Hard Rock e Heavy Metal: o bicho de duas cabeças

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Por Paulo Severo da Costa
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Durante o primeiro Rock In Rio, em 1985, a imprensa brasileira, bem como a organização do evento, se viram mais perdidas que cego em tiroteio. Enquanto a primeira chamava os fãs do YES de “metaleiros”, a equipe de organizadores misturava no mesmo dia os shows de NEY MATOGROSSO e IRON MAIDEN – um “freak show” baseado tanto na falta de preparo dos respectivos setores quanto na escassez de shows de ponta na época.

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Pioneirismo à parte, o fato é que catalogar estilos musicais e rotular bandas e “movimentos” (arghh!) são parte da indústria da música e da imprensa do ramo desde que as mesmas começaram a tomar força – em meados dos anos 50. Dentro desse balaio,onde poucos parecem entrar em consenso, uma questão sempre despertou interesse nos fãs do gênero: qual é realmente o limite entre o hard rock e o metal original? Se o metal foi fundado pelo SABBATH, como catalogar HENDRIX, BLUE CHEER e outros que vieram antes?

Primeiro, é bom dizer o seguinte: essa questão de marco zero do metal não é e jamais será um ponto comum. No documentário “Metal: a Headbanger´s Journey”, o antropólogo SAM DUNN faz um retrospecto do assunto partindo da gênese da coisa toda – lá se ouve LEMMY dizendo que o PURPLE foi o primeiro, ROB ZOMBIE dizendo que o SABBATH inaugurou a coisa toda, GEDDY LEE afirmando que o BLUE CHEER marcou território antes. “Bom”- você poderia dizer- “se esses caras não chegam a conclusão nenhuma, como nós mortais vamos chegar”?

Bom, para responder vamos começar com a origem do próprio rock and roll: as primeiras incursões no gênero se sustentavam em um modelo mais ou menos padrão de harmonia chamada de “I-IV-I-V-I” - primeiro, quarto e quinto graus do campo harmônico, a estrutura de quase tudo dos anos 50 – como “Long Tall Sally”, “Rock Around The Clock” e “Johnny B. Goode”. Essa figura musical vinha diretamente do blues tradicional e era conduzida primordialmente por instrumentos como bateria, baixo, piano e sax. As guitarras estavam lá, mas com honrosas exceções - a exemplo de CHUCK BERRY - eram secundárias.

A partir da década seguinte surge a idéia de banda tal como hoje: não mais como meros acompanhantes do vocal, mas como um centro gravitacional próprio, reunido em torno de uma identidade musical. Nessa, o rock se desmembrou em termos de referência, passando a incorporar elementos de jazz, country, jump blues e música étnica. È fácil observar que, apesar de contemporâneos, BEATLES e STONES dos primórdios já apresentavam significativas diferenças: enquanto os primeiros se apoiavam no rock n´ roll de GENE VICENT e em adaptações de acordes de jazz (que foram obrigados a aprender durante o “estágio” em Hamburgo), os STONES calcavam o seu som nas guitarras adaptadas do blues de Chicago, colocando o instrumento a frente das harmonias vocais dos compatriotas de Liverpool .

Nessa invasão Britânica, outras bandas surgiram, como THE WHO, THE ANIMALS E YARDBIRDS. Contando com equipamentos ainda rudimentares – apesar de progressivamente melhores - essas bandas passaram a olhar com atenção aos bluseseiros de Memphis como JOE HILL LOUIS e WILLIE JOHNSON, cujo som mais cru de guitarra passava a ser objeto de atenção. Ainda, as experimentações com jazz a partir do som de bateristas como BUDDY RICH, passaram a fazer parte da elaboração de novas músicas que, por sua vez, passram a ser acompanhadas nas linhas graves por um baixo mais sincopado e alto.

Desse modo, o rock n´roll passou a ser objeto de desejo e bandas novas como THE TROOGS E TRASHMEN passaram a formar o conceito de garage rock. A história do rock conta que o som de distorção passou a ser produzido em casa, com a perfuração de alto- falantes e outras artimanhas. A falta de retorno sonoro passou a exigir uma necessidade maior de volume e a ausência do YouTube na época criou a necessidade de uma reinterpretação de linhas melódicas originais, dando origem a novas abordagens no instrumento. Guitarristas como LINK WRAY passaram a ser redescobertos e os solos de guitarra, de meros adornos, passaram a ser constantes e cada vez mais distorcidos.

Nessa, pousou na Terra um tal de JIMI HENDRIX. Na biografia de CLAPTON ele afirma que nas apresentações pela Inglaterra, o americano causou preocupação entre os guitarristas ingleses - nele inclusive. HENDRIX abordava o instrumento de forma completamente inusitada, adicionando microfonia, pedal de wha-wha, efeitos de alavanca. Mas o principal conteúdo do “alien” era mesmo a atitude: reciclando a loucura de LITTLE RICHARD e JERRY LEE LEWIS no palco, o guitarrista foi além e transformou os shows em experiências sexuais elétricas, criando um contexto além do sonoro para seu som explosivo.

A partir de HENDRIX também se tornou mais forte a idéia do riff de rock n´roll, uma pequena partícula musical que se repete e caracteriza a música. O riff foi usado desde CHUCK BERRY, e imortalizada por KEITH RICHARDS e PETE TOWNSHEND, mas com HENDRIX passou a ser o núcleo melódico, a espinha dorsal da música. Grupos como o CREAM e o DEEP PURPLE, surgidos no final da década de sessenta passaram a ter a idéia de suas canções a partir do riff central. Ainda nessa época os BEATLES gravam “Helter Skelter” e os STONES , “Gimme Shelter”, ambas marcadas pelo som massivo, quase em bloco, fruto de um histórico próximo que incluía “You Really Got Me” do KINKS e as passagens cromáticas de “Sunshine Of Your Love” do CREAM. O hard rock nasce então desse momento musical, beneficiado pela difusão de equipamentos cada vez melhores- em termo de potência sonora - e de uma atitude mais experimentalista da galera que estava começando a misturar o LSD com o formato de suas criações.

Partindo dessa base , grupos como GRATEFUL DEAD e IRON BUTTERFLY começaram a fundir o peso com a psicodelia mais extremada, amplificando e reverberando sua sonoridade, fazendo com que a banda toda tivesse a sua participação como instrumento principal. Essas jams, passaram a acrescer às escalas de blues, elementos de música indiana, européia clássica, escalas flamencas etc. Isso deu ao hard rock características cada vez mais distantes do blues e da temática mais poética, e cada vez mais próxima da relação com temas como ocultismo e o lado “escuro da força”. Mesmo bandas mais “conservadoras” nesse sentido como VANILLA FUDGE e BLUE CHEER, passaram a agregar camadas cada vez mais espessas de volume em seus registros. O BLUE ÖYSTER CULT, começou a criar letras que tratavam de temas mais densos, como maldições e vampirismo, tornando a coisa toda cada vez mais obscura.

Tudo isso – a meu ver - desemboca em uma data: Sexta Feira, 13 de fevereiro de 1970. Respondendo as questões lá em cima, vou com a corrente que entende que OZZY, IOMMI, GEEZER e WARD, bateram a marreta na criação do metal. Porque considerar a estréia em disco do SABBATH como o “big bang” do gênero? A resposta é: síntese. Ao contrário de outras bandas que passaram por um amadurecimento sonoro mais gradual - basta ver a diferença entre os três primeiros discos do LED, por exemplo - o SABBATH chegou com uma idéia pronta, um conceito definido. Desde o debut da banda, os elementos estão lá: as letras obscuras, o vocal psicótico, a cozinha ruidosa, as afinações abaixo do padrão, a guitarra ameaçadora, os trítonos - figura sem a qual eu nem estaria escrevendo esse texto agora.

BUTLER e OZZY já disseram em entrevistas que a primeira vez que ouviram a denominação “heavy metal” já estavam gravando o terceiro disco. Esse pioneirismo, como toda iniciativa, na verdade, só vem rotulado depois.

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Sobre Paulo Severo da Costa

Paulo Severo da Costa é ensaísta, professor universitário e doente por rock n´roll. Adora críticas, mas não dá a mínima pra elas. Email para contato: joaopsevero@bol.com.br.

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