U2: Álbum é mais que um mero golpe de marketing
Resenha - Songs of Innocence - U2
Por Victor de Andrade Lopes
Fonte: Sinfonia de Ideias
Postado em 19 de setembro de 2014
Nota: 8 ![]()
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Analisar um álbum do U2 nunca é tarefa fácil, dada a particularidade do seu som. Quando a banda faz um lançamento surpresa então, nem se fala, pois o pobre crítico nem pode se preparar psicologicamente e pesquisar sobre o disco. Mas é preciso reconhecer a criatividade da manobra - apesar de esta não ter sido a primeira vez que um grande nome da música lança um álbum sem aviso prévio.
O disco foi gratuita e automaticamente colocado no iCloud de usuários do iTunes e, com isso, a banda acredita estar tornando o álbum imediatamente acessível a 500 milhões de pessoas, pouco mais que 7% da população mundial. É invasivo e exclusivista (quem não tiver nenhum aparelho da Apple, só vai achar o álbum baixando por aí mesmo), mas ao mesmo tempo simpático: "Ei, somos uma das maiores bandas do mundo, toma aí 11 faixas novas de graça. Abraços!"
Só o tempo dirá se foi um bom golpe de marketing. Até agora, sabe-se que, financeiramente, valeu a pena: pelo direito autoral das músicas, a Apple pagou a pechincha de US$ 100 milhões ao quarteto irlandês. Por outro lado, a ousadia em lançar o álbum desta maneira custará possíveis indicações ao Grammy e aparições na The Billboard 200 - pelo menos enquanto o álbum não for lançado comercialmente em outubro, uma vez que ambas as entidades não reconhecerão algo distribuído gratuitamente por aí na web.
Vamos à música. O disco foi divulgado como um trabalho "pessoal", que aborda temas como experiências da infância e juventude dos membros (daí o nome, que pode ser traduzido como "canções de inocência"). São letras altamente reflexivas e introspectivas, mas que parecem dialogar diretamente com os fãs, sem fechar a banda para um mundo só dela. Musicalmente, o disco é interessante, para dizer o mínimo. Aquelas velhas marcas registradas do U2 estão todas aí: a guitarra quase falante de The Edge, os ritmos marchantes de Adam Clayton e Larry Mullen, Jr. e os vocais tocantes de Bono.
Das cativantes "The Miracle (of Joey Ramone)" (faixa de abertura) e "Volcano" às lentas "Song for Someone" e "Iris (Hold Me Close)" (homenagem à mãe de Bono), a banda passa por vários humores no disco. Nenhuma das músicas tem aromas de que vai se revelar um grande destaque, um candidato a clássico do nível de "Sunday Bloody Sunday", mas existe uma coesão muito nítida que torna o disco como um todo um trabalho com potencial para virar artigo de destaque na discografia da banda.
Bono rejeitou o rótulo de álbum conceitual para Songs of Innocence, mas admite que há uma ligação entre as letras. Musicalmente, esta ligação também existe. Não que uma faixa emende na outra, mas este álbum parece ter sido preparado em uma única tarde de ensaios da banda, fruto de uma única onda de inspiração. Não importa que "Sleep Like a Baby Tonight", por exemplo, seja sonolenta e pareça ter saído do último álbum do Coldplay. Há um raciocínio instrumental proposto logo nos primeiros acordes e mantido no decorrer do álbum, com raras e bem-vindas quebras.
Uma curiosidade do álbum é que as músicas às vezes remetem a clássicos anteriores. A introdução de "Every Breaking Wave", por exemplo, apresenta uma melodia simples, serena e de pouca variação ao fundo que lembra a mesma melodia no início do hit "With or Without You". "Volcano" tem todo um clima e uma estrutura que a faz parecer uma "Vertigo - Part II". É como se a banda tivesse ouvido seus trabalhos antigos antes de fazer este - não para recriar alguma coisa, mas apenas para se inspirar.
As vendas do disco anterior, No Line on the Horizon, foram tão fracas que fizeram a banda refletir sobre sua própria relevância - e não estamos falando de uma banda qualquer. Com Songs of Innocence, os irlandeses parecem colocar fim a estas indagações. Resta saber agora qual será o legado deste trabalho: será lembrado apenas como "aquele álbum que o U2 deu de graça na net, tá ligado?" ou "aquele puta álbum bom do U2 que saiu de graça na net"? Pela qualidade apresentada (e nem poderíamos esperar menos, depois de um intervalo de cinco anos), dá para dizer que sim, o disco é mais que um mero golpe de marketing: é o lançamento que recoloca o U2 na parte mais alta da pirâmide do rock mundial - se é que um dia saíram de lá.
Abaixo, o vídeo de "The Miracle (of Joey Ramone)" sendo apresentada ao vivo no evento da Apple:
Track-list:
1 – "The Miracle (of Joey Ramone)"
2 – "Every Breaking Wave"
3 – "California (There Is No End to Love)"
4 – "Song for Someone"
5 – "Iris (Hold Me Close)"
6 – "Volcano"
7 – "Raised by Wolves"
8 – "Cedarwood Road"
9 – "Sleep Like a Baby Tonight"
10 – "This Is Where You Can Reach Me"
11 – "The Troubles"
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