Musicabillia: os últimos da fila - a morte retratada no Rock
Por Fernando Pazzini
Fonte: Musicabillia
Postado em 31 de março de 2013
Por causa do falecimento de uma tia querida, essa semana fiz um programa que há muito não fazia. Velório, cemitério, parentes, pessoas conhecidas e estranhos que não se encontram, exceto nessas horas.
Minha educação e meu pequeno conhecimento espiritualista me ensinam que velórios deveriam ser lugar de respeito, com mais reflexões e menos bate-papo. Procurando ficar mais no meu canto, me pus a pensar na famosa Dona Morte e o por que de nós, seres desse planetinha aqui, termos tanto medo dessa senhora. A verdade é que, apesar de diversas teorias sobre a danada, ninguém voltou pra contar como é que é lá do outro lado. Ou se pelo menos existe o outro lado. Ateus, crentes, católicos, espíritas, evangélicos, islâmicos, budistas... ninguém sabe ao certo o que esperar após a casquinha apodrecer e a pilha acabar. Por isso, acredito eu que, apesar da certeza que um dia ela vai bater na sua porta ou te mandar um SMS, ficam sempre as perguntas: Pra onde vamos? O que tem do outro lado? Quem vou encontrar?
Artistas em geral são pessoas de sensibilidade mais aguçada. Durante a história da humanidade, poetas, escritores, pintores e compositores sempre nos deram sua interpretação dessa infame passagem e, na grande maioria, sempre expressaram as mesmas dúvidas e temores que temos ainda hoje.
Na música, desde os primórdios, e principalmente no rock, não é diferente.
E não falo aqui apenas do representante mais óbvio, o heavy metal - o filho bastardo, o mais feio e mais barulhento e ainda assim, um dos mais amados da prole do velhinho rock and roll.
Desde os tempos do blues do Delta, passando pelos góticos e o new wave, e chegando até os extremos do death metal, a morte sempre esteve presente nas letras e temas de canções de várias referências e subdivisões do estilo.
O antepassado blues, com toda sua lamentação, tratava a morte e o sofrimento como uma punição para pecados cometidos, geralmente por causa de uma mulher ou um amor não correspondido. No final dos anos 60, o malucaço Jim Morrison escancarava as portas de sua sanidade com discursos de amores perdidos e mórbidas poesias, embalado por LSD, heroína, e tudo mais que o levasse mais depressa dessa para a melhor. No início dos anos 70, o Black Sabbath celebrava suas missas sonoras e invocava a morte e o sobrenatural, regados a sombrios riffs de guitarra; o fanfarrão Alice Cooper nos brindava com sanguinários shows e sugestivos títulos de álbuns e músicas ( "Killer", "Dead Babies", "I love the dead"); Page e Plant, do já consagrado Led Zeppelin, flertavam abertamente com o oculto, a alquimia e os magos. Os punks do final da década e os pós-punks do início dos anos 80, embutiam em sua revolta e rebeldia anti-sistema uma enorme frustração com a vida que levavam, quase que venerando a morte como consequência lógica de sua filosofia.
Mas foi com aquela já mencionada e pesada vertente do rock, perpetualizada a partir de 1980, que menções honrosas, citações, canções inteiras e títulos de álbuns homenagearam essa misteriosa e fascinante senhora. Nas guitarras cortantes e nas letras realistas do Judas Priest, nos escuros becos londrinos e nos personagens macabros retratados pelo Iron Maiden, nas épicas batalhas travadas pelo Saxon, e até na irresponsabilidade juvenil do "Live fast, Die fast" vindo do outro lado do Atlântico com os californianos do Motley Crue, a dona morte tornou-se o principal tema a ser encenado no teatro mundial do metal pesado. Dali pra frente, vários outros continuaram a venerá-la: Metallica, Slayer, Death Angel, Megadeth, Death, só pra citar alguns poucos.
Mas ninguém conseguiu retratar a morte de maneira tão sutil e inteligente do que um tal de Ronald James Padavona, um pequeno grande cara também conhecido como Ronnie James Dio.
Desde seu reinado inicial no Rainbow, passando pelo Black Sabbath, e estendendo à sua homônima DIO, o homem da montanha prateada abordou as dúvidas, os questionamentos e dualidades existentes no universo, nos presenteando com pérolas como "A light in Black", "Rainbow in the dark", "Heaven and Hell", "The last in line", "Mystery", "After All", pra citar algumas. Liderando o Heaven and Hell e ainda no auge de sua carreira, descobriu-se um mero mortal, encarou frente a frente o dragão da enfermidade, lutou de pé e gritou na cara da morte até seu último suspiro.
"Too many flames with too much too burn
And life's only made of paper..."
Over and Over - Black Sabbath
Quem de nós rockeiros, quando crianças perdidas, não desenhou um crânio em seu caderno , não colou um poster do mascote Eddie em seu quarto e não se vestiu de preto ... Quem de nós, rockeiros ou não, nunca se sentiu no céu e no inferno da adolescência, não quis matar e morrer por um amor não correspondido... Quem de nós, acadêmicos adultos ou eternos beberrões, na calada da noite ou na correria do dia, nunca se perguntou, discutiu, ou se enlouqueceu pensando nela.
Por isso mesmo ela seja tão popular. Sempre nas notícias. Famosa, sorrateira, incontestável e certeira.
E quando ela chegar, aí sim. Vamos saber pela primeira vez se somos divinos ou se somos diabólicos. Nessa hora, nós somos os últimos da fila!
"We'll know for the first time
If we're evil or divine
We're the last in line"
The Last in Line - DIO
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A música do Queen que Freddie Mercury considerava melhor que "Bohemian Rhapsody"
Vocalista do Moonspell sobre tradução literária: "É mal pago, mas adoro"
A origem de "Por Quem os Sinos Dobram", que une Raul Seixas e Metallica
As 25 melhores bandas de todos os tempos, segundo a Classic Rock
Bangers Open Air divulga as primeiras atrações da edição 2027
Os 25 melhores discos de gothic metal de todos tempos, segundo a Louder
Show do Kiss deu origem a uma das maiores bandas da história do thrash metal
Com mais de 40 atrações, Monsters of Rock Cruise fecha cast para viagem de 2027
Edu Falaschi lança "MI'RAJ", capítulo final de sua trilogia conceitual
O político que iniciou a decadência do Rio de Janeiro, segundo Paulo Ricardo
Tarja Turunen lança "Frisson Noir", disco mais pesado da sua carreira solo
As bandas clássicas e nem tanto que estarão no novo game dos criadores do Guitar Hero
Dia dos Namorados: 4 cantoras de Metal e Hard Rock e suas histórias de amor
A opinião de Mike Portnoy sobre o primeiro show da nova baterista do Rush
Anika Nilles conta como aprendeu partes de Neil Peart para turnê com o Rush
Elektra Mustaine capricha no português e canta Vanessa da Mata; "Kiko me ensinou!"
O álbum clássico cuja arte já era ruim mas pareceu ainda pior depois que o título foi mudado
Cinema: 60 filmes pra quem ama Rock e Metal



As emoções que uma música desperta merecem mais atenção que qualquer crítico ou "influencer"
As bandas de heavy metal nem sempre farão a mesma coisa (e isso não é ruim)
Megadeth, Pepeu Gomes e a mania do internauta achar que sabe de tudo
O problema não é usar celular em shows, mas sim fiscalizar os outros
Lobão: a defesa do roqueiro solitário
Preconceito: dificuldades de ser roqueiro em cidade do interior



