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Rolling Stones: O periodo de excessiva festança já passou

Resenha - Rolling Stones (Giant Stadium, New Jersey, 15/09/2005)

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Por Márcio Ribeiro
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Há algumas coisas que quero comentar sobre esse show dos Rolling Stones, realizado no Giant Stadium, localizado em Rutherford, no estado de Nova Jersey, e que faz parte do complexo conhecido como The Meadowlands, que engloba ainda um hipódramo como tambem uma arena. A primeira coisa que vem à mente é o absurdo teorico de os membros desta banda iniciada em 1962 ainda estarem tocando juntos. Especialmente se considerar como a imagem dos mesmos sempre foi ligado a, digamos, comportamento excessivo durante os momentos de recreação.

Fotos: Sven Hoogerhuis (show da tour anterior)

Sim, a galera sempre foi festeira e em seu tempo, ditaram as regras para o slogan drugs, sex & rock ‘n’ roll! No entanto o periodo de excessiva festança já passou. A banda toda está bem mais serena uma vez que todos os quatro integrantes restantes já passaram dos 60 anos de idade. Hoje, no lugar de festas e badalações tanto antes quanto depois dos shows, vemos, por exemplo, Mick Jaggers mais interessado em mandar seus emails para os netos, Ron Wood serenamente comendo um prato de comida macrobiótica em seu camarin com sua esposa, e Keith Richards tomando chá. E eu me refiro ao clássico chá inglês, não chá de trombeta. Charlie Watts, que se tornou famoso por evitar tumultos e ficar desenhando quieto em seu quarto, agora é capaz de tirar um cochilo sentado em uma cadeira qualquer. A idade pesa, principamente quando se faz as contas e conclui-se que somando as idades dos quatro integrantes, chega-se a quase 300 anos. Se adicionar o quinto Stone, o coroa do grupo Bill Wyman, que já deixara a banda década passada, passaríamos dos 350.

Apesar de engraçada, toda esta constatação em relação ao peso da idade e sua reação neste grupo voa pela janela quando a banda sobe no palco. O pique dos Rolling Stones na última canção da noite é o mesmo que na primeira. Não sei se guardam balões de oxigênio atrás do palco onde antigamente guardavam trilhas de cocaína, mas a verdade é que os Rolling Stones em 2005 é uma banda para se assistir ao vivo se você gosta de rock n’ roll bem tocado, bem apresentado.

Eu sou testemunho ao ver Mick Jagger dar um pique de uma ponta de um longo palco até a outra extremidade, durante a última canção da noite, depois de quase duas horas de show. Ele correu com um rítmo e agilidade que eu não conseguiria, somente para continuar dançando como fazia antes, agora para o deleite do público deste lado das arquibancadas. Aos 62 anos, Mick Jagger dança, bate palmas, conversa e agita a galera como sempre fez. Sua voz continua inteira durante todo o show e as canções continuam expressões artisticas fortes e significativas quando ele as interpreta. Está certo que ele têm a ajuda agora de uma cantora e um cantor de apoio, mas ficou claro também neste show que Jagger sozinho ainda segura com faciliade sua parte.

Seu comparsa Keith Richards também estava admirável; e conhecendo a vida deste indivíduo, há de se admirar que ele ainda esteja vivo. Este ex-viciado em heroína, que mal conseguia ficar em pé e nunca conseguia se lembrar das letras de suas próprias canções, muito menos ter voz para cantá-las, agora canta duas canções suas com uma voz que se pode finalmente ouvir e entender. E mais, canta as duas canções, uma atrás da outra. É impressionante observar a diferença neste artista, agora com o corpo e a mente livres do tóxico, conseguindo nitidamente participar de sua propria existência. Keith Richards continua tocando muito bem, embora isto quase nunca foi afetado por seus abusos, porém se percebe ele mais presente no momento do que ao vê-lo nos antigos filmes de excursões da década de setenta e oitenta.

Charlie Watts como sempre fica escondido atrás de sua bateria, como ele gosta, quase nunca falando coisa alguma. É o típico caso do cara que entra quieto e sai calado. Andou extremamente doente não muito tempo atras, com câncer na garganta, e foi um prazer perceber que ele está bem. Na bateria, ele continua tocando sem demonstrar nenhuma dificuldade e aguentou com aparente tranquilidade suas duas horas no palco.

Outro que vem sofrendo da saúde nestes ultimos anos é Ron Wood, o caçula da turma. Um alcoólatra nada anônimo, Wood vem lutando para deixar a bebida e seu organismo vem reclamando um bocado pela ausência do álcool no sangue. Vive à base de uma dieta macrobiótica e largou vários, se não todos os antigos vícios (ainda fuma uma barbaridade). Sobre a sua fatia do espetáculo, fico feliz em poder dizer que nunca ouvi Ron Wood tocar tão bem. Com o sangue aparentemente limpo, e com a cabeça desembaçada, Ron Wood vem firulando nos solos sem tirar a cara das canções mais clássicas. Tanto que eu o achei o melhor músico da noite.

O repertório abre com "Start Me Up", fecha com "Satisfaction" e depois tem duas canções como biz, fechando a noite com "It’s Only Rock n’ Roll". Uma surpresa foi um cover para "Night Time Is The Right Time", uma homenagem que a banda faz a Ray Charles. Fiquei com impressão, porém, que a banda poderia fazer uma versão melhor, se deixassem de lado o coro e ficassem só com a banda que estava soando muito bem sozinha. O gesto de fazer tal cover foi de bom gosto e caiu muito bem com a platéia.

Outra surpresa, foi o segundo palco, onde a banda tocou quatro faixas bem pertinho do público. Trata-se de um palco menor tirado do palco maior, que sobre trilhos, é levado até o meio para o final do estadio, deixando o publico atônito repentinamente tendo a banda tão mais perto. Tocaram no palco menor, "Miss You", "Oh No, Not You Again", "She's So Cold", e "Honky Tonk Woman".

O repertório contou com cerca de quatro canções do novo álbum, que mesmo medianas no album, funcionaram bem ao vivo. O grosso do show são os classicos, algumas versões melhores do que outras. Devo dizer que não ouvi nenhuma musica ruim ou mal tocada no show. Mick Jagger trocou de roupa apenas duas ou três vezes enquanto Keith Richards trocou de guitarra quase a cada canção.

Enfim, um excelente show! Recomendo a todos que estão ou planejam a visitar os Estados Unidos neste ou no próximo mês. E passe adiante a mensagem, os Rolling Stones ao vivo continuam valendo a pena.

Repertório:

1. Start Me Up
2. You Got Me Rockin
3. Shattered
4. Tumbling Dice
5. Rough Justice
6. Ruby Tuesday
7. Heartbreaker
8. Night Time Is The Right Time (Ray Charles)
9. Worst
10.Infamy

Palco menor:

11.Miss You
12.Oh No, Not You Again
13.She's So Cold
14.Honky Tonk Woman

15.Out of Control
16.Sympathy for the Devil
17.Jumping Jack Flash
18.Brown Sugar
19.Satisfaction

Bis
20.You Can't Always Get What You Want
21.It's Only Rock n Roll


Stamp
Tunecore
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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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