instrumentos. Não senti falta de mais músicas cantadas, pois particularmente sempre achei o instrumental do Pink Floyd a sua arma mais forte. O disco pode sim ser divido em partes (4), mas é a sua audição seguida (sem "shuffle") que revela todo o seu potencial.

Quando ouvi o disco pela primeira vez, percebi que ele realmente faz parte do contexto de "The Division Bell", mas também que não se limita a isso. O disco possui uma personalidade própria. Como discorre seu tema central do disco, ele se comunica "mais alto que palavras" com as músicas instrumentais que apresenta. Não fica a impressão que são "restos" do "The Division Bell", o que me deixou muito feliz.

David Gilmour é considerado por muitos como um dos mais relevantes guitarristas de todos os tempos pela sua capacidade de criar material bastante simples, mas proporcionalmente fortes com sua guitarra. Em "The Endless River" não é diferente. Ele está muito inspirado, e pode se dizer o mesmo de Richard Wright e Nick Manson. O disco é uma bela homenagem à Richard e um grande presente aos fãs do Pink Floyd, que mais uma vez se deleitam com o som ímpar e muito característica da banda.

"The Endless River" é um álbum grandioso que tem todas as características de um disco do Pink Floyd e que se comunica muito bem (quase) sem a necessidade de vocais. Extremamente progressivo, ele é obrigatório para fãs do Pink Floyd e altamente indicado para, se me permitem, amantes de boa música. Não temos aqui um novo clássico no nível de "Dark Side" ou "Wish you Here", mas a possibilidade de se criar algo assim talvez tenha desaparecido quando Waters deixou a banda. Não obstante, "The Endless River" é um grande álbum que faz jus a história e a identidade do Pink Floyd e fecha de forma magistral a sua jornada.

Tracklist:

1. Side 1, Pt. 1: Things Left Unsaid
2. Side 1, Pt. 2: It's What We Do
3. Side 1, Pt. 3: Ebb And Flow
4. Side 2, Pt. 1: Sum
5. Side 2, Pt. 2: Skins
6. Side 2, Pt. 3: Unsung
7. Side 2, Pt. 4: Anisina
8. Side 3, Pt. 1: The Lost Art Of Conversation
9. Side 3, Pt. 2: On Noodle Street
10. Side 3, Pt. 3: Night Light
11. Side 3, Pt. 4: Allons-Y (1)
12. Side 3, Pt. 5: Autumn '68
13. Side 3, Pt. 6: Allons-Y (2)
14. Side 3, Pt. 7: Talkin' Hawkin'
15. Side 4, Pt. 1: Calling
16. Side 4, Pt. 2: Eyes To Pearls
17. Side 4, Pt. 3: Surfacing
18. Side 4, Pt. 4: Louder Than Words

Bônus:

1. TBS9
2. TBS14
3. Nervana

Nota: 9/10

Referências:

[1] "Pink Floyd: The Endless River - Listen", http://www.pinkfloyd.com/theendlessriver/listen
[2] "The Endless River", http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Endless_River
[3] "Pink Floyd", http://pt.wikipedia.org/wiki/Pink_Floyd
[4] "The Division Bell", http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Division_Bell
[5] "The Moon Has a Dark Side", Michael Bakich
[6] "Hipgnosis", http://www.aubreypowell.com/HIPGNOSIS.html


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