A música pela qual Brian May gostaria que o Queen fosse lembrado
Por Bruce William
Postado em 20 de maio de 2026
Antes de "Bohemian Rhapsody", o Queen ainda parecia uma banda tentando convencer o mundo de que não era apenas uma mistura de influências chamativas. Havia peso, harmonia vocal, teatralidade, guitarra trabalhada, piano, drama e um certo gosto pelo exagero. O problema era transformar tudo isso em uma identidade reconhecível. Em 1975, no álbum "A Night at the Opera", essa resposta veio em menos de seis minutos - embora, na época, muita gente achasse que seis minutos eram uma eternidade para um single.
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A música escrita por Freddie Mercury parecia uma aposta impossível para rádio: começava como balada ao piano, passava por uma seção operística cheia de vozes sobrepostas, explodia em hard rock e voltava para um encerramento quase resignado. Não havia refrão tradicional, nem uma estrutura fácil de vender para programador de rádio. Mesmo assim, "Bohemian Rhapsody" foi lançada como single em 31 de outubro de 1975 e chegou ao primeiro lugar no Reino Unido, onde ficou nove semanas no topo da parada.
Brian May vê a faixa como algo maior do que um sucesso. Para ele, "Bohemian Rhapsody" resume muito do que o Queen queria ser. "Ela encapsula muito do que somos, do que fomos e do que era o nosso sonho. Há muitas facetas na música do Queen. Nós entramos em muitas áreas acreditando que poderíamos inovar. 'Bohemian Rhapsody' tem muito conteúdo", disse o guitarrista, em fala recuperada pela Far Out.
A força da música está justamente nessa mistura que poderia ter dado errado. O Queen não queria ser apenas uma banda pesada, nem apenas um grupo pop, nem uma imitação glam de algo que já existia. May lembraria que o grupo cresceu ouvindo rock and roll nascer e queria levar adiante aquela sensação de novidade. Little Richard, Buddy Holly, Elvis Presley, Jeff Beck, Led Zeppelin e Black Sabbath aparecem nesse mapa de referências não como peças coladas, mas como parte de uma ambição: pegar o que havia de excitante no rock e construir algo próprio.
May explicou essa ideia ao falar sobre o sonho inicial da banda: "Tínhamos um sonho de que seríamos compositores. Seríamos criadores. E por baixo de tudo isso haveria algo muito imponderável, emocionante, pesado e desafiador." A frase combina com "Bohemian Rhapsody" porque a música não é pesada do começo ao fim, mas carrega uma densidade incomum. Ela muda de forma várias vezes e ainda assim continua soando como uma única peça, não como um monte de partes costuradas às pressas.
Outro detalhe importante é que o Queen não tratava técnica meramente como um enfeite. Roger Taylor já observou que, para fazer uma música como aquela funcionar, "você realmente precisava ser bom no seu instrumento". Mas a técnica não aparece apenas para exibir habilidade. As harmonias vocais, o solo de May, a entrada da banda na parte pesada e a dinâmica entre delicadeza e teatralidade servem ao efeito geral. O virtuosismo está lá, mas a música não vira aula de conservatório com figurino de rock.
Com o tempo, "Bohemian Rhapsody" virou uma espécie de cartão de visitas definitivo do Queen. Sobreviveu a mudanças de geração, voltou às paradas em diferentes momentos e se tornou uma música conhecida até por quem nunca ouviu um álbum inteiro da banda. Isso também pode ser uma armadilha, porque uma canção tão famosa às vezes vira monumento e perde o estranhamento original. Mas, quando se olha para 1975, ainda dá para perceber o risco: uma banda querendo colocar ópera, hard rock, balada e humor dramático dentro de um single.
Por isso a escolha de Brian May faz sentido. "Bohemian Rhapsody" não resume todo o Queen, porque nenhuma música sozinha conseguiria fazer isso. Mas mostra o impulso central da banda: tentar algo maior, mais estranho e mais teatral do que o esperado, sem abrir mão da melodia. Se alguém quisesse entender por que o Queen não queria ser "o novo" qualquer coisa, essa seria a faixa certa para começar.
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