A nostalgia está à venda… mas quem está comprando? Muita gente, ao menos no Brasil
Por Mateus Ribeiro
Postado em 13 de dezembro de 2025
A sensação de revisitar memórias, emoções e momentos marcantes acompanha a humanidade desde sempre. No vocabulário popular, o termo "nostalgia" virou sinônimo de um vínculo afetivo com elementos que remetem a um passado idealizado. De acordo com o Dicio (Dicionário Online de Português), a palavra descreve a "saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada, de uma condição que deixou de possuir, de um lugar, de algo que já viveu".

Esse sentimento ganhou força como produto cultural, especialmente na música. E o Brasil se tornou um terreno fértil para esse tipo de experiência: shows de bandas que não lançam discos novos - ou material relevante - há tempos continuam esgotando ingressos em arenas e estádios com uma facilidade impressionante. Trata-se de um fenômeno que combina memória afetiva, identidade geracional e a necessidade - cada vez mais evidente - de reviver uma era de ouro que, na cabeça de muitos fãs, permanece insuperável.
No universo da música pesada, um dos exemplos mais emblemáticos é o Guns N' Roses, responsável por composições que atravessaram gerações e seguem sendo cantadas com entusiasmo por públicos de todas as idades. Liderado pelo vocalista Axl Rose, o grupo acumula quarenta anos de carreira e uma discografia relativamente curta, cujo ápice remete a 1987, com "Appetite for Destruction", e 1991, com as duas partes de "Use Your Illusion". Importante lembrar que o trabalho mais recente é "Chinese Democracy", lançado em 2008 - portanto, quase duas décadas atrás.
Diante desse histórico, seria razoável imaginar que o Guns N' Roses não desperta grande interesse. No entanto, ocorre justamente o contrário. A banda continua lotando estádios pelo Brasil e, enquanto ainda cumpria sua turnê de 2025, já anunciou um novo giro de apresentações para 2026. O repertório, salvo raras exceções, deve permanecer essencialmente o mesmo. E muitos fãs que assistiram aos shows deste ano, repetirão a dose no próximo - algo perfeitamente compreensível.
Mas o que sustenta tamanha demanda por uma banda que não lança um álbum relevante há tanto tempo? Filipe Boni, criador de conteúdo especializado em música, apresenta uma tese interessante, detalhada no vídeo que serve de base para esta análise.
"Enquanto artistas contemporâneos lutam por visibilidade, fazendo lançamentos frequentes de singles, tendo presença onipresente em redes sociais (...), o Guns N' Roses prospera em um vácuo criativo total, transformando o passado em um espetáculo perpetuamente lucrativo. E, na minha opinião, a chave para decifrar esse apelo duradouro do Guns N' Roses reside na memória humana, em compreender essa natureza, principalmente no contexto da memória afetiva."
Na sequência, Filipe explica o mecanismo que sustenta essa força emocional. Para ele, a música funciona como um gatilho poderoso, especialmente quando associada a fases intensas da vida.
"Essas músicas que ouvimos em fases de alta intensidade emocional - como a adolescência ou o início da vida adulta - não são só armazenadas como dados auditivos, mas se fundem à própria estrutura da nossa biografia emocional. Então, quando a gente ouve os primeiros acordes de 'Sweet Child O' Mine', essa experiência vai transcender essa simples audição. O cérebro não vai só recuperar a melodia e a letra. Ela [a música] vai reativar toda a rede neural associada aos sentimentos, aos lugares, aos cheiros, e também às pessoas ligadas nas primeiras vezes que essa canção foi ouvida por você."
Em outro trecho, ele afirma que a indústria cultural percebeu esse potencial e transformou a nostalgia em um produto extremamente rentável. Ao aplicar essa lógica ao Guns N' Roses, Filipe observa:
"O Guns N' Roses vai ser uma demonstração clara desse fenômeno. Não são só shows, mas experiências de imersão nostálgica meticulosamente criadas. Então, o produto não é apenas um conjunto de canções, mas a ativação em massa de memórias afetivas (...). Quando você paga um ticket, é o ingresso para uma máquina do tempo."
Por fim, o criador de conteúdo levanta uma hipótese sobre a própria expectativa do público. Talvez a audiência - conscientemente ou não - prefira não ser confrontada com um novo disco que, inevitavelmente, seria comparado ao passado e correria o risco de comprometer a narrativa nostálgica construída ao longo dos anos.
"O público pode querer, ativamente ou subconscientemente não querer novas músicas das suas bandas favoritas (...). Um álbum recente do Guns N' Roses, lançado agora, funciona como uma âncora indesejada da realidade. E esses singles recentes demonstram claramente isso. Tem que ser muito fã pra gostar dessas novas músicas. E é claro que isso tem a ver também com a qualidade musical que a banda está oferecendo, e que infelizmente, parece que ela já chegou nessa conclusão, que não vai conseguir fornecer nunca mais algo à altura do passado. Isso reforça essa âncora indesejada da realidade caso um disco novo aconteça hoje. E talvez fragilizar essa estrutura de turnês que vem se demonstrando sempre muito lucrativas."
A banda escolhida aqui como exemplo foi o Guns N' Roses, mas o mesmo raciocínio se aplica a outros titãs da indústria musical. System of a Down, Lynyrd Skynyrd, AC/DC, Metallica e tantos outros seguem mobilizando multidões enquanto operam quase exclusivamente na força da atmosfera nostálgica - e, claro, no apoio generoso de fãs que continuam comprando essa confortável viagem ao passado.
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