Ray Wilson: Um investimento audaz que só podemos aplaudir
Resenha - Ray Wilson (Via Funchal, São Paulo, 15/04/2005)
Por Thiago Sarkis
Postado em 15 de abril de 2005
O anúncio da turnê sul-americana de Ray Wilson foi repentino e certamente surpreendeu tanto aos admiradores de sua carreira solo quanto aos fãs de Genesis. Os trabalhos da última voz da banda britânica praticamente não têm repercussão no Brasil e as críticas em relação a ele, dos tempos ao lado de Mike Rutherford e Tony Banks, são fortíssimas, especialmente pela velha guarda, ardorosos seguidores de Peter Gabriel e / ou Phil Collins. Enfim, trazê-lo foi um investimento audaz que só podemos aplaudir.
Chegando à Via Funchal na hora marcada para o início da apresentação tive a sensação de que a ousadia acabaria mal. Olhando para os lados não encontrava praticamente ninguém; e duas ou três mesas cheias seriam lamentáveis para um artista de tal garbo. Felizmente, desta feita, não só o músico atrasou, como também a platéia. Ainda chegava gente quando o tecladista Irvin Duguid abria a noite com "Firth Of Fifth", seguindo com a clássica "The Lamb Lies Down On Broadway". Por sinal, que começo!
Usualmente o escocês inclui diversas releituras do Genesis em seu repertório, contudo, dificilmente, além da América do Sul, qualquer outro lugar do mundo ouviu tantas composições do legendário conjunto executadas ao vivo pelo seu terceiro vocalista. Os nomes Gabriel, Collins, Banks, Rutherford, Hackett, não paravam de vir à mente; praticamente participaram vivamente do show com tantas inferências brilhantes ao passado grandioso que construíram.
Para se ter uma idéia da quantidade de material dos mestres do rock progressivo no show em São Paulo, das vinte e quatro músicas tocadas, quinze foram provenientes de obras relacionadas ao Genesis, incluindo-se duas das carreiras solos de Peter Gabriel e Phil Collins, respectivamente "Biko" e "In The Air Tonight".
A maioria das canções manteve um patamar semelhante ao das originais, o que já é incrível, devido à qualidade dos trabalhos. Contudo, algumas versões chegaram até a superar as antigas. Tiradas do álbum "We Can’t Dance" (1991), "I Can’t Dance" e "No Son Of Mine" reluziram como nunca dantes. A primeira por uma pegada mais pesada, e a segunda pela levada leve e o refrão emotivamente acompanhado pelo público.
Surpreendentes também ficaram "Ripples" de "A Trick Of The Tail" (1976), "I Know What I Like (In Your Wardrobe)" de "Selling England By The Pound" (1973), "Carpet Crawlers" de "The Lamb Lies Down On Broadway" (1974) e "Land Of Confusion" de "Invisible Touch" (1986). Para os apreciadores do CD gravado pelo cantor ao lado de Rutherford e Banks, "Calling All Stations" (1997), valeram muito as execuções das boas "Not About Us" e "Shipwrecked".
Sair infeliz de um espetáculo como esse é tarefa árdua pra Diogo Mainardi algum colocar defeito, mas o fato é que a sensação de falta é irremediável para aqueles que conhecem Wilson desde a banda Stiltskin e de "Guaranteed Pure", seu primeiro disco solo, de 1990. Apenas nove músicas de um caminho tão rico quanto o traçado por ele? É muito pouco.
Após esta contemplação de carisma e interpretação máximos no Brasil, que encerre-se a negligência a este performático músico, dono de uma vez poderosa e cheia de variáveis. Esperançosamente "Inside", "Goodbye Baby Blue", "The Actor", "Along The Way", "Change", e a arrepiante "Alone", abrirão os olhos de uma facção cética que até então ignorava Ray Wilson.
AGRADECIMENTOS: Miriam Martinez
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