Em 29/06/2013 | Resenha - Avantasia (HSBC Brasil, São Paulo, 29/06/13)

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Resenha - Avantasia (HSBC Brasil, São Paulo, 29/06/13)

Por Fernando Araujo Del Lama

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E a Metal Opera itinerante fazia mais uma parada em terras tupiniquins! Dessa vez, por causa de ser única apresentação, se via uma porção de vans e ônibus nos arredores do HSBC Brasil, trazendo fãs para lotar a casa. E este objetivo foi cumprido. A cidade cinza, é verdade, os recebeu com chuva, mas nada que atrapalhasse o andamento natural das coisas para ver Tobias Sammet e seus asseclas.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Eu juro que me esforcei, mas ainda não consegui entender uma coisa: sábado à noite, os caras prometiam um show de 3 horas de duração. A organização tem duas opções: ou marcava o show mais cedo, tendo em vista que a maioria das pessoas não costuma trabalhar até tarde aos sábados, ou marcava o show para as 22h, fazendo com que o show terminasse depois da 1h, o que obrigaria os representantes do “proletariado metaleiro” – nos quais eu me incluo – a vender um rim para pegar um táxi, tentar a sorte com os ônibus-corujões ou ficar no posto até o sol nascer. Evidentemente, a segunda opção foi a escolhida. Lobby dos taxistas? A mais pura imbecilidade dos organizadores? Ou apenas falta de sensibilidade? Um mistério... claro que infinitamente menor do que o “The Mystery of Time” para o qual fomos até lá, mas que poderia ser facilmente evitado com um pouco de esforço e planejamento.

Mas falemos do show. Pontualmente às 22h, as luzes se apagaram e teve início “Also Sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, inspirada num livro homônimo de Friedrich Nietzsche, o filósofo do niilismo. A platéia gritava alto – tão alto que às vezes até encobria a intro, o que mostrava que de niilista ela não tinha nada, mas pelo contrário, ela sabia muito bem o porquê de estar ali. “Spectres”, excelente faixa inicial, como no álbum, também deu início ao show; excelente porque direta, enérgica, sem muitos rodeios, mostrando logo para o que veio, com Tobias muito bem nela. Em seguida, veio “The Watchmaker’s Dream”, com primorosa participação – aqui e ao longo de todo o set – de Oliver Hartmann, com seu timbre lembrando, em alguns momentos, Jorn Lande.

Na sequência, Bob Catley, o primeiro dos convidados – se é que ele ainda pode ser chamado de convidado – adentra ao palco para cantar a música que, em minha opinião, tem o mais belo conjunto “ponte + refrão” de todo o projeto, a saber, “The Story Ain’t Over”. Na sequência, veio “The Great Mystery”, que por ser longa, acabou não empolgando. Um detalhe interessante de se notar é a interpretação, digna de Malhação, de Bob Catley, que gesticulava e indicava partes do corpo que se aproximavam do que era cantado nas letras.

Quando as primeiras notas de “Prelude” soaram, era o anúncio daquele que seria o grande momento da noite para muitos ali presentes: a entrada de Michael Kiske para cantar “Reach Out For The Light”. Kiske dispensa comentários: sua voz soa cristalina – “o mais próximo”, disse alguém certa vez, “da voz de um anjo que alguém poderia chegar”. A próxima, ainda com Kiske no palco, foi “Breaking Away”. Tobias, ao montar o setlist, me pareceu fazer escolhas bastante precisas, preservando a maioria dos clássicos e abrindo espaço para composições mais recentes, sem deixar de percorrer todos os discos da banda. No entanto, ele me pareceu ter se equivocado na disposição de algumas músicas, talvez pela própria mudança do set europeu para o set latino-americano.

Tobias convoca, então, o backing vocal Thomas Rettke – posicionado até então, de maneira inusitada, ao lado de Amanda Somerville, e recebendo, junto dela, rajadas de vento para sensualizar com os cabelos esvoaçantes! – para cantar a próxima sozinho. A pesada “Scales of Justice” foi a escolhida. E o cara destruiu tudo! Que voz poderosa tem aquele sujeito com cara de bom rapaz! Visceral e áspera, soava como centenas de facas saindo de suas entranhas e adentrando diretamente aos nossos ouvidos... e o maluco ainda corria de um lado para o outro do palco, fazendo parecer fácil esgoelar daquele jeito!

A fim de acalmar um pouco os ânimos, a próxima foi “What’s Left of Me”. Eric Martin tem aquele “je ne sais quoi” que só os vocalistas nascidos e criados na terra do Tio Sam têm, aquela malícia que consegue transmitir doçura ao mesmo tempo. Embora eu soubesse que seria bastante improvável, eu gostaria de ter ouvido Eric Martin cantar “Alone I Remember”, uma das músicas do projeto que combinam com sua voz. Mas um Eric Martin empolgado chamou “Promised Land”.

Na sequência, “The Scarecrow” e “Shelter From the Rain”, do álbum “The Scarecrow”, o album mais completo do Avantasia, a releitura metálica do mito fáustico que seria, com toda a certeza, aprovada por Goethe e Thomas Mann se eles estivessem entre nós. Um belo dueto entre Sammet e Catley ganhou forma em “In Quest For”, seguida da poderosa “The Wicked Symphony” – na qual Tobias se ausentou novamente, deixando espaço para seus convidados brilharem. Tobias retorna para cantar a bela “Lost in Space” e depois recebe a companhia de Eric Martin para a execução de “Savior in the Clockwork”, que em minha opinião teria ficado melhor se tocada logo no início do show – devido ao contexto do álbum – ou depois de “Promised Land” – devido a participação de Eric. “Stargazers”, com excelente performance dos músicos, veio na sequência, seguida de brincadeiras de Eric com a dupla de guitarristas – Oliver Hartmann e Sascha Paeth, com sua camiseta homenageando Frank Zappa – como forma de aquecimento para “Twisted Mind”, com coro da platéia acompanhando o riff e Eric fazendo as vezes de Roy Khan. Uma vez mais, Eric se torna novamente o centro das atenções, faz piadas, declama Shakespeare (ou Fakespeare, como eles mesmos brincam), antes de fechar primeira parte do set com “Dying for an Angel”.

A platéia cantava absurdamente alto o refrão de “Avantasia”, quando os músicos retornam para a execução de um encore formado apenas por clássicos dos primeiros albums. A primeira, “Farewell”, foi a responsável por desmascarar e mostrar a hipocrisia que há em todo metaleiro: toda a casa – inclusive os mais “truezões”, que odeiam a priori as baladas – acompanhou Felix Bohnke no movimento com os braços levantados. Tobias e Amanda – que agrada aos ouvidos e aos olhos também – fizeram um belo dueto nessa. Em seguida, Michael Kiske nos brinda com um belo discurso em agradecimento a Tobias por tê-lo reinserido na cena, exaltando a benevolência do amigo. Emocionante! Depois vieram “Avantasia”, com o refrão cantado em uníssono, e “The Seven Angels”, que flerta em alguns aspectos com o progressivo e, por isso, foi executada magistralmente. Por fim, após a já tradicional apresentação dos músicos, o hino “Sign of the Cross” foi executado com todos os que participaram do espetáculo no palco.

Devido à grandiosidade do projeto, ela não permite que se saia em turnê com todos os convidados de um mesmo álbum, quem dirá de vários. Trata-se, pois, de uma banda eminentemente de estúdio, que se aventura em turnês sem a completude de seu esquadrão, mas levando seus principais – e talentosos – membros. Evidentemente, o fã mais exigente estranhará um pouco em ouvir, por exemplo, “Twisted Mind” com a voz despojada de Eric Martin no lugar da seriedade e frieza psiquiátrica de Roy Khan. E o que dizer do insubstituível Mephistopheles de Jorn Lande? Veja bem: eu adoro o Eric Martin – aliás, eu acordo todos os dias ao som de “Undertow”, o som do despertador de meu celular –, e não estou dizendo que não gostei, mas achei a abordagem diferente, quase outra música. E esse é meu ponto: é justamente essa busca de cada convidado por sua autonomia interpretativa, aliada a seu inegável talento, evitando, enfim, imitar o que está registrado no álbum, que constitui o sucesso das turnês do Avantasia. Quer dizer: em que outra banda, por exemplo, seria possível imaginar uma música gravada por Alice Cooper ou por Jon Oliva e tocada ao vivo por Kai Hansen, como ocorreu aqui mesmo em 2010? Se pararmos para pensar, nós dispomos praticamente de duas bandas: uma que toca ao vivo e uma que grava no estúdio. E como bem frisou Tobias durante alguns momentos do show, aquele era o Avantasia 2013: para os fãs mais ortodoxos, existe o álbum para curtir e o show para reclamar; para nós, fãs espertos, digo abertos, além de curtir a banda que grava o álbum, podemos curtir, do mesmo modo, a banda que toca nos shows. Se houver coincidência entre as duas, bom para todo mundo!

Avantasia:

Tobias Sammet – vocal
Oliver Hartmann – guitarra e vocal
Sascha Paeth – guitarra
Andre Neygenfind – baixo
Felix Bohnke – bateria
Miro Rodenberg – teclado

Vocalistas convidados:

Amanda Somerville
Bob Catley
Eric Martin
Michael Kiske
Thomas Rettke

Setlist
1. Spectres
2. The Watchmakers’ Dream
3. The Story Ain’t Over
4. The Great Mystery
5. Prelude
6. Reach Out For The Light
7. Breaking Away
8. Scales of Justice
9. What’s Left of Me
10. Promised Land
11. The Scarecrow
12. Shelter From The Rain
13. In Quest For
14. The Wicked Symphony
15. Lost in Space
16. Savior in the Clockwork
17. Stargazers
18. Twisted Mind
19. Dying for an Angel

Encore:
20. Farewell
21. Avantasia
22. The Seven Angels
23. Sign of The Cross

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