Quando o Genesis foi longe demais na ousadia; "Não esqueçam que a gente não era os Beatles"
Por Bruce William
Postado em 06 de maio de 2026
Quando o Genesis entrou em 1972 para fazer Foxtrot, a banda já vinha empurrando o rock progressivo para territórios cada vez mais ambiciosos, mas ainda não estava numa posição confortável o bastante para achar que qualquer ousadia seria automaticamente compreendida. O disco saiu em 15 de setembro daquele ano, virou o quarto álbum de estúdio do grupo e trouxe "Supper's Ready", faixa de quase 23 minutos que acabaria se tornando um dos grandes monumentos do prog. Na época, porém, aquilo estava longe de parecer um risco seguro.
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Anos depois, Steve Hackett resumiu muito bem esse clima de incerteza ao falar sobre a recepção do álbum. Segundo ele, em fala resgatada pela Far Out, havia um misto de confusão e excitação, mas sempre com a sensação de que o Genesis estava andando em terreno perigoso. A frase mais direta veio quando comparou o momento da banda ao de gigantes que podiam se dar ao luxo de esticar a corda um pouco mais: "Não esqueçam que a gente não era os Beatles".
A observação mostra que o medo não era exatamente comercial no sentido mais rasteiro, mas o de o público simplesmente não acompanhar a viagem. E a viagem em questão tinha nome claro: "Supper's Ready". Dentro de "Foxtrot", a música aparecia como uma peça labiríntica, cheia de seções, mudanças de clima e imagens quase apocalípticas, bem diferente da ideia de canção mais convencional. O próprio histórico do álbum reforça isso. Parte do material vinha sendo trabalhada ao vivo e outra parte nasceu em jams e experimentações durante o verão europeu de 1972, até desembocar nessa suíte que se tornaria a faixa mais longa já lançada pelo Genesis em estúdio.
A graça é que, olhando hoje, parece quase inevitável tratar "Supper's Ready" como obra central da fase clássica do grupo. Só que, naquele momento, nem a banda sabia se aquilo seria recebido como genialidade ou excesso. Hackett chegou a aproximar essa ansiedade do temor que os Beatles teriam sentido ao empurrar seus próprios limites em discos ambiciosos do fim dos anos 60, com a diferença óbvia de que o Genesis não tinha o mesmo tamanho cultural para bancar uma eventual rejeição. Era um passo ousado dado por uma banda em ascensão, não por um fenômeno já consolidado.
Também vale lembrar que "Foxtrot" surgiu num ponto delicado da trajetória do Genesis. O grupo vinha crescendo com "Nursery Cryme", ganhando terreno em festivais e no circuito britânico, mas ainda estava longe de ser unanimidade. A turnê do álbum seguinte ampliou a visibilidade da banda e ajudou a fixar "Foxtrot" como uma virada importante. Mesmo assim, o impacto disso tudo só foi se consolidando com o tempo.
Dá para ouvir em "Foxtrot" uma ponte entre o Genesis ainda muito ligado à teatralidade e ao folk elétrico da fase anterior e o grupo que, pouco depois, faria de peças longas e estruturadas um de seus cartões de visita. "Supper's Ready" não foi apenas mais uma faixa extensa: ela ajudou a provar que o Genesis podia sustentar uma arquitetura musical enorme sem perder identidade. E isso, para uma banda que ainda se perguntava se tinha ido longe demais, era bastante coisa.
No fim, o risco compensou. "Supper's Ready" virou uma das composições mais reverenciadas do rock progressivo, "Foxtrot" passou a ser visto como um dos álbuns-chave do gênero, e aquela sensação de que o Genesis talvez estivesse exagerando acabou se transformando em uma de suas maiores forças. Hackett tinha motivo para desconfiar. Só não tinha como saber, naquele momento, que a música que parecia complicada demais acabaria ajudando a definir a grandeza da banda.
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