Deep Purple: Não seja idiota de comparar Now What!? aos clássicos

Resenha - Now What?! - Deep Purple

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Por Vitor Bemvindo
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Nota: 7

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Não... Não me venha com esse papo: “Deep Purple sem Blackmore não é Deep Purple”. Se você pensa assim, você vive numa bolha. Steve Morse está na banda há quase vinte anos. Isso é muito mais do o Homem de Preto passou no Purple. Essa é uma opinião sem sentido. Também não me venha com esse historinha de “os novos discos dos caras não são como ‘In Rock’ ou ‘Machine Head’”. É óbvio que não são! Esses discos foram lançados há mais de quarenta anos, em outro contexto, no auge da criatividade da maior parte dos grandes artistas da história rock. Infelizmente essa época passou.
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Na hora de analisar um disco novo de uma banda antiga a coisa mais idiota que você pode fazer é querer compará-lo com os seus clássicos. Fazer isso é, no mínimo, uma covardia com os artistas. Nenhum deles é capaz de manter o nível de suas obras-primas em tudo o que faz. Nenhuma carreira é feita somente de obras-primas. Pablo Picasso fez “Guernica”, isso quer dizer que todo o resto que ele produziu é ruim?

Dito isso, acho prudente deixar claro que sou um grande fã da banda, inclusive dos trabalhos com Morse que, para mim, deu um novo vigor ao grupo a partir dos anos 1990. Antes disso, o que faziam com Blackmore depois do lançamento do ótimo (porém mal produzido, graças aos anos 1980) “Perfect Strangers” (1984) foi no mínimo óbvio, para dizer fraco (especialmente os discos “House of Blue Lights” (1987) e o lamentável “Slaves and Masters” (1990)). Assumir que as coisas não estavam dando certo com Blackmore foi corajoso e a escolha de Morse foi precisa. Além de ter melhorado o clima na coxia, fez com que a banda produzisse trabalhos que, se não são primorosos, fazem jus à trajetória da banda.

Então, para que se possa fazer uma análise minimamente justa é preciso definir como referencial de comparação não o que de mais sublime a banda fez, mas sim o que a banda tem feito depois que voltou a ativa nos anos 1980.

Na minha opinião, o Deep Purple vem atravessando uma mudança gradativa em sua sonoridade a partir do lançamento do disco “Bananas” (2003). Com a saída do finado Jon Lord – esse sim a grande referência da sonoridade do grupo –, os órgãos tão característicos do mestre vêm, aos poucos, ganhando a cara de Don Airey. A banda sabiamente não mudou essa característica de forma brusca, para não assustar os fãs mais xiitas. Ao sair, Lord deixou o mítico órgão Hammond com seu substituto para que isso não rompesse com uma tradição do Purple. É importante lembrar que a introdução das novas tecnologias nos anos 1980, fizeram com que a banda deixasse o Hammond um pouco de lado e isso teve um impacto devastador no som do grupo.

“Now What!?” é definitivamente o primeiro disco da banda sem Jon Lord. Apesar dos velhos companheiros terem dedicado a nova obra ao mestre das teclas de marfim, a influência de Lord é a menor já apresentada em um disco da carreira da banda. Em “Bananas” (2003) e “Rapture of the Deep” (2005), mesmo fora do Purple, a sonoridade de Lord permanecia ali com força. Em “Now What!?”, Airey imprimiu, enfim, sua personalidade ao trabalho da banda.

Isso certamente será encarado por alguns como algo negativo. Prefiro encarar isso como algo ousado. Seria muito mais cômodo para os coroas ficar se repetindo para o resto dos seus dias. Não foi esse o caminho escolhido.

Essa nova banda se evidencia em boa parte das faixas, sendo muito perceptível principalmente em faixas como “Weirdistan”, “Uncommon Man”, entre outras. A marca de Airey está evidente, em especial, em “Out of Hand” e “Vicent Price”, faixa sombria que nos remete ao seu trabalho com Ozzy Osbourne em “Mr. Crowley”.

O velho Purple, no entanto, ainda está ali em trechos de “Après Vous” (um dos destaques do álbum), nos solos de “A Simple Song” e “Body Line”, para se ater a alguns exemplos.

Muitas das viúvas do Purple setentista apontam para a morte do grupo por conta também das transformações na voz de Ian Gillan. Isso é um fato: não esperem os agudos de “Child in Time” no novo trabalho da banda. Cobrar isso de Gillan seria no mínimo uma sacanagem com um senhor de 67 anos. A voz de prata talvez agora seja apenas de bronze, mas ela está longe de estar acabada. Gillan tem aprendido cada vez mais lidar com as novas características de sua voz. “Now What” é sem dúvida o seu trabalho vocal mais sóbrio, e mesmo com todos os recursos tecnológicos ao seu favor, pode-se dizer que o coroa está muito bem no álbum.

O mesmo não se pode dizer, no entanto, de Steve Morse. Esse é sem dúvida o seu trabalho menos inspirado com o Deep Purple. Não chega a ser decepcionante, já que o guitarrista traz alguns riffs interessantes, especialmente em “Body Line” e “Après Vous”. Porém, os solos são pouco criativos e seguem uma receita que o excelente guitarrista tem trazido como marcas registradas de seus trabalhos dentro e fora da banda. Há talento em Morse para incursões mais transgressoras.

Todas essas características serão pratos cheios para os profetas do apocalipse purpleano. Alguns deles terão razão em suas críticas negativas. Realmente, “Now What!?” não é um trabalho de encher os ouvidos. Mas também está longe de ser o trabalho que levará a banda ao seu fim. O espírito criativo do grupo segue aceso e eu, sinceramente, prefiro ver o Deep Purple produzindo álbuns desse nível do que não ter mais a oportunidade de ouvir novos trabalhos da banda.

“Now What!?” tem uma audição bem agradável, mesmo sendo claramente inferior ao que a banda fez de 1996 para cá. Mas se você achar o álbum ruim, recomendo que se farte com as porcarias que a indústria fonográfica enfia lhe goela abaixo o tempo todo. Eu prefiro ficar com os coroas.

Vida longa ao Purple!

01. A Simple Song
02. Weirdistan
03. Out Of Hand
04. Hell To Pay
05. Body Line
06. Above And Beyond
07. Blood From A Stone
08. Uncommon Man
09. Apres Vous
10. All The Time In The World
11. Vincent Price
12. It Will Be Me (Bonus Track)

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Sobre Vitor Bemvindo

Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.

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