Ritchie Blackmore aponta os piores músicos para trabalhar; "sempre alto demais"
Por Bruce William
Postado em 27 de dezembro de 2025
Ritchie Blackmore ficou marcado pelo trabalho no Deep Purple e no Rainbow, mas a história dele sempre teve uma segunda trilha correndo em paralelo: a curiosidade por música antiga, especialmente a Renascença. Ele fala desse fascínio como uma coisa antiga, de infância, e diz que acabou indo atrás de instrumentos e timbres que o levassem para esse clima, em vez de ficar só no "mundo da guitarra" de sempre.
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O detalhe é que o interesse pela música renascentista não significou, necessariamente, simpatia pelo ambiente em torno dela. E, mesmo sendo um cara conhecido por atritos em banda, ele apontou outro tipo de convivência como particularmente desgastante: a de tocar ao lado de músicos com formação clássica, em contexto de orquestra.
Na entrevista de 2018 à Guitar World, Blackmore descreveu esse circuito como excessivamente acadêmico. E colocou a coisa de um jeito bem direto, como se o rock fosse o lugar para escapar do "manual de boas maneiras" musical: "O mundo da música renascentista pode ser meio acadêmico. É por isso que eu acho que as pessoas vão para o rock and roll. Dá uma fuga de toda essa escolarização - do que é 'certo' e de como 'deveria' ser."
No meio desta lembrança, ele puxou Jimmy Page para a conversa, citando a época em que o guitarrista fazia muitos trabalhos de estúdio. Blackmore disse: "Eu lembro do Jimmy Page se metendo em encrenca quando ele fazia muitas sessões. Ele disse algo como 'músicos clássicos odeiam música'. Eu acho que foi aí que ele decidiu largar o trabalho de estúdio e entrar no Yardbirds, porque todos os músicos clássicos nas sessões em que ele tocava não gostaram do que ele disse sobre eles."
A partir daí ele explicou por que, para ele, essa convivência era a pior parte: o clima de má vontade e a implicância permanente com volume, mesmo quando ele tentava se conter. "Sempre que eu fiz qualquer coisa com uma orquestra, eu me vi lidando com muita gente com um 'peso no ombro'. Para eles, você está sempre alto demais, por mais baixo que toque."
Blackmore ainda especulou um motivo bem pé no chão para essa implicância: dinheiro e ressentimento. A leitura dele é que existe, em parte, uma bronca de ver artistas do rock ganhando muito mais do que músicos "puristas" treinados, e isso vaza para a relação no palco. E ele deu um exemplo concreto: quando participou do Concerto for Group and Orchestra com Jon Lord, em 1969. Disse que estava com um Vox pequeno, mas posicionado perto dos violinistas, e que dava para ver que "eles odiavam cada nota" porque estava alto demais para o padrão deles. Para piorar, ele contou que tinha um trecho para improvisar algo como 24 compassos - e acabou se estendendo para muito mais, o que bagunçou a volta da orquestra e aumentou o clima de caos.
No fim das contas, fica uma ironia bem "Blackmore": ele gosta da música antiga, gosta do clima dos séculos 1400-1500 e do som desses instrumentos, mas não engole a etiqueta e a patrulha que ele associa ao ambiente acadêmico. O rock, com todos os seus problemas, pelo menos não começava a conversa com um "você está alto demais" antes do primeiro acorde.
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