Em 27/03/2011 | Resenha - Iron Maiden (HSBC Arena, Rio de Janeiro, 27/03/11)

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Resenha - Iron Maiden (HSBC Arena, Rio de Janeiro, 27/03/11)


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A essa altura a vergonha ocorrida durante a noite de ontem no Rio de Janeiro já não é mais novidade. Porém, através desse artigo, eu pretendo apresentar os fatos sob uma outra perspectiva: a perspectiva da repórter responsável pela cobertura carioca do evento para o Whiplash!, que por pouco não foi pisoteada, uma vez que estava exatamente na grade quando ela cedeu.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Eu sinceramente gostaria de estar tomando meu café agora resenhando mais um show que poderia concorrer a melhor no meu ranking pessoal, mas, dessa vez, venho tristemente detalhar toda a série de acontecimentos frutos de uma irresponsabilidade sem tamanho que acabaram por culminar no adiamento do show.

Desde o início da noite, eu já pude perceber que a (des)organização do evento parecia ser um tanto inexperiente, uma vez que dificultva o acesso dos fãs ao show. O primeiro motivo foi a escolha do local. Em São Paulo, minha cidade natal, as pessoas costumam reclamar quando shows acontecem em casas como o Credicard Hall ou HSBC Hall, por causa da enorme distância que a maioria tem que percorrer para chegar aos lugares. Queridos paulistanos, acalmem-se: existe um local que bate todos os recordes nesse quesito, e ele é exatamente o HSBC Arena, no Rio, onde aconteceria o show do Iron Maiden. Acreditem se quiser, mas levamos, de carro, UMA HORA para nos deslocarmos do bairro do Flamengo até a arena. Parece pouco para os paulistanos que estão acostumados com o trânsito caótico de São Paulo, mas é MUITO para um percurso sem qualquer tipo de engarrafamento em uma cidade onde quando você dirige a menos de 80 por hora, fica sujeito a uma saraivada de buzinas e faróis altos. Tenho dó de quem não conhecia o Rio tão bem quanto quem estava comigo no carro, pois, com certeza, a galera oriunda de outras cidades teve o tempo de seu percurso dobrado.

Finalmente lá, os problemas estavam para começar. O quase descaso com a imprensa me deixou boquiaberta. O carioca é maravilhoso no que diz respeito a bom humor e gentileza, mas quando o assunto é prestação de serviços, a displicência é a palavra chave. Acreditem ou não, mas ninguém sabia me informar onde era a retirada de credenciamentos para a imprensa. Os integrantes da staff não raro me respondiam com um `Olha, eu acho que deve ser em tal lugar`. Não preciso nem dizer que isso é simplesmente inadmissível, né? Depois de um trabalho digno de jornalismo investigativo, descobri o local, mas preferia não acreditar no que eu estava ouvindo. A retirada acontecia em outro portão, há exatamente UM QUILÔMETRO da bilheteria/retirada de ingressos. Quando cheguei lá, os seguranças do estacionamento não me deixaram entrar porque ‘não conheciam’ o site. Depois de um tom de voz mais elevado da minha parte, me mandaram para o local de distribuição de credenciamentos. Depois de algum tempo na fila, finalmente era minha vez: fui informada de que ali era apenas para convidados e que eu teria que caminhar mais um bom tanto para chegar ao credenciamento de imprensa. Meu problema resolvido, agora é hora de contar o descaso para com os fãs. E QUE descaso!

A fila para a entrada das pessoas na casa, chegou a se extender por aproximadamente 600 metros perto da hora do show. Isso mesmo ‘a’ fila: era apenas uma para a entrada em todos os setores. Independentemente se você tinha ingresso de pista normal ou premium, cadeiras de nível um ou três, você entraria por esse mesmo portão que dava acesso às 15 mil pessoas, que entravam uma de cada vez. Se os fãs não tivessem se apressado e quebrado e derrubado os labirintos feitos com grades de ferro, tenho certeza que até agora de manhã ainda teriam pessoas entrando no local com esse ritmo absurdo. E quando digo isso, não estou exagerando. Falei com um número grandíssimo de pessoas que tinham plena certeza de que o show de abertura, da banda Shadowside, não havia acontecido. Elas chegaram tão tarde no local que nem viram o palco dessa banda ser desmontado e ficaram surpresas quando eu disse que havia sim acontecido o show.

Desnecessário dizer que isso é vergonhoso. Uma banda que abre um show desse porte busca visibilidade, Mas como ter visibilidade se apenas 20% da casa estava cheia? Apesar disso, eles fizeram uma apresentação excelente, para um público não tão grande, mas fiel, que agitou e vibrou a cada minuto do show. Esse tipo de coisa, infelizmente, acontece com freqüência, mas destaco aqui, porque é algo que precisa ser remediado.

Às 20h30, horário previsto para o início do show do Iron Maiden, e MILHARES de fãs ainda nem tinham conseguido entrar nem pegar seus ingressos de internet. Sorte que, como toda ‘boa’ produção brasileira, o show atrasou e muito. Na pista, comigo, estavam pessoas de todos os lugares: apenas ao meu redor, pude conversar com gente de várias outras cidades do Rio, com outros paulistanos como eu, com mineiros e até com uma argentina. Mal sabiam eles o que estava por vir. Na verdade, acho que sabiam sim. Depois de tanta desorganização, todos tinham uma intuição de que algo a mais não daria certo naquela noite. Não esqueço de um momento em que falei para um amigo comprar uma camisa do show com aquele típico ‘Eu fui!’ nas costas, e ele replicou ‘Eu não, está tudo uma baderna tão grande, que nem posso ter certeza de que verei mesmo o show’. Ele, sem saber, estava certo!

Imagem

"Doctor Doctor" começou e eu, velha guerreira de shows, não senti o esmagamento típico de início de show. Por incrível que pareça, as pessoas não estavam empurrando tanto, nada anormal para um show de metal. Eu já peguei grades de show MUITO piores que aquela. Ou seja, se a porcaria da grade explodiu, não foi por culpa de alvoroço ou tumulto nenhum, mas sim, por falha gravíssima na infra-estrutura da arena.

Bruce preocupado durante "The Final Frontier"

Quando soou o primeiro acorde de “The Final Frontier” a grade simplesmente cedeu, quebrou. A multidão acabou sendo empurrada pra frente, totalmente, e os poucos fotógrafos ali só não foram esmagados por causa dos seguranças que tentavam empurrar as pessoas para trás novamente. Eu estava lá e não tenho nenhum orgulho em dizer isso. Quando vi que a grade já não suportaria ninguém, dei alguns passos para trás e comecei a me preparar para o pior, pensando em estratégias para ‘escapar’ se o pior acontecesse: o medo de ser pisoteado passou na cabeça de todo mundo, sem exceção, que estava ali na primeira fila. A alguns metros de mim, à direita, as pessoas começaram a subir umas nas outras e então a se apoiar no palco, tentando subir nele para não serem fatalmente pressionadas. A banda continuava a tocar, porque se parassem bruscamente, a reação talvez pudesse ser mais forte, mas Bruce Dickinson mal cantou o primeiro verso, e, depois disso, se preocupava em falar para as pessoas irem para trás e em tentar avisar alguém da produção, pois via que os seguranças já demonstravam não ter mais forca alguma para segurar com suas próprias uma multidão de quase 8 mil pessoas. Eu e outros fãs gesticulávamos para o Steve Harris parar de tocar, numa tentativa desesperada de parar com aquela situação horrível, que se não fosse controlada COM CERTEZA causaria mortes ou pelo menos ferimentos graves.

Quando a música terminou, Bruce, visivelmente preocupado, disse que tínhamos que nos acalmar e que eles voltariam em dez minutos. As pessoas, depois disso, tentavam dar um passo para trás, o que era difícil, porque muitas das pessoas que estavam nas pistas, mais para trás, ainda não tinham entendido que a grade cedera, porque ninguém havia avisado no microfone. Por isso, começaram a empurrar, meio que em protesto.

Steve Harris parando de tocar

Os seguranças conseguiram fazer uma corrente humana à frente da primeira fila e assim foi possível que algumas pessoas da produção tentassem consertar o estrago. Aliás, até Fábio Buitvidas, baterista da banda Shadowside, se juntou à equipe e começou a dar marteladas na grade. Depois disso, eu não esperava mais nada daquela noite.

Bruce e tradutora anunciando adiamento do show

Bruce Dickinson em uma atitude digníssima de destaque mostrou todo seu profissionalismo e foi ao palco com uma tradutora. A banda poderia muito bem ter simplesmente decidido cancelar o show, o que seria totalmente compreensível frente a tanta desorganização. Mas não, o vocalista, sabendo que poderia encarar qualquer tipo de protesto, foi ao palco explicar a solução encontrada para o problema. Mesmo dentre um coro forte de vaias (não para ele nem para a banda, obviamente, mas sim para a situação lamentável à qual a má produção do evento fez o público se submeter), Bruce conseguiu explicar que por questões de segurança, eles não poderiam prosseguir com o show e explicou que no dia seguinte, no mesmo horário, todo mundo poderia conferir a apresentação. Nesse momento, todos se revoltaram. E quem trabalha na segunda? E quem veio de outra cidade dependendo de van e hospedagem em hotel? Segundo a produção, eles ‘darão um jeito’ nisso.

Produção tentando consertar grade

Não somente o prejuízo financeiro deixou toda uma multidão abatida, mas também a frustração. Foi de dar dó ver os headbangers cabisbaixos andando com suas camisas do Iron Maiden pela cidade. Foi de dar dó ver uma massa enorme de pré-adolescentes que iriam realizar o sonho de ver a banda pela primeira vez ligando para seus pais irem buscá-los. Foi de dar dó ver uma cidade tão maravilhosa ser palco para uma das maiores vergonhas da cena.

15 minutos depois da queda da grade

Agora, gostaria de expor uma série de reflexões que fiz.
As conseqüências desse desastre épico não serão apenas financeiras, mas também morais. Apesar de a prefeitura do Rio fazer um governo bom, pelo menos às vistas de quem visita o local, a cidade não estava preparada para um show desse porte. E isso demonstra uma falha de âmbito nacional, e não apenas do Rio de Janeiro. Temos todo o mérito do pré-sal, mas ainda temos gente que passa fome. Temos Barack Obama falando bem do país, enquanto tem gente dormindo na rua. Temos capacidade de fazer três edições geniais do Rock in Rio, mas falhamos em fazer um show de porte menor. Isso me faz pensar que o Brasil é um país de fachada. Tudo parece lindo visto de longe, mas na verdade, as entranhas são falhas, fracas e inexperientes.

Sei que em São Paulo o show ocorreu sem maiores problemas e isso é ótimo, mas devemos lembrar que o nosso país será sede de uma Copa do Mundo e de Jogos Olímpicos em breve. Em muito breve, antes mesmo que possamos sanar todos esses problemas de infra-estrutura, falta de planejamento, e, em algumas vezes, falta de inteligência mesmo. Estamos mesmo preparados para eventos tão grandes? Estamos mesmo preparados para dizer ao mundo que estamos em desenvolvimento? Estamos mesmo prontos para assumir que podemos resolver problemas de solução não tão complexa? Convido vocês a pensar e ficarei feliz em ouvir argumentos que discordem do meu pensamento, para me deixar uma pouco mais confortada.

A repercussão disso será mundial e disso eu tenho certeza, uma vez que vi membros da staff do Iron Maiden fotografar toda aquela situação horrorosa. E não os culpo, porque para eles aquilo é novo! Boto minha mão no fogo para dizer que tenho certeza de que eles nunca haviam visto aquilo antes. Mas para mim, essa repercussão não será a pior. Já me acostumei com a idéia de o país sempre fazer feio no cenário internacional.

O que mais me dói é a repercussão negativa que isso vai gerar para a cena. Para as pessoas que virem isso na TV e não entenderem a raiz do problema, isso só vai ser mais uma confirmação do velho estigma que recebemos de ‘roqueiro vândalo, drogado e violento’. Se eu estivesse de fora, não pensaria duas vezes em julgar, porque, dessa vez, os produtores fizeram por onde.

Aliás, esse é um grande problema. A cena precisa ser levada mais a sério. Todo mundo fala que a cena no Rio de Janeiro é decadente e quase extinta e agora eu posso entender o por quê. Agora eu entendo os bangers daqui. Se a cada vez que um show fosse acontecer, o descaso com os fãs, a desorganização e adiamento e cancelamentos fossem comuns, eu teria que ser (assim como o underground sobrevivente do Rio é) muito apaixonada para suportar e relevar tudo isso.

Mas agora vem meu apelo a todos que lerem isso. Faz um bom tempo que esquecemos algo essencial. Assim como qualquer outro, um show também é um produto. Se compramos algo que não está bom, temos o direito de reclamar e exigir um melhor. Por que diabos não fazemos isso com os shows? Não denunciamos, não protestamos, não fazemos abaixo-assinados. Pelo preço que as pessoas pagam pelos shows, deveríamos ter um serviço de primeira. Mas não, engolimos qualquer revés que venha a acontecer quase que naturalmente.

Gostaria de lembrar que a grade que estourou foi a grade da pista VIP. Que serviço VIP é esse? Eu não concordo nem nunca concordei com a invenção desse setor. Acho que os preços são criminosos, uma vez que não condizem com a alta do dólar ou com a inflação – estão sempre acima de ambos. Essa pista também é quase discriminatória, porque priva fãs que não tem muitas economias de ver sua banda predileta de perto, e cada vez mais se expande: um amigo meu que gravou o discurso do Bruce deu um ângulo amplo da pista que revelou que a pista VIP estava MAIOR que a pista normal. Mas, vendo pelo lado de quem pagou 400 reais pelo ingresso, acho inadmissível que o show tenha sido adiado por conta de uma medida tão básica que não foi tomada.

Enfim, espero ter colocado os fãs para refletir sobre algumas coisas que vem acontecendo e relatado fielmente o que aconteceu na grade do show de ontem. Apesar de milhares que não poderão comparecer hoje devido a motivos pessoais e de todo o transtorno que vivemos nas últimas horas, tenho certeza que o show de hoje a noite será compensador. Afinal, concertos inesquecíveis é o que o Iron Maiden sabe fazer melhor.

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