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Marcelo Nova: o importante é a jornada, não o destino

Resenha - Marcelo Nova (Jack Music Pub, Bauru, 17/03/2012)

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Por Xande Capitão
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Bem próximo do final da viagem, já chegando de volta à São Paulo, Marcelo Nova olhou pra mim e disse “pena que você sempre escreve sobre os shows, e acaba não pra falando sobre essas viagens, não conta sobre as coisas que acontecem e falamos”. Imediatamente me veio à mente aquele pensamento “o importante na vida é a jornada e não destino”, mesmo não lembrando à quem sua autoria é atribuída. Sem perceber ele mudou minha concepção sobre como iria escrever sobre o show.

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Eram 14 horas e a van saía numa viagem de aproximadamente 330 km em direção à Bauru, onde Marceleza se apresentaria no Jack Music Pub. Ainda na marginal Pinheiros, passamos em frente à uma casa de shows e contei que no domingo anterior estive ali assistindo ao show do Bob Sponja com minha filha. Marcelo rebateu lembrando que já levou as filhas dele num show dos Menudos. Enquanto todos ainda riam das nossas mazelas paternas, ele disparou “já comprei os ingressos para vir assistir ao Bob Dylan nessa casa de shows”. E com essa frase acabou por silenciar à todos por alguns instantes.

Drake Nova pediu que o motorista da van colocasse pra tocar um CD com a gravação do show que haviam realizado duas semanas atrás em Santa Catarina. A audição acabou funcionando para a banda como o que no futebol talvez chamariam de “treino tático”. “Nessa música coloca a guitarra assim”, “marca essa passagem”, “mais pra frente”, “segura”, “chuta pro gol”. Antecipando muito do que aconteceria na passagem de som e na apresentação daquela noite. Se entendendo de maneira impecável, ilustrando o nível que esses jovens músicos atingiram tocando juntos, e como se integraram à concepção do seu “maestro”. E todos se divertindo muito ao escutar o próprio som, como se ouvissem Litlle Richard pela primeira vez. E da-lhe “air guitar”, “air drum”, “air bass”, “air keyboard”... Deu até falta de “air”. A jornada estava apenas no início.

A trilha sonora mudou, mas o nível se manteve. E ao som de jazz chegamos à Bauru. Check in no hotel, e a banda foi para a passagem de som.

Já tive oportunidades de assistir à algumas passagens de som, mas com Marcelo Nova o que impressiona é a intensidade. Voltando ao futebol, com ele não existe a máxima “jogo é jogo, treino é treino”. Cada acorde é uma dividida pra quebrar a perna do atacante. Marcelo interpreta as canções em gestos e expressões como se estivesse diante do seu público. Ao ouvir as notas das próprias canções inicia uma espécie de transe, vivenciando o mundo das suas palavras.

Enquanto os ossos estalavam e tudo era ajustado, uma outra coisa me chamou a atenção. Além do talento de Marceleza, Drake, Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria), os instrumentos e acessórios que esses caras utilizam elevam ainda mais o nível da sonoridade da banda. Um deleite para quem pesquisa e se aprofunda no mundo dos timbres. Marcelo Nova com sua Gibson Chet Atkins Custom Shop, Drake Nova com um set de pedais que inclui Cry Baby, Talk Box e Fuzz Face, Leandro com um Fender Jazz Bass 1967, e Célio com uma das suas caixas, parte de um set up pessoal com cerca de 20 unidades dos mais importantes fabricantes de caixa do mundo. O que mais se pode dizer sobre isso? The sound is there!

Jantar e banho. Era hora do show.

Chegamos ao Jack Music Pub pouco depois da meia-noite, e a banda subiria ao palco uma hora da manhã. Antes disso, um susto. Pra quem pensa que a vida na estrada só encontra buracos “na estrada”, foi num desnível do próprio palco que Célio sofreu uma séria torção de tornozelo. E com fortes dores mancou em direção à bateria, e junto com Drake e Leandro, introduziu “Faça a Coisa Certa”. Mr. Nova subiu ao palco sob os gritos de “Bota pra fudê”, e retribuiu com o show que seus súditos esperavam.

“Ninguém Vai Sair Vivo Daqui” do seminal álbum “Galope do Tempo”, veio seguida de “Cocaína”. “Gotham City” trouxe de maneira incidental o tema do seriado Batman dos anos 60, que trazia um barrigudo Adam West no papel do homem morcego. E esse belo show ia seguindo.

Dois dos destaques da noite vieram em sequência. “Ainda Não Está Escuro”, registrada ao vivo no “Grampeado em Público Vol. I”, acrescentou dramaticidade. E uma das minhas canções favoritas “Bomba Relógio Ambulante”, da caixa “Tijolo na Vidraça”, teve Drake fazendo seu riff com o Talk Box . O trecho da letra “tenho evitado estranhos, pois ninguém é mais estranho que eu” é uma espécie de mantra pra mim.

Um calcinha foi atirada ao palco por uma garota que tinha uma tatuagem da hair band Cinderella na perna. Por um segundo pensei que estivéssemos na Sunset Strip, famoso point do hard rock americano. Mas era Bauru, era Marcelo Nova. A divertida e polêmica “Ela Me Trocou Por Jesus” fez todos cantarem, mesmo sendo a primeira vez que boa parte do público a ouvia.

Outro destaque foi “Tudo ou Nada”. Belíssima canção do “Correndo o Risco”, e que poucas vezes foi executada ao vivo, e para nossa sorte vem sendo lembrada nos shows mais recentes. E depois de 2 horas de rock ´n roll em seu estado mais autêntico, era hora da extrema unção. “Pastor João e a Igreja Invisível” foi o hino escolhido para fechar as cortinas. Ao final, Marcelo cantou o refrão “mas eu transformo água em vinho, pão em pedra, cuspe em mel, pra mim não existe impossível, Pastor João...”, deixando o complemento para a platéia, e seguiu rumo à escada que levava ao camarim. Mas ele voltou, “mas eu transformo água em vinho, pão em pedra, cuspe em mel, pra mim não existe impossível, Pastor João...”, e fez isso por 5 vezes, divertindo à todos e encerrando mais um grande show de sua carreira.

Já no camarim recebendo os fãs para fotos e autógrafos, o que impressionava era a quantidade de LP´s que o pessoal de Bauru levou para Marceleza autografar, o que não é tão comum hoje em dia.

Sono rápido, banho. Era hora de ir embora.

Do iPod de Mr. Nova o jazz ganhou os ouvidos enquanto a van ganhava a estrada. As canções iam se sucedendo e Marcelo sempre perguntando se conhecíamos, e explicando sobre o que tocava. A viagem se transformou em uma aula sobre música. Como é bom ter a oportunidade de aprender com quem se dedica e pesquia um assunto de maneira tão profunda. Num determinado momento somente Marceleza e eu estávamos acordados, além do motorista da van (assim espero...), e até rimos disso. Não tardou e ele mandou “Jenny, Jenny” de Little Richard. Como ele sempre lembra que “Here´s Little Richard” foi seu primeiro disco, acabei pensando alto “o começo de tudo, certo?”. Ele respondeu falando sobre o impacto que o rock teve no mundo, e que a explosão foi tão forte nos grandes centros que até um “estilhaço da granada” o atingiu na lá na Bahia.

Bem próximo do final da viagem, Jimi Hendrix tocava “Manic Depression”, Marcelo Nova olhou pra mim e disse “pena que você sempre escreve sobre os shows, e acaba não pra falando sobre essas viagens”. Desculpe, Marcelo, mas mudei de idéia. O importante em acompanhar sua carreira é a jornada e não destino.

Set List
Faça a Coisa Certa
Ninguém Vai Sair Vivo Daqui
Cocaína
Gotham City
Poeira No Chão
Carpinteiro do Universo
Ainda Não Está Escuro
Bomba Relógio Ambulante
Eu Não Matei Joana D'arc
Estranho no Ninho
Ela Me Trocou Por Jesus
A Ferro e Fogo
Quando Eu Morri
Tudo Ou Nada
Rock n' Roll
Hoje
My Way
Pastor João e a Igreja Invisível

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