A música que David Gilmour usou para fazer o Pink Floyd levantar voo novamente
Por Bruce William
Postado em 21 de maio de 2026
"Learning to Fly" já entrega a metáfora no título, mas David Gilmour não estava falando apenas de avião. Quando o Pink Floyd lançou "A Momentary Lapse of Reason", em 1987, a banda precisava provar que ainda existia sem Roger Waters. Não era pouca coisa. Waters havia sido a principal força conceitual do grupo nos anos anteriores, especialmente em "The Wall" e "The Final Cut", e sua saída abriu uma disputa sobre o próprio direito de continuar usando o nome Pink Floyd. A pauta é da Far Out.

Gilmour decidiu seguir. Com Nick Mason ao lado e Richard Wright voltando ao círculo, ainda que inicialmente sem o mesmo status formal de integrante pleno, o Pink Floyd entrou em uma nova fase. O disco não tinha como escapar das marcas dos anos 80: produção grandiosa, teclados, bateria com aquele som da época e um acabamento que hoje soa bem diferente da textura mais orgânica dos clássicos dos anos 70. Mesmo assim, "Learning to Fly" cumpriu uma função importante: apresentar ao público uma banda que tentava sair do chão outra vez.
A canção também tinha um sentido literal para Gilmour. Ele estava aprendendo a pilotar aviões, e a letra brinca com essa experiência física de sair do solo, lidar com instrumentos, medo, altitude e sensação de liberdade. Mas ele próprio explicou que havia outras camadas ali: "'Learning to Fly', pelo aspecto espiritual, é sobre o Pink Floyd criando asas novamente, assim como eu criando asas novamente, e todo tipo de coisa. E aprender a voar, claro, fisicamente. Então há vários níveis nisso."
Essa leitura faz diferença porque a faixa não é apenas um single bem colocado no começo do álbum. Ela funciona quase como uma declaração de sobrevivência. O Pink Floyd vinha de "The Final Cut", um disco muito ligado ao universo de Waters e carregado de clima pesado. Em "Learning to Fly", Gilmour parecia buscar outro tom: menos acerto de contas, mais movimento. Não exatamente uma alegria descontrolada, mas uma tentativa de respirar sem pedir autorização ao antigo comandante.
A gravação de estúdio divide opiniões até hoje. Há quem veja "A Momentary Lapse of Reason" como um disco mais próximo de um trabalho solo de Gilmour com o nome Pink Floyd na capa, e essa crítica não surgiu do nada. A banda precisava reconstruir uma identidade sem uma de suas peças centrais, e Bob Ezrin ajudou a dar ao álbum uma cara muito ligada ao período. O resultado pode soar datado em alguns momentos, mas a música ganhou outra vida nos palcos, especialmente na turnê registrada em "Delicate Sound of Thunder."
Ao vivo, "Learning to Fly" parecia menos presa ao verniz de estúdio. A guitarra de Gilmour respirava melhor, a banda tinha espaço para crescer, e a canção funcionava como uma ponte entre o passado enorme do Pink Floyd e aquele presente cheio de desconfiança. Não era "Echoes", não era "Shine On You Crazy Diamond", não era "Comfortably Numb". Era outra coisa: um recomeço tentando convencer a si mesmo enquanto convencia o público.
Roger Waters não poupou críticas à continuidade do Pink Floyd sem ele, e é compreensível que parte dos fãs tenha visto aquela fase com reservas. Mas a história seguiu. "A Momentary Lapse of Reason" colocou a banda de volta às arenas, "Learning to Fly" virou um dos símbolos daquela retomada, e Gilmour mostrou que não pretendia deixar o nome morrer em uma disputa de bastidores.
Talvez a música não tenha a profundidade dos grandes momentos da fase clássica, mas carrega uma cena clara: um homem tentando pilotar, literalmente e musicalmente, uma máquina pesada depois de uma ruptura. E, naquele instante, era isso que o Pink Floyd precisava fazer. Não resolver toda a própria história em uma faixa, nem apagar a ausência de Waters, mas tirar as rodas do chão sem despencar logo depois.
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